28 de junho de 2015 | Ano 2, Edição #15 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
O mundo constrói a linguagem constrói o mundo

Quando crianças, aprendemos a falar porque queremos coisas. Na necessidade de pedir o que queremos, mas não podemos conseguir sozinhos, vamos aprendendo a usar a linguagem verbal. Também aprendemos a usar essa linguagem para descrever o mundo à nossa volta. Isso acontece com coisas físicas (mesa, cama, boneca, carrinho, etc.) e também com conceitos e significados mais abstratos. Essa linguagem é desenvolvida por imitação: ouvimos outras pessoas dizerem, assimilamos e passamos a usar também.

Já parou pra pensar que as pessoas que nos ensinam linguagem (inclusive essa abstrata) também aprenderam a usá-la com outras pessoas, que também aprenderam a usá-la com outras pessoas? Podemos dizer, então, que a linguagem verbal nos é passada por outros e, sendo assim, ao mesmo tempo em que aprendemos a usá-la, inevitavelmente aprendemos também a reproduzir os significados que ela carrega. É dessa maneira também que perpetuamos e engessamos alguns desses significados, como, por exemplo, os estereótipos. Já ouviu dizer que azul é cor de menino e rosa é cor de menina? E que menino não chora e menina não gosta de futebol? Esse tipo de coisa que se diz, às vezes sem pensar, acaba ensinando às crianças que as coisas são assim. E se o menino quiser chorar e a menina quiser jogar futebol (taí a seleção brasileira feminina mostrando que mulher não só gosta, como é muito boa nisso!)? Pode sim!

Isso nos ensina que, embora tenhamos a impressão de que usamos a linguagem para representar o mundo, o que acontece na prática é que, na tentativa de representar o mundo, nós acabamos construindo significado sobre ele. Ao falarmos para crianças que meninos fazem tais coisas e meninas fazem outras tais coisas, nós estamos ensinando a elas que é assim que elas devem se comportar. E isso se estende para diversas dimensões e esferas da vida e do dia a dia. Ensinamos (como aprendemos) o que é certo e errado, feio e bonito, apropriado e inapropriado, e por aí vai. Isso se chama materialidade da linguagem: é o poder que a linguagem tem, por meio de repetição, de se transformar em significados que parecem tão verdadeiros, que até ganham status de natural. E aí, acreditamos que certas coisas são naturais, biológicas e essenciais, quando, na verdade, elas foram ensinadas e aprendidas de maneira discursiva.

Essa mútua implicação entre discurso e sociedade é importantíssima no nosso cotidiano, pois precisamos usar a linguagem para comunicação e, nisso, estamos sempre carregando sentidos que, muitas vezes, nem são a nossa intenção. É por isso que é muito importante sermos autocríticos e aceitarmos de bom grado críticas de outros quanto a nossas escolhas discursivas. Certos termos que usamos no dia a dia, por mais inocentes que nos soem, carregam, muitas vezes, significados que discriminam e machucam. Já comentamos aqui vários exemplos em um artigo sobre expressões que deveríamos parar de usar, e é esse o motivo. Por mais que não nos consideremos racistas, por exemplo, muitas vezes, usamos uma linguagem que é racista. Nesses casos, nos cabe repensar e utilizar outras palavras. É justamente por causa desse poder constitutivo da linguagem que a crítica a termos e expressões considerados racistas, machistas, homofóbicos, transfóbicos, gordofóbicos, etc., não é frescura, mas sim muito válida. Afinal, é por meio da linguagem que ensinamos aqueles tais significados mais abstratos que falei no início, e esse processo ocorre mesmo que não tenhamos essa intenção.

A linguagem, por ser construída e construtora de significados, é também cultural. É por isso que algumas palavras e expressões só existem em determinadas línguas, entre determinados povos. Sentidos que são importantes em alguns grupos podem não ser em outros. Da mesma maneira, aquilo que entendemos por determinadas palavras pode ser diferente do que outras pessoas entendem das mesmas palavras. É também graças à materialidade da linguagem que somos capazes de nos comunicar: há significados mais estáveis que permitem esse entendimento, assim como há significados mais móveis, que nos dão flexibilidade discursiva e poder de transformação. O que é que vai se fixar e o que é que vai se perder é totalmente imprevisível.

Essa ideia da linguagem como constitutiva do mundo também implica que não existe discurso neutro. Por esse motivo, devemos sempre estar muito atentas ao discurso da mídia, ao discurso da ciência, etc., pois são exemplos de discursos considerados neutros, mas que jamais poderiam ser neutros, afinal, a linguagem em si não é neutra. Quando qualquer pessoa fala, ela faz escolhas discursivas conscientes e inconscientes que transportam ideologias. E isso se manifesta em contextos macro, como o discurso médico, o discurso religioso, entre outros, e também em contextos micro, como bate-papo com os amigos.

A boa notícia é que, se o discurso é sempre ideológico, isto é, carrega um monte de significados que carregam um monte de significados, e se ele é ensinado e aprendido, ele também pode ser modificado. Eba! A linguagem tem o poder de TRANSFORMAR o mundo e isso é lindo. Da mesma maneira que engessamos alguns significados e criamos os conhecidos estereótipos e discriminações – ou seja, por meio da repetição –, nós podemos reinventá-los, usando outras formas de se falar. Um bom exemplo é o uso de palavras como “denegrir” e “esclarecer”. São termos historicamente racistas e já é comum, hoje em dia, vermos pessoas negras excluindo a palavra “denegrir” de seu vocabulário e substituindo “esclarecer” por “escurecer”. Isso pode soar estranho e parecer uma grande bobagem pra você, que usa essas palavras tão inocentemente e jura que não é racista e não usa com esse sentido quando usa, mas, tomando consciência de que a linguagem constrói e perpetua significados, você acha mesmo boa a ideia de fazer questão de usar exatamente palavras que carregam significados tão ruins para tanta gente? É uma questão de ter sensibilidade para com o próximo e de priorizar o que importa.

Ao reconhecermos a importância da linguagem e seu papel de produtora de sentidos, nos tornamos mais conscientes quanto ao seu uso. Podemos, assim, agir como leitores, ouvintes e espectadores mais críticos e também modificar nossos próprios hábitos linguísticos, no objetivo de não contribuir para a continuidade de preconceitos, discriminações e estereótipos que afetam a vida de tanta gente.

Algumas fontes acadêmicas que usei aqui:
AGHA, Asif. Language and social relations. Nova York: Cambridge University Press, 2007.
AUSTIN, J. L. Quando dizer é fazer. Palavras e Ação. Tradução por Danilo Marcondes. Porto Alegre: Artes Médicas, 1962/1990.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990/2003.
LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: Uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes, 2010.
MOITA LOPES, Luiz Paulo da. Identidades fragmentadas: A construção discursiva de raça, gênero e sexualidade em sala de aula. Campinas: Mercado de Letras, 2002.
PENNYCOOK, Alastair. Performance and performativity. In: PENNYCOOK, A. Global Englishes and Transcultural Flows. Nova Iorque: Routledge, 2007.

Laura Pires
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Vlogger

Usa seu vício em séries e Facebook como inspiração para os textos, para a vida e para puxar assunto com os outros. Adora ouvir histórias e conversar sobre gênero, sexualidade, amor e relações amorosas – gosta tanto desses temas que deu até um jeito de fazer mestrado nisso. É professora de inglês, cantora e pianista amadora de YouTube, fala muito, ri de tudo e escreve porque precisa. Ama: pessoas e queijo. Detesta: que gritem.

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