1 de maio de 2017 | Edição #33 | Texto: | Ilustração: Gabriela Nolasco
O mundo está acabando e a culpa é minha
vamola

Talvez você tenha ficado com um frio na barriga no dia 21 de dezembro de 2012, data em que, de acordo com certa interpretação do calendário maia, o mundo acabaria. Em 2009, muita gente acompanhou com receio e curiosidade o início das atividades do Grande Colisor de Hádrons, cujo intuito de simular algo próximo ao Big Bang poderia, na opinião de alguns, acabar gerando um buraco negro que sugaria a Terra. Pode ser que você se lembre do clima de incerteza e angústia que antecedeu a virada de 1999 para 2000 devido à previsão de que com a mudança de ano o planeta sofreria o que ficou conhecido como “bug do milênio”, um potencial causador de pane tecnológica e, em consequência disso, do fim do mundo. O apocalipse tem sido anunciado por diferentes civilizações em diferentes tempos (os romanos, por exemplo, acreditavam que a destruição de Pompéia pela erupção do vulcão Vesúvio, no ano 79, marcava o início da derrocada dos tempos), normalmente relacionado a eventos místicos ou astronômicos. Até hoje todas as previsões falharam, mas pesquisas científicas e dados coletados por Organizações Não Governamentais sugerem que a proximidade do fim do mundo (ou pelo menos da vida terrestre) nunca foi tão real, e o culpado pela catástrofe não é nenhum asteroide ou alienígena, mas o próprio ser humano.

De acordo com a organização WWF, para manter seu padrão de consumo atual, a humanidade precisa de um planeta e meio. Isso significa que usamos 50% a mais do que aquilo que a Terra é capaz de gerar (mesmo com as iniciativas existentes de reflorestamento, recuperação de fontes de água etc.). O problema é óbvio: só temos um planeta. A consequência, segundo especialistas da organização estadunidense Global Footprint Network, é que, se não mudarmos a forma como nos relacionamos com o mundo, no ano de 2030 os recursos naturais terão se esgotado. Nem todos os cientistas concordam com a data exata estipulada, mas é consensual que o estilo de vida contemporâneo, estreitamente relacionado aos princípios capitalistas, está reduzindo nossas possibilidades de futuro.

A boa notícia é que em 13 anos (o tempo que temos até 2030) dá para fazer o bastante para reverter esse quadro apocalíptico, e muita gente já começou.

REDUÇÃO DA PRODUÇÃO DE LIXO

A norte-americana Lauren Singer e a brasileira Cristal Muniz se desafiaram a viver produzindo o mínimo possível de lixo. O mais interessante nessas iniciativas é que elas provam que é possível viver de maneira diferente daquela a que +estamos habituadas. Lauren e Cristal criaram sites nos quais, além de registrarem o andamento do projeto, dão dicas, como receitas de cosméticos caseiros, para aqueles que desejam aderir, ainda que em escala menor, a esse estilo de vida mais sustentável. Você pode conferir em http://www.trashisfortossers.com/ (inglês) e http://www.umanosemlixo.com/ (português).

FORMAÇÃO PARA A SUSTENTABILIDADE

O instituto internacional Gaia Education foi criado por educadores que tiveram experiências bem sucedidas em ecovilas e decidiram levar a perspectiva de inovação sustentável para outras pessoas, apresentando técnicas reais para se pensar em novos modelos de mercado e de relacionamentos interpessoais. São oferecidos cursos online, inclusive em português, voltados sobretudo para a área de design (informações completas em https://gaiaeducation.org/index.php/en/e-learning-portugues).

TEM AÇÚCAR?”: MENOS CONSUMO, MAIS RELACIONAMENTOS

Foi justamente uma aluna da Gaia Education que teve a ideia de trazer para o Brasil uma ferramenta em uso há algum tempo em certos países da Europa. Camila Carvalho é criadora do “Tem Açúcar?”, aplicativo no qual os usuários cadastrados fazem pedidos de quaisquer objetos e produtos de que estejam precisando, tais como vestido de festa, barraca de camping, processador de alimentos, tesoura de jardinagem… E o que mais você puder imaginar. Esses pedidos ficam visíveis para os demais usuários próximos a quem fez a solicitação, que podem oferecer como empréstimo ou doação aquilo que possuírem. O aplicativo permite não apenas economizar e cuidar do planeta, mas também entrar em contato com vizinhos e amigos em potencial, coisa tão rara nos dias de hoje.

FAVELA ORGÂNICA

Regina Tchelly criou em 2011 o Favela Orgânica, projeto que já foi elogiado até pelo Papa Francisco e que inspirou iniciativas semelhantes ao redor do Brasil. A ideia era produzir comida de qualidade (sem agrotóxicos) e com aproveitamento integral do alimento (sem desperdícios). O Brasil joga 39 mil toneladas de comida no lixo por dia, número absurdo que demonstra a falta de cuidado com a vida daqueles que passam fome e com o meio ambiente, afinal, a produção de alimento demanda solo e água e seu transporte demanda energia e gera poluentes. Ao colocar seus planos em ação nos morros do Chapéu Mangueira e da Babilônia, Regina estava se posicionando diretamente frente a todas essas questões, que não podem ser ignoradas em um mundo rumo ao esgotamento de recursos e no qual 800 milhões de pessoas estão subnutridas. Confira mais informações na página do Facebook: https://www.facebook.com/favelaorganica/.

O QUE EU POSSO FAZER?

Os exemplos acima indicam que a mudança parece estar nas pequenas iniciativas, que normalmente começam individuais e, aos poucos, influenciam as pessoas e a comunidade mais próximas. Por isso, no lugar de esperar uma transformação global, é possível adotar pequenos comportamentos cotidianos, que com o tempo podem se expandir e causar impactos positivos. Veja algumas maneiras simples de levar uma vida mais sustentável e preocupada com o coletivo:

  • Reduza sua produção de lixo. Evite utilizar canudos e demais descartáveis. Carregue sempre na bolsa um copo e um guardanapo de pano, leve ao mercado e à feira sacolas reutilizáveis (as chamadas ecobags).

  • Diminua o consumo de carne. Cortar o alimento uma vez por semana já faz muita diferença para o planeta. Para produzir um quilo de carne são necessários 15.500 litros de água. Informe-se sobre o projeto “Segunda sem carne”: http://www.segundasemcarne.com.br/.

  • Compre menos. Toda vez que for adquirir alguma coisa, pare para pensar no quanto realmente precisa daquilo. Lembre-se de que por trás de todo objeto de consumo está a utilização de recursos, o transporte e, muitas vezes, a mão de obra desvalorizada.

  • Compre de segunda mão. Quando deixar de comprar não for uma alternativa, procure comprar artigos usados. Além de ajudar o planeta, você ainda economiza. Há diversos sites e aplicativos que facilitam a aquisição de livros, roupas, móveis em perfeitas condições de uso.

  • Substitua a compra de coisas pela compra de experiências. Vivendo em uma sociedade que gira em torno do mercado, é muito difícil não consumir. Mas você pode priorizar um consumo que afeta menos o meio ambiente e que acrescenta em experiência de vida. No lugar de gastar com cinco blusinhas em um ano, que tal juntar esse dinheiro para ir ao show de um artista que você admire? Economias maiores e ao longo de mais tempo podem virar até mesmo uma viagem.

É claro que não podemos esquecer que as principais responsáveis pela degradação ambiental são as grandes empresas, ao lado dos governos que permitem e muitas vezes incentivam seu funcionamento. No entanto, não podemos nos acomodar e esperar que a mudança parta de cima. É possível que uma forma de consumir diferente estimule uma forma de produzir diferente. Diante disso, outra dica valiosa é consumir do produtor pequeno e local, contribuindo com o desenvolvimento da comunidade mais próxima a você e tendo a garantia de que os objetos adquiridos são de boa procedência. Para o mundo futuro ser possível, ele precisa ser mais justo, mais igualitário, mais a cara dessa juventude que está com as mangas arregaçadas para fazer diferente.

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Leandra Postay
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Sociedade

Leandra Postay é capixaba nascida e criada no mar. Mora em SP e estuda literatura brasileira, pesquisando sobretudo patriarcalismo e violência. A única coisa que sempre quis e continua querendo é escrever. Aprende muito com os livros, mas aprende mais com a yoga e a cozinha. Acredita que um mundo melhor começa dentro de nós.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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