22 de dezembro de 2017 | Ano 4, Edição #40 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
O Natal pode ser para todo mundo

Eu fui criada dentro de uma tradição católica apostólica romana. Sempre estudei em colégios católicos, fiz primeira comunhão e durante um tempo frequentei a igreja todo domingo. Só que lá pelos meus 11 ou 12 anos, aceitei que o que o Credo pregava não era muito mais real pra mim do que o Papai Noel e me declarei ateia. No início eu era bem radical na minha descrença – o que foi um problema bem sério durante as festas de fim de ano porque eu sempre AMEI o Natal.

Desde criança eu passava o ano inteiro esperando por essa época mágica. Não eram só os presentes que me encantavam. Eu amava arrumar a árvore, ouvir as músicas, passear pela vizinhança vendo as decorações nos prédios, ajudar minha avó e minha mãe a preparar a ceia… Até as propagandas de final de ano na televisão me emocionavam às vezes.

Com o tempo eu me tornei mais flexível em relação à parte religiosa (hoje sou mais agnóstica com um pezinho no paganismo do que propriamente ateia, caso você queira saber). Inclusive descobri que o Natal em si tem muito pouco de cristão de fato: foi uma fusão de tradições pagãs, desde a decoração da árvore e distribuição de presentes até a própria escolha da data – ninguém sabe de fato quando Jesus teria nascido, mas 25 de dezembro era o solstício de inverno no calendário romano e muitos povos pagãos já celebravam a data.

Aqui em casa acabamos desenvolvendo nossas próprias tradições também. Por exemplo, toda vez que viajamos, trazemos como lembrança algum enfeite de natal do lugar (às vezes é difícil achar enfeites de natal propriamente ditos então a gente improvisa). Já fazemos isso há muitos anos, então nossa árvore acaba sendo um grande depósito de memórias da família.

Mas a grande questão é que eu percebi que o Natal pra mim nunca foi sobre religião – sempre foi sobre estar com aqueles que eu amo num momento especial. É sobre os pequenos prazeres: enfeitar as guirlandas, passar as rabanadas no açúcar com canela, assistir O Quebra Nozes no teatro pela milionésima vez.* É sobre aquele sentimento de coração quentinho.

Se você é cristã e comemora o natal como uma festa religiosa importante, tudo bem! O meu intuito aqui é só mostrar que pessoas de outras religiões – ou religião nenhuma – não precisam se sentir excluídas das festas de fim de ano e podem celebrar também, cada um à sua maneira. Afinal, a felicidade de reunir a família numa noite especial com decorações bonitas e comidinhas gostosas deve ser universal.

 

 

*Esse ano não vai rolar Quebra-Nozes aqui por motivos de: o Governo do Estado do Rio de Janeiro está com os salários dos servidores atrasados, incluindo os funcionários do Theatro Municipal, que não recebem há meses e estavam praticamente tendo que pagar para trabalhar. É isso mesmo, você não entendeu errado.

Mariana Fonseca
  • Coordenadora de Saúde
  • Colaboradora de Literatura e do Leitura das Minas

Mariana tem 25 e se formou em medicina. Carioca, ama viver no Rio de Janeiro, mas sonha em voltar para a Escócia. É feminista deboísta e acredita que todo mundo merece chá.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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