7 de junho de 2014 | Artes, Edição #3 | Texto: | Ilustração:
O nu
Ilustração: Helena Zelic.

Ilustração: Helena Zelic

Ilustração: Helena Zelic

Texto por Mariana Paraizo

Há dois anos, quando eu brigava praticamente todos os dias com meus pais, considerei sair de casa. Um amigo me ofereceu, entre outros bicos, contatar uma escola de artes a fim de eu me tornar modelo vivo. Na época, a ideia de tirar a roupa e ser observada por um longo tempo por um grupo de estranhos me gerava desconfiança e vergonha. Além disso, ficar parada por tanto tempo parecia ser incômodo (é preciso muita força e esforço para permanecer numa posição, mesmo a mais relaxada, por mais de 5 minutos sem coçar o nariz). Eu achava que meu lugar era atrás dos lápis, desenhando por horas aqueles corpos desmontados. Não entendia muito bem minha função como artista e via essa ideia como algo muito complicado. Acabei desistindo e decidindo pelo caminho mais cômodo: ficar em casa mesmo.

O tempo passou e eu me envolvi cada vez mais com a arte. Não só com a minha, mas com a dos outros: resultado de ler livros, de conversar com os amigos, de virar noite pensando em projetos. Eu não podia mais me limitar. Participar do fazer artístico é muito importante para o artista iniciante.

No começo, eu ficava de calcinha para amigos que não tinham grana para arranjarem um referencial real para os desenhos. Mesmo depois de umas cervejas, costumava ficar vermelha e no dia seguinte nem queria mais pensar nisso. Chegou uma hora, porém, em que admirar o trabalho dos outros me fazia querer fazer parte deles. Já não me incomodava mais comigo e sim em quem me desenharia, com a capacidade artística que ele ou ela teria em me utilizar como meio de arte… E aí está: o modelo, muitas vezes, não é uma pessoa, e sim um objeto de percepção, um meio para a expressão.

Sair deste papel egocêntrico me fez crescer como artista. Quem se prende muito a si e a suas vergonhas perde muito no jogo. É preciso manter o olho no lugar certo, no essencial, sem escrúpulos. Isso não significa, é claro, que você precise ser modelo vivo para se tornar um artista. Mas o processo pode ser, sim, enriquecedor.

É tudo grande parte de uma transformação. Você passa a entender que as roupas pertencem a um tempo e que a arte é atemporal. Você percebe o diálogo entre os artistas, a importância da cadeira, do urinol, do modelo, da natureza morta, de como podem ser apenas veículos da mensagem ou simbolizar tudo o que contêm. O sujeito, entretanto, é aniquilado. Mariana não existe nas fotos que são tiradas. Eu me esqueço e me torno parte da obra.

As coisas nem sempre são tão românticas assim, porém. O olhar externo é um exercício de confiança e nem sempre quem está nu se sente confortável para se sujeitar à possibilidade de ficar constrangido. As reações são espontâneas, você é um corpo e, mesmo que tenha elipsado sua vaidade por uns instantes, ela sempre está a espreita. Mesmo numa turma cheia de alunos te observando, às vezes uma porta entreaberta pode ser motivo de insegurança para uma modelo de longa experiência. Há todo um ambiente que inspira confiança ou não, e mesmo um comentário informal para quebrar o gelo pode inibir o modelo. O profissionalismo é importante; o tato, mais ainda.

A história da mulher representada nua pode ser complexa de diversos pontos de vista, afinal, não é a toa que a maioria dos modelos expostos nos museus são mulheres. A imagem feminina foi, sim, muito manipulada através da história, mas ela permanece como referência de beleza até hoje. A arte não é a publicidade, nem sempre o corpo nu é para vender. Deixar-se ser representado não é vaidade, nem vulgaridade – muito menos pornografia. O nu pode ser cuidadoso e sutil, o nu pode ser chocante, surpreendente. O nu é um tema especial das artes como muitos outros.

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Mariana Paraizo é colaboradora de Artes e ilustradora. Mazô, vim de um planeta onde copos não precisam ser lavados e roubar balas no supermercado não é errado. Estou constantemente viajando em mim mesma e nos meus desenhos. Gosto de cantar, mas o que eu decidi gostar mais foi de quadrinhos. Por isso, a maior parte do meu dinheiro em 2013 foi vertido em livros.
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