22 de agosto de 2018 | Ano 4, Se Liga | Texto: | Ilustração: Kethlenn Oliveira
O Oscar e Get Out! – Uma carta de amor para Jordan Peele

Esta publicação contém spoilers dos filmes Get Out! e Argo.

 

Aos 17 anos, no verão de 2013, eu tomei uma decisão: deixaria de assistir às premiações do Oscar. Não sei dizer exatamente quando comecei a dar atenção ao evento, mas, até então, a festa ainda tinha alguma relevância para mim, a ponto de eu acompanhar transmissões ao vivo com traduções simultâneas e comentários.

O que me levou a mudar de atitude foi a estatueta de Melhor Filme concedida ao ator, diretor, e roteirista Ben Affleck, pelo longa metragem Argo (2012). Nessa narrativa baseada em fatos reais, o próprio Affleck interpreta Tony Mendez, um embaixador estadunidense em Teerã, fugindo de militantes islâmicos e vivendo com outros seis colegas de trabalho como reféns do regime iraniano. Preocupado e buscando sair do país em segurança, o protagonista traça um plano inusitado, porém bem-sucedido, no qual ele e seu grupo se disfarçam e fingem fazer parte da equipe cinematográfica de um falso filme de ficção científica chamado ‘Argo’.

Com essa idade, eu debatia constantemente o imperialismo americano e vislumbrava de relance a maneira como ele encontrava ecos na indústria cinematográfica. Assistindo Argo, percebi que se tratava de mais uma história sobre como o sistema de segurança estadunidense era eficiente, na qual o espectador era induzido a torcer por um mocinho americano, ignorando todo o horror que os EUA vinham provocando no oriente médio através de guerras e artimanhas políticas.

Apesar da justificativa ideológica contar bastante, o que mais me irritou foi o final, quando Mendez e a falsa equipe de cinema estão no aeroporto, embarcando disfarçadamente no avião, até que um soldado iraniano se dá conta de que existe algo de suspeito na aeronave em que os protagonistas acabaram de entrar e tenta impedir sua decolagem, falando com outros oficiais do exército.

Nesse momento, toda a narrativa gira esforços para causar um certo suspense. É como se Affleck estivesse perguntando: tcham, tcham, tcham, será que Mendez conseguirá deixar o país? Quem será mais rápido, o mocinho americano ou o soldado-vilão iraniano? Recurso recorrente – para não dizer batido – este de, no último minuto, tentar colocar a segurança e o sucesso do protagonista em jogo, para que logo em seguida o “bem” vença o “mal”, e as palavras “The End” subam a tela.

Diante das perguntinhas em forma de cena, fiquei possessa, pois sabia que Hollywood jamais me surpreenderia com um encerramento triste para um filme como aquele. Não preciso dizer que, no fim, o avião decolou levando os americanos, Tony Mendez ficou aliviado enquanto o soldado iraniano se agitava em frustração. Provavelmente esse episódio é o mais emblemático da semente de um desejo pessoal por questionar as narrativas clássicas e procurar outras maneiras de contar histórias. Explicando de maneira mais grosseira: resolvi dar um pouco menos de atenção ao cinema comercial e ver filmes “cult”.

Corta para o início deste ano. Me peguei assistindo à premiação do Oscar, na esperança de ver Jordan Peele receber uma estatueta por seu primeiro longa-metragem, Get Out! (2017). A premiação de 2017 já tinha sido revigorante, por conta da vitória de Moonlight (2016), de forma que, depois de cinco anos, resolvi dar mais uma chance e acompanhar a festa. Felizmente, minha escolha não foi em vão: tive a oportunidade de contemplar o discurso de Peele ao pegar a merecidíssima estatueta de Melhor Roteiro Original e pude dormir feliz com o acontecimento.

Get Out! é um filme de terror no qual o jovem Chris decide passar um final de semana no campo, visitando pela primeira vez a família de sua namorada. Durante a jornada, o que deveria ser um divertimento acaba se tornando uma situação racialmente pavorosa.

Ironicamente, assim como em Argo, o que mais me impactou ao assistir ao longa foi o seu final. A diferença é que, desta vez, ao invés de passar raiva, senti uma leve esperança misturada com alegria. Eu me refiro ao momento quando o protagonista mata em legítima defesa toda a família bizarra da namorada e, na estrada, tentando fugir e se salvar, é abordado por um carro de polícia.

Nesse momento da narrativa, é impossível não se lembrar de casos de violência policial e dos conflitos raciais que condenam negros e os encarceram em massa. No entanto, o espectador é surpreendido por um alívio:  quem está dentro do veículo é o melhor amigo de Chris, que trabalha para a polícia aeroviária e veio resgatá-lo. Como um herói, ele coloca o protagonista para dentro do carro e o conduz em segurança no caminho de volta para a cidade.

 

Posteriormente, fiquei sabendo que Jordan Peele chegou a gravar um final alternativo para o longa, no qual Chris é realmente abordado por policiais e preso em flagrante, encerrando a narrativa de forma pessimista e crua. Apesar deste desfecho ter sido rejeitado no momento da montagem, ele foi o primeiro que o roteirista escreveu para a trama – somente depois Peele pensou em concluir a narrativa de maneira positiva.

 

Certamente, o final escolhido retoma a maneira mais convencional de contar histórias. No entanto, pelo fato do personagem ser negro, algo ali me soa novo em meio a uma velha técnica. Talvez o final descartado seja mais aproximado da realidade. Quantas pessoas nas situações de risco que o racismo impõe tiveram a chance de serem salvas de última hora?

Sem dúvida, a relação do espectador com os protagonistas transita entre dois movimentos: precisamos ser capazes de nos identificar com os personagens e, ao mesmo tempo, nos projetar sobre eles. Trata-se de perguntar o que os protagonistas têm de parecido conosco? E o que existe do mundo deles que nós gostaríamos de ter no nosso?

O final oficial, no qual Chris é salvo pelo seu melhor amigo, é o desfecho que desejamos para as histórias reais de toda a pessoa cuja liberdade é ameaçada pelo racismo. E, possivelmente, o encerramento triste é aquele com o qual mais estamos identificados. “Mas a audiência precisava de um pouco de escape”, disse Peele à Revista Essence.

O cinema, quando dentro dos moldes estadunidenses, sempre foi uma máquina de fazer sonhar. Fantasia, reviravoltas, amor, final feliz… Eu tendo a acreditar que, diante das duas cenas filmadas, Jordan Peele se viu diante da necessidade de escolher entre representar todos os negros encarcerados injustamente – e, então, traçar um laço com a audiência através da identidade – ou reescrever um final feliz para vidas tristes no estilo happy ending.

“Representatividade importa”, os movimentos identitários (negros, mulheres, lgbt) reivindicam, com toda razão. Porém, o que me faz amar Get Out! não habita o campo da representação, mas sim o da criação de uma realidade que se mostra possível na telona. Ao escolher o final feliz, inscrito dentro de uma forma hollywoodiana de narrar histórias, o diretor e roteirista alimentou dentro de mim a fantasia de um mundo no qual homens negros se tornam sobreviventes e não vítimas do racismo. É como se alguém tivesse sussurrado no meu ouvido: você também pode sonhar!

Diante dessa obra, tomo consciência de que narrativas clássicas não servem somente para empurrar para debaixo do tapete crimes internacionais cometidos por homens brancos poderosos, como acontece em Argo, mas também para inventar um universo no qual pessoas negras podem viver e contar com ajuda amiga. Assim, volto a me entregar a um determinado cinema comercial, nutrida de profunda gratidão ao roteiro e direção de Jordan Peele.

Ayodele Gathoni
  • Colaboradora de Artes

Ayodele Gathoni tem uns 20 e poucos anos e mora no Rio de Janeiro. Gosta de ver desenho animado, rodar bambolê e confeccionar licores artesanais.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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