9 de novembro de 2014 | Estilo | Texto: | Ilustração:
O Parodoxo do Hipster
hipster

Ilustração: Laura Viana

O assunto mais falado naquele distante ano de 2005 foi O Emo. Repentinamente, todo mundo resolveu se perguntar quem era aquele ser de cabelo lambidinho, que frequentava a galeria do rock sem ser punk, era melancólico sem ser gótico e usava um xadrez que não era o mesmo que o do grunge. E não só  falavam nele: dedicaram-se também a odiá-lo. Notícias de confrontos com Headbangers eram relativamente comuns e, no saudoso Orkut, comunidades do tipo “Sou Emo sim, e daí?” rivalizavam com as “Eu odeio Emo!”. Tempos engraçados, aqueles.

Os próprios Emos não gostaram muito da notoriedade que o assunto tomou e o gritos de “Af, virou modinha!” se tornaram cada vez mais presentes entre os adeptos do estilo, que sentiam sua singularidade escorrendo pelos dedos com a popularização do termo. Mas nessa vida tudo passa, e passou também O Emo. Logo as playlists deixaram Fall Out Boy, Jimmy Eat World e Killi para trás e resolveram lembrar-se dos Strokes que tinham ficado lá por 2003, trazendo com eles Arctic Monkeys, Killers, Kaiser Chiefs, Wando. Foi nesse momento em que, depois de um breve período de incubação em um troço que alguém batizou de From UK, O Emo digievolui para O Indie.

O Indie transformava em parte de sua essência aquilo que O Emo tinha apenas como chilique ocasional: A Síndrome de Underground. O negócio era competir com os amigos para ver quem descobria a banda com menos ouvintes no LastFm ou conhecia o b-side mais esquecido de quando aquele cantor descolado não era nem famoso ainda. O “before it was cool” foi começando a tomar forma: era um cara de barba, calça skinny e camisa xadrez. Soa familiar, não?

A primeira vez em que tropecei na palavra “hipster” foi lá por 2009, obviamente nesta terra de ninguém chamada Internet: alguém me enviara o link de um site – na época, Tumblr também não me era lá muito familiar – chamado Look At This Fucking Hipster, que reunia uma série de fotos de gente muito estranha usando coisas muito estranhas e fazendo coisas muito estranhas. Tudo. Muito. Estranho.

Aparentemente, eu é que não era descolada o suficiente, pois o termo já andava circulando por aí há algum tempo. Os descolados que gostavam de jazz antes de todo mundo lá por 1940 já eram chamados assim, os beatniks que vieram logo depois andaram flertando com a palavra, e pelos idos de 1960, aparecem os hippies, que, ao contrário do que você diz ao corrigir seu pai, têm sim relação terminológica com o cara de bike fixa usando Macbook na Starbucks dos anos 2010.

Basicamente, o conceito de hipster foi, durante um bom tempo, uma imagem guarda-chuva que abrangia toda a sorte de esquisitão que tentasse ser diferente da maioria. Mas essa diferença nunca foi mera característica estática, paradinha no tempo, e sim uma ideia de antecipação de tendência: hype é aquilo que ainda não é, mas virá a ser pop, mas que já é pop entre um pequeno grupo de – muitas vezes auto-proclamados – “formadores de opinião”. É um ciclo em que determinada coisa – seja jazz, pacifismo ou bigodes – , no geral oposta ao que é popular entre as massas naquele momento, é descoberta por determinado nicho e vai tendo sua popularidade amplificada até que, quando menos percebemos, é completamente massificada novamente. É como o ciclo de vida de um meme, que costuma surgir em algum canto obscuro da internet, passa pelos Chans, depois pelo Reddit, chega ao Tumblr, ao 9gag e, quando você vai ver, já foi compartilhado pela sua tia avó no Facebook.

E é curioso notar que grupos – emos, indies, hipsters – que procuram se destacar pela diferença acabem se tornando tão parecidos. Tão curioso que o neurocientista Johnathan Touboul desenvolveu um artigo científico, maravilhosamente batizado de “O Efeito Hipster: Quando Os Anticonformistas Parecem Todos Iguais”, para explicar matematicamente porque estes contra-movimentos não conseguem escapar do processo de auto-massificação.

Touboul defende por meio de fórmulas matemágicas bem assustadoras que um grupo de indivíduos – “hipsters, negociadores de ações ou qualquer grupo que decida ir contra a maioria” – acabará fazendo a mesma coisa ao mesmo tempo ao tentar ser diferente da maioria. Isso porque é impossível saber em tempo real qual será a decisão de outra pessoa, e o hipster precisa tomar sua própria decisão de ser diferente antes de saber do que ele se diferenciará. Ou seja, é praticamente impossível ser um do contra 100%, a não ser que você possa ler o futuro e tenha a capacidade de se reinventar a cada segundo.

Então, basicamente, os não-conformistas acabam se conformando em sua não-conformidade, porque dá trabalho demais rastrear todas as tendências e se transformar a cada vez que elas mudam. Confuso, não? O que acontece é que a contra-atitude, que era só uma tentativa de ser diferente, acaba se tornando característica que define um grupo, parte de sua identidade. A coisa em comum a todas as pessoas classificadas daquela forma. O que as torna iguais. Hihihi.

E aí a gente vê o que foi que matou o hipster: o conceito foi de definição generalista da pessoa esquisitona que não segue a maioria para o nome de um estilo, aquele das pessoas de cabelinho de Skrillex, roupa de brechó e bigode de Dom Pedro, ou seja, tornou-se o processo de massificação ao qual se colocava contra no começo da história toda. É tipo o paradoxo abordado por uma outra comunidade do Orkut, que tinha como título algo tipo “A moda é ser alternativo” e propunha o nó mental de imaginar que, neste caso, se você está na moda, você é alternativo, mas não é, porque, bem, você está na moda. E se você não está na moda, significa que você é alternativo, logo, você está na moda, logo você não é alternativo e a gente pode ficar pra sempre nisso. Eta, complexidade!

Então acho que já dá pra gente parar de se esforçar tanto assim pra ser diferente e abraçar de vez o normcore.

Brincadeira, pessoal. Continuem sempre na busca por um estilo que reflita o grãozinho de areia único e especial que cada um de vocês é. É importante. Só parem de usar a palavra hipster, porque ninguém aguenta mais, né?

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Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

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