25 de junho de 2015 | Ano 2, Edição #15 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
O peso dos palavrões

“A gente aprende o sentido da palavra primeiro no corpo, no sentimento, depois a gente entende o que aquilo quer dizer” – Valeska Zanello, palestra Por que xingamos homens e mulheres de modo diferente?, TedXUnB

Talvez eu sempre tenha sido uma pessoa meio desligada, mas posso contar muitos palavrões cujo significado literal só fui descobrir anos depois de adotá-los no meu vocabulário. Lembro, também, que esse fato nunca impediu que as pessoas entendessem exatamente o que eu queria dizer (e vice-versa) quando elas ouviam um “vai se foder”, “que coisa foda”, “cu”, “porra”, etc. Tudo o que eu sabia (e acho que posso incluir muito mais gente aqui) era que essas palavras eram horríveis e provocariam raiva na pessoa, ou que indicariam a intensidade da raiva ou admiração (como um “Cu!” proferido depois de pisar num lego, no primeiro caso; e um “que filme foda!” no segundo) que eu estava sentindo.

A verdade é que nós raramente paramos para pensar no significado verdadeiro daquilo que usamos como xingamento. Porra, merda, escroto, foda, puta, filha da puta, viado, caralho, buceta, cu, vai se foder, vai tormar no cu. Se a gente for pensar nisso, eles fazem referência a sexo e funções corporais. E aí você se pergunta: o que faz dessas ações e coisas algo horrível a ponto de ser a nossa primeira ferramenta para ofender uma pessoa?

Quando se trata de linguagem, palavrões são consideravelmente universais dentro de cada uma, no sentido de que todos os falantes de certa língua usam os mesmos palavrões. Consequentemente, eles são um reflexo da sociedade em que vivemos – particularmente, o que ela considera inferior ou inadequado para determinada pessoa.

Por exemplo, quem disse que ser “puta” é ruim? Ou dar o cu? Ser “viado”? A conotação negativa dada a todas essas palavras deixa explícito que mulheres devem ser passivas sexualmente (uma vez que a palavra “puta” é usada para se referir a qualquer uma que não o seja); que práticas sexuais características de homens homossexuais são indesejáveis, que ser homossexual é inadequado.

Se pensarmos em palavrões na língua inglesa, tais como “pussy” (termo vulgar para vagina, equivalente a “mulherzinha”), “dickhead” (que faz referência ao pênis), “faggot” (termo vulgar para homossexual), veremos que a tendência é a mesma: o feminino é relacionado à passividade – falta de atividade sexual, falta de força – e o masculino, à virilidade. A heterossexualidade é normativizada, e insinuar que alguém seja homossexual é um insulto. E para completar tudo isso, toda e qualquer atividade sexual é considerada um tabu.

Porém, existe algo muito importante, que, quando se trata de palavrões, precisamos levar em conta: contexto. Apesar de não mudar o histórico e valor representativo dessas palavras, é evidente que existe uma diferença gritante entre usar um palavrão para xingar alguém e usá-lo de forma avulsa para expressar raiva. E mais: ao focarmos somente nos palavrões, corremos o risco de esquecermos que qualquer coisa pode assumir um sentido negativo – e tão intenso quanto um palavrão – quando dito em certa entonação. Por exemplo, a palavra “comunista” em um meio conservador pode ser encarada como ofensa, e vice-versa.

Com tudo isso, ninguém quer dizer que você deve parar de usar palavrões – todos sabemos que isso não é algo natural. Refletir sobre por que você ataca pessoas por suas escolhas – vida sexual, aparência, preparo físico, saúde mental – é, no entanto, um exercício importante para melhorar a nossa convivência e parar efetivamente de reproduzir visões preconceitosas sem nem ter consciência disso. Palavrões, como parte de uma linguagem, são uma ferramenta de expressão – e cabe a nós usá-la com cuidado.

Brena O'Dwyer
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Brena é uma jovem carioca de 22 anos que cada dia tem um pouco menos de certeza. Muda de opinião o tempo toda e falha miseravelmente na sua tentativa de dar sentido a si mesma e ao mundo em que vive. Gosta de ir ao cinema sozinha as quintas a noite e de ler vários livros ao mesmo tempo. Quase todas as segundas de sol pensa que preferia estar indo a praia, mas nunca vai aos domingos.

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