26 de janeiro de 2015 | Edição #10 | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
O poder da natureza
Ilustração: Bia Quadros.

Por volta dos meus quatro anos de idade, meus pais alugavam uma casinha no interior de Minas Gerais. Íamos para lá quase todos os fins de semana. Durante a noite, nós ficamos enfurnados dentro de casa; lá fora era escuridão das mais escuras, não dava nem pra ver um metro à minha frente e o céu parecia um manto repleto de pontinhos brancos. Durante o dia, eu ia brincar com o filho do moço que morava lá, correndo atrás de pintinhos, alimentando os porcos (que iam logo ser comidos), explorando a mata que tinha ao redor e, eventualmente, colhendo legumes e ervas na horta.

Aos 10 anos de idade, em um cenário totalmente diferente, no meio da caótica metrópole, durante o verão, nós recebíamos diversos alertas de furacões. Ninguém podia ficar nas ruas durante um furacão, a cidade ficava deserta e a população inteira se escondia dentro de casa, ou em abrigos, esperando a tempestade passar. Quando a gente saía na rua pela primeira vez, o cenário era quase apocalíptico: árvores caídas, folhas por todos os lados, alguns lugares inundados, algumas casas destruídas. Nada poderia impedir um furacão de acontecer, o máximo que fazíamos era colocar tiras de maneira nas janelas para não quebrar vidros. O restante era inevitável.

Duas situações totalmente diferentes, mas algo as conecta. Falar de natureza, a grande mãe Natureza, geralmente envolve dois extremos que em algum momento se encontram. Natureza é sinônimo de floresta Amazônica, de ervas medicinais que curam o que der e vier e de praias com águas cristalinas. Natureza também é sinônimo de destruição, de tsunami no Japão, de furacão em Nova Orleans, de neves de cinco metros de altura. E, como todos sabem, na Natureza, da destruição há sempre um recomeço; é como se reerguer após um colapso nervoso, se me permitem chamar assim (ela é como nós: temos dias terríveis, mas sempre há um recomeço… leve esse conselho para a vida, pequeno gafanhoto).

No Brasil, a Natureza geralmente não é associada ao terrível, nós somos o país “belo pela própria natureza”, apesar de possíveis opiniões conflitantes. O poder da Natureza se manifesta no nordeste do Brasil, onde milhares de animais e humanos esperam o ano todo sem água, vivendo na seca, sem comida que cresça, sem animal que sobreviva, pela chegada de uma chuva que destrói ao cair e que vai embora tão rapidamente quanto chegou. Ela se manifesta na Amazônia, tão densa, tão cheia de diversidade, repleta de espécies de animais e plantas que hoje estão quase em extinção; uma Natureza que deu de comer e moradia para muitas tribos indígenas. A gente vê o poder dela se manifestando no litoral do Brasil, ao observar as incríveis árvores da mata atlântica, o mar (às vezes nervoso, às vezes piscina), os ventos quentes que trazem chuva ao encontrar a costa terrestre. Nós também a vemos nos pampas do Sul, nas araucárias por todos os lados, no clima frio num país tropical; até neva às vezes lá, vocês acreditam?

Felizmente, o Brasil se encontra em uma região do mundo bastante privilegiada. O clima é bastante ameno, nada muito quente, nada muito frio, nada comparado ao deserto do Saara ou aos desertos de gelo do Polo Sul. O nosso país fica bem no meio de uma grande placa tectônica, o que significa que nunca teremos um grande terremoto ou tsunamis. Nós não temos furacões, não temos tornados. Tempestades de areia? Talvez umas pequenininhas. O poder da Natureza que estamos acostumados é gentil; ela nos abraça carinhosamente, nos alimenta com frutas incríveis, nos banha com águas mornas e chuvas ocasionais. Até os animais que aqui vivem não são assustadores (imagina na savana da África, lá tem leão, leopardo, guepardo, crocodilo, elefante, rinoceronte, hipopótamo, hiena e najas, aqui nós temos onças, jiboias, piranhas e, no máximo, um sapinho colorido venenoso).

Em outras partes do mundo, a mãe Natureza fez questão de mostrar o seu lado mais feroz. O Haiti, por exemplo, já possui uma história bastante pesada de intrigas políticas e, pra contribuir, a pequena ilhazinha se encontra numa região com maremotos e terremotos, além de ser constante vítima de furacões. Em lugares assim, muitas vezes a Natureza leva a culpa pela situação das pessoas, embora o governo pouco invista em estrutura e continue mantendo o país num estado de miséria e exploração. A ilha de Sumbawa na Indonésia vive ao lado de uma bomba-relógio natural. Em 1815, o vulcão Tambora acordou, espirrou e jogou aos ares um fluxo enorme de lava e pedras a 500 graus celsius morro abaixo, o que acabou matando 92 mil pessoas! Ao leste dos Estados Unidos, existe um lugar chamado o tal triângulo das Bermudas que é culpado por milhões de histórias de desaparecimentos de aviões, barcos… e aí a gente fica se perguntando, até que ponto o poder da Natureza consegue chegar?

Existem milhões de exemplos possíveis, alguns são assustadores, outros maravilhosos e de cair o queixo. Nós devemos muito à natureza. Sem ela, talvez nem existiríamos. Pensar na Natureza é parecido com pensar na imensidão do espaço, dá aquela agoniazinha, uma vontadezinha de chorar, como pode algo ser tão incrível? Mas é difícil falar da mãe Natureza assim quando o seu poder é tão visual. Então, pra acabar o texto, eu vou colocar abaixo um vídeo bem breguinha, mas que me dá uns arrepios imensos. Afinal, ninguém é de ferro.

Dora Leroy
  • Coordenadora de Quadrinhos
  • Ilustradora

Dora Leroy tem 21 anos e acredita que o universo é grande demais para não existir outras formas de vida inteligente por aí. E, enquanto espera uma invasão alienígena acontecer, gosta de ler livros que se passam em universos mágicos e zerar séries do Netflix.

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