10 de julho de 2015 | Ano 2, Edição #16 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
O poder de ser quem se é?

Eu sempre quis ser uma pessoa misteriosa porque todos os filmes e livros me diziam que mistérios davam um ar cool e sedutor – e quem não quer ser cool e sedutor nesse mundo, não é mesmo? Assim, passei minha adolescência inteira tentando ser a mina misteriosa que eu claramente não era. Mas eu tentava e tentava. Tentava esconder meus sentimentos, meus gostos, me esconder em um ar nebuloso de silêncio e mistério. Mas eu adorava falar sobre tudo e sempre fui péssima com mentiras. Por muitos anos, me enganei repetindo a mim mesma que eu não era uma pessoa transparente, até que chegou a um ponto que não pude mais ignorar minha natureza.

Acontece que eu estava conversando com uma garota que eu não gostava e, na minha cabeça, eu tinha certeza absoluta que parecia estar superinteressada. Foi quando meu melhor amigo cochichou no meu ouvido que eu estava com uma cara horrível, quase uma careta. A partir daí, desisti de tentar ser algo que eu não era.

Eu não sou e nunca vou ser uma mina misteriosa e daora como a dos livros e filmes. Nunca vou ser como a Ramona Flowers (Scott Pilgrim), a Clementine (Brilho eterno de uma mente sem lembranças), Jordana (Submarine), a Mia (Pulp Fiction), a Effy (Skins) e muito menos serei como todas as virgens suicidas. E tudo bem.

Quero que saibam o que faço, o que penso, com quem convivo, quem são meus pais, os livros que leio, as músicas que escuto, meus filmes preferidos. Quero que conheçam minha história porque ela explica meu posicionamento no mundo. Quero que entrem no meu quarto e fucem cada canto, que vejam minha estante repleta de livros, que leiam todas as frases escritas na minha porta, que vejam os desenhos que tenho pendurados, que sentem na minha cama e me vejam ali dentro, dentro do lugar do mundo que me sinto mais segura. E quero que isso seja recíproco.

Não basta trocar uma ideia no meio de uma festa. É preciso estar confortável a ponto de fazer cocô na casa do outro. É preciso chegar a um ponto em que se entende porque a pessoa age ou produz algo de uma maneira e, mesmo sem gostar ou concordar com aquilo, olhar para ela e entender por que ela fez aquilo. E, depois de entender o porquê, entender também a necessidade de ter sido daquele jeito (porque era aquela pessoa, e aquela pessoa pensa daquela maneira, vê o mundo assim, mesmo que eu veja assado).

É que ser transparente é se conectar com as pessoas. E de que adianta uma vida em que os outros continuam em anonimato? De que adianta experiências, sentimentos, histórias se não temos gente para trocar conosco?

É claro que, em um mundo como o nosso, é compreensível a necessidade de guardar segredos. Ainda mais quando estamos falando de nós, garotas. Criaram para a gente essa série de regras de personalidades e gostos que nos limita e machuca. Se vestimos rosa, somos fúteis. Se ouvimos Nirvana, nos achamos incompreendidas. Se jogamos videogames, somos nerds. Tudo o que fazemos, usamos e gostamos nos coloca em uma caixinha que não nos representa. Assim, esconder parte dessas coisas é uma forma de se proteger, de não ser colocada em uma caixinha em que não se quer estar.

Ser misteriosa é se proteger, não deixar entrar pessoas que vão nos colocar nesses lugares que não queremos estar. Escondendo quem somos, temos esse poder secreto, a chance de dizer com gosto “Você não sabe quem sou” quando alguém vem tirar satisfação.

Podemos nos revoltar, nos transformar, surpreender a todos e ninguém poderá dizer nada, porque isso faz parte do mistério que levamos conosco, dos segredos que guardamos fundo no peito. De nossos guilty pleasures (prazeres culposos, em uma tradução livre tosca) às nossas verdades mais absolutas. Isso tudo está dentro da gente, borbulhando. E escolher mostrar isso ou não nos dá esse sentimento de poder em um mundo que está sempre tirando nossa força.

O problema é que também colocaram para nós a caixinha da garota misteriosa. Como disse lá no começo do texto, ela é cool e sedutora, seu poder está nisso. Ela é a grande protagonista do filme, série ou livro. Todos a amam. E sua melhor amiga é transparente e completamente tapada, o alívio cômico da história. São tantas, mas TANTAS ficções assim que, de repente, você que não tem nada de misteriosa começa a se sentir horrível por não ser o ideal de garota que colocam nos filmes.

Mas você não é mais tosca ou boba ou idiota. Você não é um alívio cômico por não esconder coisas dos outros. Você é uma pessoa complexa, incrível e fascinante. Da mesma forma que uma pessoa misteriosa é. Não é porque você não esconde seus sentimentos ou sua história que você automaticamente se torna boba. Aliás, nunca conheci uma garota boba minha vida inteira. Para mim, isso é mito de ficção escrita por homens.

Mas cria-se esse dilema idiota: ser misteriosa versus ser transparente. E é difícil brigar com isso quando o mundo inteiro nos diz para escolhermos a primeira opção. Mas a vida não é um jogo de pôquer e nós não precisamos nos meter em briguinhas de poder relacionais, criar estratégias mirabolantes e nos afundar em milhões e milhões de picuinhas. Tudo bem sermos nós mesmas e ficarmos tranquilas quanto a isso. Ser transparente tem um pouco disso. E isso não exclui que ser misteriosa também não seja ser você mesma.

É importante ter claro também que, apesar de muitas vezes colocarem como a mesma coisa, ser misteriosa é diferente de ser reservada. Dá para ser misteriosa e toda da zoeira, da mesma forma que dá para ser transparente e reservada. Não estamos falando aqui de temperamento, mas de formas de se colocar no mundo. Também é importante mesmo saber que não existe problema nenhum em ser uma ou outra coisa – ou mesmo ser nenhuma das duas! O essencial é e sempre será não esconder as coisas de si mesma. Até porque, quando você assume as coisas para você, muitas vezes se torna natural admiti-las para os outros. Mas isso vai de cada uma, e tá tudo certo, desde que você seja fiel a si mesma.

O ponto sobre ser transparente e admitir tudo para si e para os outros é que, sem manter segredos, já não existe medo de alguém descobrir aquilo que você esconde (você não esconde nada). Você também não gasta energia pensando nisso, receando que alguém descubra aquilo que você não quer. Você não tem mais guilty pleasures porque não há culpa alguma nos seus prazeres. Você não está na caixinha da garota misteriosa, você não tem que manter essa personalidade para nada na sua vida. Tudo se torna pleno e verdadeiro. Você gosta do que gosta e desgosta do que desgosta. E um dia isso pode mudar, mas por enquanto é assim e está tudo bem, sem problema algum.

Ser transparente, de certa forma, é abraçar a si mesma – e isso significa também se surpreender consigo, entrar em crises, recusar o que a sociedade te impõe simplesmente porque aquilo não faz sentido. Mais do que tudo, é abraçar os próprios medos. O medo de ser julgada, de ser colocada em uma caixinha em que você não se encaixa. O medo de se entregar às relações pessoais, de acreditar nos outros, de quebrar a cara muitas vezes. Talvez, ser transparente seja isso, a forma que encontramos de lidar com os próprios medos.

Crescer sempre dói. A gente sempre quebra a cara muitas vezes no meio do caminho, a gente sempre se pergunta demais sobre os caminhos que podemos seguir, sobre as pessoas que queremos e vamos levar conosco, sobre as mudanças constantes que nos envolvem em um furacão. Talvez – e apenas talvez – ser transparente seja admitir que você mesma é o olho do furacão e deixar fluir.

Nossas ideias, nossos pensamentos, nossas opiniões, nossos gostos e desgostos, nossas verdades e todos os nossos sentimentos sempre estarão borbulhando dentro de nós. Ser transparente é aceitar isso, sem necessariamente aumentar o fogo. É abraçar tudo o que temos em nós – as qualidades e defeitos – e tentar entender cada dia um pouco mais que, quando somos plenas, somos poderosas.

Cada garota é verdadeira à sua maneira – misteriosa ou transparente ou nada disso! Isso não faz diferença quando se é sincera quanto ao seu jeito de ser. E aceitar isso, abraçar a si mesma e suas próprias mudanças é também abraçar o nosso maior medo: que somos poderosas além do que conseguimos controlar.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

  • Alice

    Me indentifiquei muito. Eu também já quiz ser uma pessoa misteriosa e cool… Sou geminiana e não deu muito certo (não consigo não falar o que eu penso), rsrsrsr

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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