8 de janeiro de 2015 | Edição #10 | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
O poder invisível

Por mais que a gente se relacione de forma única com cada uma das pessoas ao nosso redor, é perceptível a existência de uma certa diferença entre as relações, uma tal hierarquia. Eu nunca entendi muito bem essa divisão. “Uns mandam, outros obedecem.” “Uns podem mais, outros podem menos.” Pra mim isso sempre pareceu meio estranho. Porque cargas d’água minha voz não pode ter a mesma força que a voz de outro alguém? Afinal, relacionamentos não são baseados em trocas? Pois é. Em casa, na escola, na faculdade, no trabalho, nas amizades, na vida. Sempre tem uma estrutura de poder entre nós. As pessoas mais velhas tomam as decisões, professores/as sabem mais, diretores/as devem saber de tudo, estudantes estão ali só para aprender. “Não! Porque quem manda sou eu!”.

Um lugar em que estas estruturas são muito evidentes (porém complexas, ainda assim) é o espaço educacional. Na escola ou na universidade podemos ver o quanto cada grupo de pessoas está sempre submetido a outro grupo. Vamos falar concretamente… Esse espaço é formado essencialmente por uma direção, um corpo de professores e/ou professoras, um corpo de funcionários e/ou funcionárias e um corpo de estudantes. Conforme cada um de cada grupo desses se cruza, um tipo de relação diferente se dá. O/a professor/a é superior ao/à estudante mas, por outro lado, não é superior em relação à direção. As/os funcionárias/os estão, de alguma forma, submetidos a todos os outros grupos mas, dependendo inclusive de qual tarefa se exerce, a relação hierárquica é diferente. Por exemplo, quando falamos de funcionários administrativos ou funcionários que trabalham com a limpeza do espaço. De forma mais complexa ainda, conseguimos enxergar as relações de poder dentro dos próprios grupos: entre estudantes sempre há o “veterano”, o mais velho que acha que pode se colocar de forma superior em relação aos mais novos e por aí vai… Poderíamos desenhar uma rede enorme de relações de poder com essas mesmas personagens nesse mesmo espaço.

Pra além dessa imposição meio abstrata na relação entre as pessoas, as estruturas de poder se apresentam também de forma concreta. Pare para pensar: na sala de aula o/a professor/a está à frente da turma, em pé, às vezes até sobre um pequeno palco, enquanto estudantes ficam sentados em fileiras organizadas; a sala da diretoria é território quase inalcançável; alguns funcionários estão sempre ali te dizendo o que você pode fazer, onde pode ir; o uniforme faz com que estudantes estejam vestidos da mesma forma, transformando as pessoas em um padrão com se não tivéssemos as nossas especificidades; a divisão em turmas/séries faz com que todos os estudantes tenham que ter o mesmo tempo de aprendizado em diversos tipos de conhecimento. A própria denominação “série” me remete imediatamente a uma produção, em que um número tal de estudantes precisa passar para a próxima fase em um espaço de tempo específico. Tudo isso demonstra e colabora diretamente para a definição dessas relações de poder entre as pessoas, afinal, assim se têm justificativas concretas para a hierarquia.

A posição do/a estudante acaba sendo bem difícil. Sair de qualquer um desses padrões nos faz estar em um lugar de inferioridade ainda maior. Se cria um espaço de competitividade e cobrança entre todas as personagens desse ambiente. Todas querem se destacar mas, ao mesmo tempo, não há muito espaço para se apresentar como se é, fora dos padrões. Discordar ou questionar qualquer coisa pode ser uma tarefa mais difícil e assustadora até do que aquele 10 em *insira aqui a disciplina que você tem mais dificuldade* (eu diria física ou matemática). É importante perceber que todas essas obrigações e relações de poder são construídas socialmente e que não é um problema ter um tempo diferente de aprendizado ou discordar de alguém que, nesse ambiente, se coloca de forma superior a você.

No fim das contas, somos todos e todas absolutamente diferentes e, assim, quanto mais flexível o espaço, mais agregador ele é. Se o/a professor/a se dispõe a ouvir o/a estudante em um questionamento, com certeza esse será um momento de troca e aprendizado para ambos, independente do resultado final. Isso serve para o/a professor/a mas também para pais e mães, avós e avôs, tias e tios, para amigos ou amigas, para namoradas ou namorados, enfim, para todo tipo de relação. Isso é a construção de um espaço de troca mais igual e horizontal. É ver que as relações não precisam seguir essa hierarquia imposta, que o poder que cada um tem não deve se sobrepor ao do outro. Aulas em roda ao invés de palestras, mais espaço de diálogo entre todos os familiares, construção coletiva das regras de convivência, ouvir com atenção independente de idade, posição social ou cargo, por exemplo, não são ações impossíveis e podem ajudar muito na desconstrução do poder nas relações.

Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

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