10 de março de 2018 | Ano 4, Edição #43 | Texto: | Ilustração: Isadora Fernandes
O potencial vai além do pessoal: aceitação no Esporte

O esporte é, sobretudo, um trabalho social. Não é entretenimento, não é dinheiro. É conquista de um povo e batalha de um povo. É claro que passa na TV com maior frequência que outras causas da sociedade; é claro que rola mais dinheiro que todas as demais questões públicas – a ponto de um dos principais jogadores de futebol do Brasil e do mundo dizer que ‘não se faz Copa do Mundo com hospital’. Mas, o esporte é inclusão. E isso só muda quando ele mesmo não faz seu papel.

Caso Tiffany

A Superliga Feminina de Vôlei teve a ‘faca e o queijo’ na mão para dar voz a uma causa social, inédita até então nas principais séries esportivas do país: a participação de uma atleta transexual na competição.

Tifanny Abreu veste a camisa do Bauru, time do interior paulista, e tem abrilhantado o time como protagonista ofensiva nos jogos. Sua média é de mais de 20 pontos por jogo – chegando a anotar 39 em uma mesma partida, diante do Dentil Praia Clube. O que era para ser um exemplo positivo de superação e aceitação torna-se um rebuliço no mundo esportivo. A jogadora, infelizmente, não tem sido aplaudida de pé como merecia, nem tem se tornado ídola de sua equipe. Ao contrário, tem recebido duras críticas e rejeição até mesmo de outras jogadoras, que colocam suas questões físicas – por ter sido considerada homem ao nascer – em pauta.

A questão que fica é: sua força, de fato, é maior que a das adversárias? Se não se destacasse tanto na quadra, sendo então uma jogadora mediana, haveria toda essa manifestação? Seria sua força uma desculpa contra a aceitação de sua condição pessoal?  

Paralimpíadas

O esporte é um reflexo bem nítido da nossa sociedade – o que prova mais uma vez como está enraizado em nossa cultura. Se nossos deficientes físicos têm suas dificuldades de aceitação no meio em que convivemos, não é diferente quando se tornam atletas.

Conte-me quem são seus ídolos paralímpicos. Sabe quais são os principais medalhistas brasileiros nos esportes adaptados? O Brasil é conhecido pelo seu preconceito e nem os Jogos de 2016, no Rio de Janeiro, ajudaram as nossas aceitações. Foi preciso intervir para que o cenário mudasse ou ao menos melhorasse.

Poucos ingressos vendidos, pouco apoio comercial, acessibilidade mal feita e mal pensada e uma oportunidade incrível de inclusão deixada de lado.

O mais do mesmo

No esporte todo mundo sabe mais que o outro. “Do goleiro ao centroavante, do juiz ao presidente”, cada um tem suas verdades e são elas que ditam suas ações. Algumas verdades viram leis, outras, gritos de torcida e algumas até estereótipos. Já ouviu falar que homem que joga vôlei é gay? Mulher que joga futebol, também. O contrário é o “paraíso”: mulheres do vôlei são “as gostosas” e os homens do futebol os “bambambans”. Sem contar os diversos casos de racismo por parte de torcedores e até países inteiros.

Essas “marcas” nada condizem com o que, de fato, um atleta precisa apresentar em campo, na quadra, tatame e etc. Mas, ainda assim, são desculpas para suas atuações – positivas ou negativas. A aceitação de quem foge desses padrões é um tabu a ser batido pelo tradicionalismo – mais do que isso, pelo retrocesso – do universo esportivo. Está enraizado no torcedor, jogador, clubes e federações. Aceitar o “novo” ou simplesmente respeitar as diferenças viram quase uma equação que o resultado é sempre muito longe ou difícil de terminar em abraçar as causas. Repense.

Queka Barroso
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  • Colaboradora de Esportes

Nascida na geograficamente pequena, mas amorosamente imensa, Barroso/MG, Queka quis homenagear sua cidade colocando-a como sobrenome - o nome, aliás, é Jéssica, mas isso só no RG. Moradora de Belo Horizonte desde os cinco anos, foi na capital mineira que se formou jornalista e exerce e estuda a profissão na área esportiva - sua maior paixão. Nasceu em fevereiro, é amante do carnaval e é do signo de Peixes. Embora não tenha conhecimento sobre astrologia, sabe que tudo que falam sobre pisciano bate com sua personalidade. Queka agora escrever e transcrever as escritas de Rubem Alves (no blog Sou Muitos) e Nelson Rodrigues (em um livro ainda em construção). Na cozinha, o que não sabe fazer, sabe comer. Se for uma boa comida mineira ou coxinha então... Quando não tem jogo, certamente está assistindo Padrinhos Mágicos, Matilda ou Frozen. "Você quer brincar na neve?"

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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