21 de junho de 2015 | Ano 2, Edição #15 | Texto: and | Ilustração: Heleni Andrade
O protesto é a linguagem dos ignorados

Para podermos nos situar no tema do hoje, vamos partir de duas perspectivas. De início, vamos falar sobre quem conta nossa história, depois, veremos de que forma temos conseguido, ao longo do tempo, subverter essa tal ordem natural das coisas (spoiler: de natural, ela não tem nada).

Durante a história, grupos oprimidos sempre tiveram suas vidas e suas lutas apagadas e desprezadas nos registros feitos pela classe dominante. Quem conta a história da colonização nos livros da escola são os colonizadores, das mulheres são os homens e a dos negros são pessoas brancas, mantendo assim o poder dos grupos que “venceram a guerra” e atrasando os avanços das minorias, limitando o desenvolvimento de seus potenciais e impedindo que eles tenham o direito de conhecer sua própria história.

E isso me lembra uma frase de 1984, de George Orwell, que diz “quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”. Nesse mesmo livro a população é controlada por três ministérios: o ministério da verdade, que distorce a história; o ministério do amor, que impõe dor e tortura e o ministério da paz, que é aquele que promove a guerra.

Mas, infelizmente, essa coisa toda de manipulação através da história não ficou no passado distante não! Vejamos o caso das ditaduras no Brasil, no Chile e na Argentina: todas marcadas por censura, tortura, desaparecimentos e mortes causadas pelo Estado enquanto o que se contava era que tudo estava indo de vento em popa. E atualmente, também! Torturas e mortes cometidas pela polícia não são investigadas e muito menos noticiadas. Inclusive, você já reparou que as palavras escolhidas nas manchetes dos jornais têm sempre um propósito? E que até a ordem em que são colocadas levam os leitores a uma determinada interpretação? Pois bem, isso porque a linguagem é um instrumento de poder – e até pra afirmar isso a utilizamos!  Sendo assim, é preciso escrever e reescrever a nossa história da forma que pudermos, contar sob nossa verdade, lutar e protestar por esse direito. Por mais que tentem, não conseguirão nos fazer esquecer isso.

E, veja bem, quando falo de protesto, me recordo de minorias marginalizadas. Quando falo de protesto, lembro-me de lutas contra injustiças e opressões. Quando falo de protesto, não lembro, de forma alguma, de paz e tranquilidade. Protestos são historicamente cruciais na luta e conquista de direitos e nem sempre é possível ter paz. É o que diz um de meus contos preferidos, de Marcelino Freire:

“A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator? Se quiser, vá você, diacho, eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada, muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar, prefeito, senador e até jogador. Vou não, não vou. (…) A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente (…) A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida.”

Agora, vamos retomar a frase título dessa matéria. Ela foi dita por Martin Luther King, em 1968, antes de ser assassinado por ter se tornado um dos principais líderes dos direitos civis dos afro-americanos. Na década de 1960, os meios não pacíficos foram um dos principais elementos dessa luta, que desde o início enfrentou poderosas resistências. Vocês se lembram do #Blacklivesmatter? Milhares de pessoas na rua tentando passar sua mensagem, tentando dizer: “Sim, sabemos que todas as vidas são importantes, mas esse é o momento de gritarmos pela vida das pessoas negras, que são claramente desconsideradas, de todas as formas possíveis. Preste atenção, isso é importante, nós também somos seres humanos e essa é a forma que encontramos para dizer isso agora. Parem de pedir paz quando o que vocês querem é nos silenciar.”

Podemos também fazer uma relação desse tema com a recente polêmica ocorrida aqui no Brasil, por conta da Parada do Orgulho LGBT realizada em São Paulo, no dia 7 de junho. Conservadores religiosos se sentiram ofendidos por conta do ato simbólico realizado por Viviane, uma mulher trans que apareceu crucificada. Segundo ela, uma forma de simbolizar o estado de medo e desemparao enfrentado por essa minoria, que tem que lidar diariamente com o fato de que o Brasil é o país campeão em assassinato de travestis e transexuais e que, a cada 27 horas, uma pessoa é assassinada, vítima de violência homofóbica, lesbofóbica ou transfóbica. A mensagem estava ali, gritando na nossa cara, pedindo para ser lida, pedindo, com misericórdia, para ser interpretada e não foi.

Porque é isso que acontece quando ousamos usar nossa voz e pedir por direitos, quando ousamos ir contra a maré e quebrar esse ciclo vicioso de silêncio e medo. Mas, por mais que tentem distorcer nossa mensagem e fazer com que digam que nós não merecemos estar ali, são em momentos como esse que devemos lembrar que precisamos, ou melhor, necessitamos continuar tentando mostrar que nossa voz importa e que o nosso grito só aumentará, que temos a linguagem, a voz e a rua a nosso favor.

Amanda Lima
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Se Liga

Amanda, 22 anos, mas com carinha de 15. Ama o significado de seu nome, mas prefere que a chamem de Nina. Psicóloga e militante feminista, sabe que conhece ainda tão pouco e por isso tem uma sede muito grande em conhecer mais. Mais da vida, mais do mundo, mais de tudo. Nutre um amor incondicional por Beyoncé e, nas horas vagas, sonha em poder mudar o mundo.

Jade Cavalhieri
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Boneca trouxa inveterada que perde muito tempo reclamando e clamando direito à preguiça. É escorpiana com ascendente em áries e ama mostarda de uma forma não muito saudável. Se identifica com nuvens cirrocumulos e alguma parte dentro dela ainda quer ser astronauta.

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