10 de novembro de 2015 | Colunas, Educação, Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
O que aprendi lendo #GirlBoss de Sophia Amoruso
girlboss

Sophia Amoruso começou a vender roupas vintage no eBay aos 22 anos. Hoje, aos 30, ela é dona da Nasty Gal, uma marca avaliada em milhões, e considerada uma empreendedora brilhante. Em seu livro #GirlBoss, Sophia conta como sua história é resultado de alguns erros, corrigidos com muito trabalho e criatividade. Durante grande parte de sua vida, Sophia se sentiu inadequada e, por isso, incapaz de ser uma pessoa bem-sucedida. As exigências do colégio não instigavam sua inteligência e apenas faziam com que ela se sentisse deprimida. Os trabalhos que conseguia eram apenas entediantes e burocráticos. No entanto, porque o mundo da escola e dos negócios constantemente fechavam suas portas para Sophia, ela criou sua própria saída.

A Nasty Gal é uma marca enorme, mas seu início foi no quarto de uma garota que conseguiu criar algo novo através da sua criatividade. Sophia não apenas vendia roupas na internet, mas escolhia e preparava cada peça. Além disso, cuidava da imagem visual de sua marca, sabia como selecionar e combinar suas roupas e que tipo de foto provocaria mais impacto. Ao ser dona do seu próprio negócio, ela precisava acompanhar todo um longo processo que começava nos brechós e terminava em uma relação confiável com cada cliente. Ao acumular tanta responsabilidade, Sophia descobriu que podia, sim, ser uma mulher de negócios. Afinal, não era ela quem estava errada ao não se adaptar, o que ela realmente precisava era a confiança para acreditar na sua própria visão e capacidade.

“É uma pena que a escola seja com tanta frequência considerada uma espécie de acordo em que um modelo serve para todos. E se não servir para você, te tratam como se houvesse algo de errado com a sua pessoa. Então é você, não o sistema, que está falhando. Mas, veja bem, eu não estou tentando dar passe livre para todo preguiçoso faltar a aula e ir direto para o shopping, contudo acho mesmo que deveríamos reconhecer que a escola não é para todo mundo. Então, #GIRLBOSS, se você é péssima na escola, não deixe que isso acabe com sua autoestima. Isso não significa que você é burra ou inútil, ou que nunca vai ter êxito em nada. Só significa que os seus talentos estão em outras coisas, então aproveite a oportunidade para descobrir em que você é boa e encontre um lugar onde possa crescer.”

#GirlBoss, então, não conta só a grande história de Sophia, como dá excelentes dicas de como acreditar mais em si mesma e saber se comportar em um ambiente profissional. No entanto, algumas coisas no livro me incomodaram bastante. Em primeiro lugar, há uma incoerência complicada e perigosa. Sophia acredita que o capitalismo dá oportunidades para todo mundo e aqueles que são criativos, trabalhadores e inteligentes conseguem conquistar seu espaço. Ela também acredita demais em predestinação e na ideia de que todo mundo tem algo especial e pode encontrar um trabalho que ama. Mas, ao mesmo tempo, diz que no dia em que pôde pagar alguém para limpar sua casa, se sentiu em um conto de fadas. Contraditório, para dizer o mínimo. Afinal, não é porque uma pessoa conseguiu ser bem-sucedida que o mundo é um lugar cheio de oportunidades.

Também não curto quando Sophia fala que #GirlBoss é um manifesto feminista, porque o livro é principalmente sobre empreendedorismo e, na minha opinião, o feminismo não tem nada a ver com isso. Na verdade, acho que a concepção de poder e autoafirmação que Sophia aposta, como um modo de afirmação feminista, são bastante excludentes. Ela convoca suas leitoras a serem como ela, a se transformarem em #GirlBoss de suas vidas, saberem o que querem, serem ambiciosas e batalharem muito. O que é uma mensagem bem legal. Talvez esteja errada, mas sinto que convocar garotas a serem #GirlBoss tem um certo peso. É diferente de dizer “Sejam quem vocês quiserem”, me parece mais como “Transforme quem vocês são em um modo de sucesso e poder”. GirlBoss às vezes soa como um rótulo, como mais uma pressão social. Não basta ser você mesma, é preciso provar que você é incrível, poderosa, trabalhadora e bem-sucedida. Pra mim feminismo é mais sobre autonomia, então não curto muito essa mensagem.

Ainda que eu não concorde totalmente com as convicções de Sophia, é inegável o quanto ela é uma mulher interessante, forte e poderosa. Recomendo a leitura de #GirlBoss para quem está buscando fugir dos caminhos óbvios e precisa de inspiração. Sophia é uma boa líder e dá ótimos conselhos. O tom motivacional de #GirlBoss é uma grande ajuda se você está em um momento de descrença e frustração. No fim do livro, você se sente encorajada a acreditar em si mesma e transformar sua vida. Porém, na minha opinião, ser feliz e bem-sucedida não é necessariamente transformar sua criatividade em empreendimentos lucrativos — o que parece ser a principal mensagem do livro. Acho que ninguém está destinado a coisa alguma, muito menos a um determinado trabalho. É ótimo acreditar em si mesma e correr atrás de seus sonhos. Mas não se esqueça que sua criatividade, inteligência e poder não precisam ser capitalizados. Seu trabalho não define quem você é, a não ser que, como Sophia, você escolha essa definição.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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