11 de fevereiro de 2015 | Edição #11 | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
O que é apropriação cultural?
Ilustração: Bia Quadros.

Esse vem sendo um dos assuntos mais polêmicos ultimamente, muitos acusam, outros muitos se sentem no direito de usar e abusar de símbolos, mas no fundo a maioria não entende do que se trata, por isso nessa matéria da Capitolina vou tirar algumas dúvidas:

Usar turbantes e dreads são apropriações? Se a pessoa não é negra, mas a família/religião/cultura/costumes é, ainda é apropriação usar turbantes ou fazer dreads?

Usar turbantes ou dreads é apropriação cultural. No caso, o turbante é um ornamento de símbolo religioso em várias culturas, inclusive na afro. Ele evidenciava a ligação dos negros escravizados com seus costumes originais e representava a resistência. No caso do dread, ele é característico em indianos, africanos e outras culturas não-ocidentais e, quando reproduzido, as pessoas se apropriam de um item que faz parte da “beleza natural” de determinado povo, mas que também está ligado às tradições.

O caso é que ninguém é realmente proibido de nada, mas vivemos num mundo onde há séculos uma cultura é dominante e imposta, o modelo a ser seguido é o europeu, consequentemente, o padrão estético é o ocidental e branco. Quando se nota o interesse nos casos citados, esses símbolos sofrem um processo de embranquecimento, elitização e exclusão dos costumes. O turbante que sua empregada fazia não era interessante até aquela amarração sair numa revista. O pior lado disso tudo é que a exclusão vem quando a tradição se torna um bem de consumo caro e de acesso restrito, ou seja, vira “modinha”. É totalmente diferente ser branco – ou passar como branco – e usar um turbante/dread, e ser negro usando as mesmas coisas; os olhares são outros, exatamente porque quando usado pelo protagonista daquela tradição, o símbolo ganha outro significado, ele é político, de resistência e empoderamento.

Em relação a religiões de matrizes africanas: todas as pessoas podem participar com respeito e, inclusive, se for necessário o uso de turbantes, isso pode ser feito, até porque o respeito àquele espaço (terreiro) deve vir em primeiro lugar. No fim, o argumento “eu tenho um parente negro” é sempre usado quando apontamos racismo e apropriação. Como eu disse, todo mundo pode usar, mas vale o bom senso de perceber que está participando de um sistema que legitima o racismo. Se a pessoa se sentir pertencente à cultura por conta dos laços de parentesco, não tem por que não, mas é muito fácil se dizer negro quando lhe é conveniente.

Apropriação cultural não faz parte da globalização?

O sistema global hoje só existe e se sustenta porque fazemos parte de um mundo em que exclusão, segregação, racismo e elitismo são características mantidas e propagadas. Não se pode ver a apropriação de culturas marginalizadas com bons olhos, porque quem marginaliza é o mesmo que se apropria, é algo muito mais amplo que mera globalização, é um processo para manutenção das mazelas. Ao mesmo tempo em que se impõe o padrão de beleza branca-de-cabelos-lisos e se propaga a ideia de que o uso de turbante por negras é coisa de “macumbeira”, o símbolo vira tendência da noite para o dia. Mas tendência para quem? As capas de revistas com mulheres usando turbantes mostram a mesma musa idealizada de sempre; visualmente, já se exclui a protagonista. Isso não é globalização, é um processo onde agora a moda é negra, mas o negro não está na moda, porque ser negro continua sendo ruim. Agora, ele não “pode” mais ser o agente principal da sua própria cultura.

Como falar de apropriação cultural se cultura, apesar de ser própria de um povo, não é propriedade do mesmo? Se cultura é algo que abrange tantas questões, se tornando um “apanhado de hábitos”, como dizer (e fazer entender) que não é positivo incorporar uma cultura a outra – especialmente em um mundo globalizado?

A cultura é a marca de um povo, não vivemos sem cultura, e determinados povos mantém a sua mesmo que ela tenha sido intensamente perseguida, por isso a necessidade de reafirmar o protagonismo ganha peso. Sobre ser abrangente, e consequentemente de todos, as religiões de matrizes africanas existem há séculos e ainda são vistas de forma pejorativa, porém vem sendo crescente a ideia de que é “cult” ir na umbanda. Até anos atrás era coisa de “macumbeiros” (e continua sendo se você é negro), então quando isso virou hábito e tornou-se de todos?

O samba enquanto ritmo hoje é reverenciado e todos enchem a boca para dizer que é um marco nacional. Primeiro que ele é um ritmo negro, segundo que ele é intrinsicamente ligado com todas as músicas negras feitas para denunciar as mazelas sociais que o nosso povo sofria, e ainda sofre, as tristezas causadas, seja pela escravidão, a fome, a exclusão social ou a miséria. Quando ele surgiu não só foi visto como coisa de “malandro”, como perseguido e reprimido, inclusive pela polícia. E agora ele é de todos? Quando se tornou de todos? Ou melhor, quando ele virou interessante?

Certo e natural seria nenhuma cultura ser imposta e nenhuma outra perseguida, a ponto de ser preciso reafirmação.

Se eu fizer um feijão sem carne e chamar de feijoada vegetariana? É apropriação?

Não interpreto como apropriação, só me incomoda o nome. A feijoada nacional é a feita dos restos de carne e feijão pelos escravos, e compartilhada entre eles, então tirar a carne me soa “gourmetizar” esse prato, mesmo que eu entenda as questões por trás do ato de não comer carne.

Existe apropriação musical? Iggy Azzalea é um exemplo?

Para ambas as perguntas a resposta é sim, tanto Iggy, quanto Elvis, são casos de apropriação no campo musical. No Brasil é comum também, acontece geralmente com ritmos negros, como samba, rock, funk, rap, etc., que são tratados como ruins, coisa de “bandido”, são perseguidos, seja com repressão violenta, ou com as opiniões que demonizam, e por fim quando se percebe o potencial por trás destes, são “lançados” no mercado, contudo com cantores brancos. E esses são tidos como os “melhores” mesmo que o ritmo tenha uma outra origem e outros cantores que, além de entender mais sobre o assunto (isso é fato), trazem em suas letras questões mais importantes como aquelas que expõem a pobreza ou violência a que o nosso povo está sujeito, mas esses são ou esquecidos, ou tem suas músicas roubadas ou regravas pelos “queridos da mídia”. Isso aconteceu no rock com Elvis e está acontecendo novamente com Iggy no rap, e como sempre tudo é tratado de uma forma, como se errado fossem os negros que querem reconhecimento pelos seus feitos, no caso culturais. Para mim é a evidência que o racismo e apropriação de culturas não dominantes, consequentemente a de grupos que são vistos como “minorias”, estão interligados e se fortalecem.

Como devo lidar então com outras culturas não dominantes?

Com respeito. O que inclui só usar se o grupo de permite isso, afinal, num mundo onde pessoas que pertencem às minorias não possuem voz, se você quer ser justo, tem que escutar o que elas têm a dizer sobre o assunto, ou seja, se dizemos não a apropriação, é não. Mesmo que haja negros que não se incomodam, ainda será mantido o processo que citei, por isso há muitos que não aceitam e pedem para que essas ações sejam repensadas.

Stephanie Ribeiro
  • Colaboradora de Artes

É estudante de Arquitetura e Urbanismo na PUC de Campinas. Ativista feminista negra, já teve textos seus postados no site da revista Marie Claire, Blogueiras Negras, Géledes, Confeitaria, Modefica, Imprensa Feminista, Alma Preta, entre outros. Em 2015, recebeu da Assembleia Legislativa de São Paulo a Medalha Theodosina Ribeiro, que homenageou seu ativismo em prol das mulheres negras. É também uma das fundadoras do projeto Afronta.

  • Penny Lane

    Stephanie, excelente texto. Acho que umas das melhores explicações para apropriação cultural que vi foi de uma feminista. Ela dizia mais ou menos que apropriação cultural é tomar partes da cultura de outrém, incentivando o colonialismo e a opressão. Principalmente na moda (ela cita o Halloween), a apropriação cultural é problemática porque, se na moda determinada tendência é passageira, e o apropriador pode retomar sua vida como se nada tivesse acontecido, o sujeito apropriado continuará a sofrer discriminação exatamente por sua cultura explorada. Vem bem de encontro ao que você expõe no seu texto. Ela também a favor da “apreciação cultural”, ao invés da “apropriação”. Um beijo!

  • Pedro

    Apesar de concordar com a ideia de conclusão do texto e os diagnósticos em geral, enquanto negro e resistente, achei o tom um tanto autoritário. Penso que uma coisa é criticar, com toda razão, a aspiração ao protagonismo branco em nichos originados e portanto identificados com a nossa cultura (caso do Elvis); outra coisa é focar na crítica aos costumes cotidianos da feijoada vegetariana, moda do samba, umbanda-cult, etc. Acredito que reafirmação se faz mais com luta por protagonismo em espaços de poder (incluindo poder cultural, simbólico), trabalhos de base de (re)valorização da nossa cultura (sempre em transformação) entre nosso povo, e menos com preocupações autoritárias contra a patricinha loira de dreads.

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  • Anne

    Tenho uma dúvida a respeito do assunto. Eu sempre achei lindo o uso de alargadores, mas por motivos de saúde nunca pude alargar minhas orelhas. Lendo o texto pensei muito sobre isso.. usar alargadores seria apropriação cultural, certo? E pensando na frase “O que inclui só usar se o grupo de permite isso”, eu só poderia usar alargadores de maneira respeitosa após perguntar a alguns indígenas que também usam? É uma questão pessoal/subjetiva ou uma questão de indústria/mercado? É desrespeito eu, enquanto não-indígena, usar alargadores ou é desrespeito eu ,enquanto não indígena, usar isso como forma de lucro? Não sei me expressar muito bem, talvez esteja confuso o comentário, mas a dúvida é sincera e não uma tentativa de provocar a autora e/ou diminuir o texto, é só uma tentativa de aprender mais sobre o assunto e não prejudicar pessoas e culturas..

    • lilian

      Gostaria de saber essa resposta também.

    • Flavinha

      Não espere regras. Você precisa formar seu próprio conceito sobre isso. Pesquise, vá atrás do assunto e então você encontrará a resposta. Ela deve vir de você, não deve ser imposta.

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  • http://bandodeum.com.br BandoDeUm – Jogos – Análises

    Olha
    o turbante é usado no oriente/asia, e ganhou expansão com as guerras e
    religião. O turbante não é predominante entre os africanos, e sim usado
    entre africanos de certas religiões (muçulmanos, sik, etc), e asiáticos.
    ou seja está mais ligado a cultura
    religiosa muçulmana, sik, hindu, etc. Aqui no Brasil é moda, e uma
    ilusão de que turbante é cultura africana. è sim uma cultura religiosa,
    que não se estende a região, mas a fé.

    Conheço uma família Sik. Ela usa turbante, não é negra, e mostrei esse post para ela. O filho deles sabe português, ele nasceu aqui, os pais não bem. E comentei com eles. Assim, tudo bem. Mas turbante só represente a comunidade negra para apresentações aqui no brasil, porque ele representa no mundo, e surgiu, e ainda é, uma forma de cultura que surgiu da religião mulçumana/hindu.

    • Piotr

      Faria uma ressalva, ou talvez um adendo… o turbante é comum nos povos de origem semita, o que inclui muçulmanos e judeus, principalmente judeus sefaraditas, que têm ascendência árabe.

    • Poliane Paulino ?

      O texto é específico sobre apropriação de forma geral. Seja oriental, ou negra, etc etc então inclui se apropriar de outros turbantes que nao sejam especificamente negros. Por mais que pareça igual os turbantes sao diferentes.

      • http://bandodeum.com.br BandoDeUm – Jogos – Análises

        O que eu quis dizer, é que turbante é moda. Uma moda da África Negra, que veio inicialmente dos novos muçulmanos, e com isso é mais relax, mulheres passaram a usar, e como tudo há sincretismo, também houve por lá. Mas Se o turbante, foi uma moda que foi passada, porque ele pertenceria a um grupo racial? Ele é de todos. A moda todos se apropriam. E o texto, colocou como se ele tivesse um dono, que não tem. É como se os chineses brigassem com quem come macarrão. Eles inventaram, mas todos comem. Ou o alfabeto, pelos árabes, e tudo mais. Nada é de ninguém. Ainda mais moda. Religião sim, mas se o próprio foi uma moda passada, não fica correto esse coro de propriedade. Bom eu que acho, mas posso estar errado.

        • lu

          Se um povo não importa qual se utiliza de algo e não é visto pela sociedade julgado e etc, enquanto digamos a elite utiliza ou algum famoso e ele é tratado como o principal utilizador disso e virou “moda” depois dele mas ele tem nada a ver com cultura, povo ou raça sim. Exemplo o Twerk as artistas negras já o faziam e a população negra também e a Cyrus fez em uma premiação enquanto condenaram nicki minaj um grande exemplo pela dança vulgar, ela ficou como o símbolo do twerk mas desde os anos 90 as negras fazem isso lá tem até competição para o mesmo. Outro exemplo recente os dread a Cyrus usou para apresentar a premiação e aconteceu o que? Nada. Já a Zendaya que nem “negra” chega a ser foi humilhada por fotógrafos e pessoas no tapete vermelho do Óscar por esta usando dreads. Então ai ta a diferença, enquanto algo de uma cultura como música ou etc é questionado, julgado pelas as verdadeiras pessoas que usufrui deles e quem é de fora e faz parte da elite branca e é tida como símbolo e aclamada/aplaudida aí sim apropriação cultural. Tem vários exemplo mas o que de fato acontece você no mundo artístico como o americano lá a pessoa ver de fato a diferença dos comentários e etc. Se quiser saber mais procura artigos sobre apropriação cultural – j.cole, ele que trouxe de algum modo essa questão de volta.

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  • Alvaro

    Gostaria que indicasse as fontes da sua pesquisa, se possível.

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  • Mariá Vecchi

    Ótimo texto. Mas tenho uma dúvida/questionamento: a Iggy deve deixar de cantar rap por ser apropriação?
    Acho que música é arte, é uma forma de expressão, o artísta não deve ser o criticado, mas sim o sistema. Por exemplo, uma revista de adolescente nomeou 10 artistas que as meninas deviam se inspirar. Nenhuna era negra e a Iggy estava representando a mulher no rap, sendo que existe várias artístas negras no rap. Então, a revist deve ser criticada, não a artista. Certo?

    • http://twitter.com/lightsblindme Luana Salotti

      O ideal seria a artista falar sobre o assunto, mencionar em toda oportunidade que ela nao é protagonista dessa cultura, e no caso especifico da Iggy: parar de cantar com o “blaccent” (literalmente ela SÓ canta desse jeito, esse sotaque é inexistente quando ela fala), mas infelizmente não vejo isso acontecer, julgando por algumas perolinhas que ela costuma soltar em entrevistas e em algumas letras também…

  • analu

    Oie! Adorei o texo… já venho há um tempo pesquisando sobre apropriação cultural,
    principalmente de cabelos. Sou branca e sempre fui uma amadora da cultura negra, desde criança convivi com crianças e adultos negros que usavam dreads e sempre foi um sonho meu usar também, mas nada que minha mãe me deixasse fazer… Gostaria de saber se, mesmo eu entendendo e respeitando todo o porquê de muitos não serem a favor de uma pessoa branca usar dread, ainda assim seria considerado apropriação? Nesse caso, entraria a questão do grupo permitir o uso? Existe aquilo que muitos brancos, e alguns negros, usam: “Cabelo é cabelo”, às vezes sou contra e às vezes sou a favor, o que tu achas disso?

  • Laiane Gomes

    Texto foda demais!!!

  • Iago

    Tubante tem origem Africana,hoje em dia que costuma usar são os Indianos negros, que descende de Etíopes, e povo nativo do Oriente Médio que são negros e alguns Nigerianos. No Brasil, pessoas com religião afro-Brasileiro que costumava usar,eram chamada de várias coisas. Agora alguns brancos mestiços tão costumando usar, depois vira febre e os negros? Vão se excluído mais uma vez. Eu acho que tem representar os negros, foi eles que usava os turbantes desde começa desse País.

  • HG Erik

    Análise bastante interessante e pertinente de Negro Belchior:

    “/…/ as leituras pós-modernas fragmentam a realidade social e tomam a análise dos fragmentos em si, ignorando suas relações essenciais com a totalidade social. A apropriação cultural, tirada do pano de fundo de defesa dos interesses da classe dominante, não pode ser vista senão como uma ação perversa de responsabilidade de alguns indivíduos brancos que, por usarem símbolos culturais negros, estariam enfraquecendo seu conteúdo cultural. Essa análise fragmentária, ao atribuir ao indivíduo o conceito de apropriação cultural, na verdade esvazia esse conceito de seu conteúdo social real: tira da essência do racismo a luta de classes e, por isso, essencializa no indivíduo branco a origem do enfraquecimento da cultura negra. Essa análise ganha credibilidade por fatores muito importantes: empiricamente, são principalmente os indivíduos brancos que encarnam e reproduzem as estratégias racistas de interesse da classe dominante, assim como é por indivíduos brancos que essa classe dominante é formada. Mas, para se compreender o conteúdo concreto da apropriação cultural e do racismo não se pode permanecer no nível empírico apenas: é necessário que se ultrapasse a aparência dada e se encontre a essência desses conceitos no todo social, o que as teorias pós-modernas não fazem.

    Assim, combate-se uma certa apropriação cultural como se se combatesse um fantasma; o sucesso dessa luta se revelaria um fracasso: os símbolos negros não se fortaleceriam, e nem estariam menos apropriados por uma dominação branca se os indivíduos brancos parassem de usá-los. Um branco usar dreads ou turbante, praticar capoeira ou participar de religiões de matriz africana – nada disso é, em si, essa apropriação cultural de que estamos falando. A apropriação cultural perversa, que tira a identidade do povo negro e enfraquece sua luta, tem sua origem na indústria que vende tais elementos como produtos, esta sim com o poder de tirar deles sua significação cultural. O uso desses produtos está, no sistema em que vivemos, submetido a essa indústria e às diversas ideologias ligadas a ela.

    Dessa forma, devemos defender as opções individuais de todas as pessoas de se vestirem da forma como quiserem, e ao mesmo tempo, e algumas vezes inclusive contraditoriamente, combater a indústria que em todo momento incide e molda à sua maneira tais vontades individuais. Esse combate se dá pela reafirmação desses elementos culturais como elementos de resistência dos negros contra a dominação que lhes é imposta. Assim como tanto o racismo quanto a apropriação cultural estão, em sua essência, ligados à estrutura de classes, não se pode combatê-los sem que se intervenha na luta de classes de forma geral. É importante que, dentro dessa luta, os trabalhadores brancos se conscientizem do que significam esses símbolos, de sua história e de sua força organizativa e política para nós, seus companheiros negros, e que essa consciência trazida pela nossa luta, e não a indústria capitalista, determine a forma como cada indivíduo se relacionará com tais símbolos”.

    http://negrobelchior.cartacapital.com.br/apropriacao-cultural-sob-uma-analise-marxista/

  • Letícia

    Mas, dreads também fazem parte da cultura rastafari, aqueles que acreditam em Haile Selassie, imperador da Etiópia. Tenho uma amiga branca, que fez dreads à 6 anos e segue rigorosamente a cultura rasta, que inclusive, apoia o veganismo (ela é). Acho que vale lembrar que ela propaga a cultura, orienta, ensina e escolheu viver esse estilo de vida contra o sistema. Os rastas não se separam entre brancos e negros, mas, acreditam que dread não é modismo e sim uma manifestação contra o sistema que vivemos, no cabelo. Outro ponto a se levantar é, por exemplo, os kimonos que são da cultura oriental. Ele foi criado no Japão no século IV, porque a corte adotou regras para o vestuário da população. Neste caso, também não seria apropriação cultural? Ainda me considero muito leiga, fico descolada nesse tema, pois cada um fala uma versão…

    • Arnour Sabino

      Apropriação cultural é um processo natural quando culturas diferentes entram em contato… Uma cultura sempre assimila traços da outra. Isso se dá pela interação, pelo convívio. O problema é quando essa apropriação toma um viés negativo.

      Ex: Turbante só virou moda quando as brancas passaram a usar. A mulher negre sempre usou e nunca foi visto com bonito ou legal. E além disso, quando o turbante vai pra capa da revista na branca, perde todo seu significado original. Passa de símbolo de caracterização da cultura negra para peça de vestuário.

      No caso do Kimono, a apropriação não vem junto de exclusão ao japonês. Kimonos e japoneses são legais. Japoneses são considerados inteligentes e inovadores!

      Nota o desequilíbrio? Quando o negro for tão na moda quanto o turbante e a música a conversa vai tomar um tom mais brando e menos crítico.

  • laisa

    exatamente concordo ,menos com a parte de, então tirar a carne me soa “gourmetizar” esse prato, mesmo que eu entenda as questões por trás do ato de não comer carne( sera¿) . eu n entendi bem …..ser vegetariano n e frescura nem coisa de rico
    pra ser gourmet .me soa ofensivo essa parte :c

  • Gabriel

    A feijoada não é o prato de origem negra/africana. É um prato europeu, com origem no norte de Portugal, e era feita com os mesmos miúdos do porco. A história de que foi criada pelos escravos com os restos que eram dispensados é lenda.
    https://www.petitgastro.com.br/a-historia-da-feijoada-e-sua-origem-de-berco-europeu/
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Feijoada_(Brasil)

  • Pao

    Algumas dúvidas sinceras Stephanie (mesmo! não é briga não rsrs):

    Caso uma minoria “se aproprie” de um elemento de outra minoria como acessório puramente “fashion”, seria apropriação cultural?

    Vejo muitos negros nos Estados Unidos particularmente, usando acessórios Indianos. Como proceder?

    Também sempre fiquei na dúvida até que ponto é válido dizer o “universo África/ a cultura Africana”, quando é um continente com tantos países e e etnias complemente diferentes. Não seria o caso de uma pesquisa mais a fundo, para entender quais são as características exatas de sua origem? Por exemplo, seria muito conveniente eu me auto denominar LATINA, mas sabemos que é um termo tão amplo que perde qualquer traço específico e agregador.

    Entendo ressalvas muito coerentes e importantes que você comentou (principalmente a questão de “se vestir de outra cultura” como uma fantasia, ou simplesmente se apropriar de uma identidade como Iggy), mas onde entra a assimilação e entendimento de uma cultura com a outra? Cito aqui o exemplo da Iris Apfel que sugiro a pesquisa.

    Obrigada pelo texto, o diálogo é sempre a melhor escolha :)

    PS: a feijoada não foi feita pelos escravos e tampouco consumida por estes. Este é um mito romantizado brasileiro.

  • Andressa

    Gostaria de dividir com a autora do post e todas e todos, esta pesquisa, que conta uma, das muitas histórias, das origens dos turbantes.
    Turbantes: Por que seu uso nunca será apropriação cultural.

    https://www.facebook.com/andressa.fourquet/media_set?set=a.1065314793489015.1073741869.100000315134950&type=1

  • Andressa

    Gostaria de dividir com a autora do post e todas e todos, esta pesquisa, que conta uma, das muitas histórias, das origens dos turbantes.
    Turbantes: Por que seu uso nunca será apropriação cultural.

    https://www.facebook.com/andressa.fourquet/media_set?set=a.1065314793489015.1073741869.100000315134950&type=1

  • Nádia Camuça

    Todos os músicos que já usuram de música afro estão errados e nunca deveriam ter feitos seus álbuns? você só escuta música negra de quem é negro? você escuta caetano? vinicius de moraes? e quem não for negro não pode comer feijoada? Não estou sendo irônica, realmente gostaria de solucionar essas dúvidas

  • Lyn Lee

    Até as imagens de santas são apropriadas pra por rupa do Batman na virgem e do Robin no menino Jesus… Daniela Mercury se apropriou da capa dos disco de John Lennon… Isso não tem jeito.

  • Chris

    Tenho uma duvida sobre apropriação cultural, já procurei em vários lugares e não entendi (se estava no texto acho que não consegui interpretar desculpa aushauhsauhs) mas tenho vergonha de fazer com medo de ofender alguém, é mais de uma duvida na verdade, usar/escutar/vestir coisas apenas da nossa cultura e não querer/não gostar que uma pessoa de outra cultura use também não é um sentimento xenofóbico? Nos casos em que a vestimenta tem uma simbologia religiosa, na moda varias “tendencias” são inspiradas por símbolos religiosos como a cruz cristã estampada em camisetas “punk” ou “indie” etc e isso parece não ter problema porque parece ter uma separação do simbolo como moda e do simbolo como vestimenta (parece, eu n sei dizer), mas isso me leva a ultima pergunta, o problema da apropriação só acontece de uma cultura dominate sobre uma oprimida? Eu sei que o texto é longo e q eu n entendo nd mas por isso msm q eu to procurando saber asauhsuahs e desculpa dnv qualquer coisa 😡

  • mare

    Em minha humilde opnião, vejo que a apropriação cultural existe sim. Mas não faz sentido dizer que a pessoa não pode usar algo porque ela não pertence a cultura x, ou não é da raça y. Isso é segregação, só serve para separar as pessoas. Já que negro usando tal coisa é visto como feio, e branco visto como bonito, isso tem que ser desconstruído na cabeça de quem o vê como feio, e não de quem usa. E também é errado se você é branco, usa tal coisa, mas critica a cultura de qual a tal coisa pertence. A pessoa que é preconceituosa que deve ser desconstruída.

    • Marcelo Dias

      Excelente argumentação!

  • Fulano

    O que eu, um brasileiro que não é nem negro, nem branco, nem indígena, de uma pele parda, nascido no “ocidente”, não na África , nem naÁsia , nem em berço de cultura qualquer com que eu possa me identificar (que também n passa nem perto do padrão branco ocidental de beleza) devo vestir? ou usar pra me adornar, sem me apropriar de outras culturas contribuindo com o sistema que perpetua o racismo e o elitismo ?complicado…anderei nú

  • Marcelo Dias

    Respeitosamente discordo dessa visão… A cultura humana é muito dinâmica, querer se “apoderar” de um penteado ou uma peça de vestuário, dizer que: “olha, você não pode usar, mas ele não pode” , “só nós podemos, eles não”; isso é reforçar o racismo, reforçar as diferenças entre as pessoas. Visão negativa e fragmentadora, levantando barreiras inaceitáveis. Então se um homem usar uma peça de roupa ou bijuteria “não-masculina” seria “apropriação”? Vamos deixar de divisionismos…

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  • https://www.facebook.com/susan.godinho.7 Susan Godinho

    Bem cheio de opiniões próprias e pouco contexto mundial de outras culturas

  • Hulk de Diadema

    Na periferia esse papo de apropriação cultural é mato

Sobre

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