3 de janeiro de 2015 | Edição #10 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
O que é empoderamento?
Ilustração: Clara Browne. Originalmente postada aqui.

Quando eu escolhi escrever essa pauta, não imaginava que seria tão difícil desenvolvê-la. Ora, estou aqui com a minha janelinha do Word aberta e a palavra “empoderamento” está com aquele risquinho vermelho embaixo, porque o programa não conhece essa palavra. E ela é estranha mesmo, não é usada há tanto tempo assim, e, talvez por isso mesmo, seja difícil sua definição.

Ficando somente na superfície da palavra, empoderar-se é o ato de tomar poder sobre si. De fato pode significar isso, mas também pode ir muito além, principalmente no que diz respeito à parte do “sobre si”.

Podemos entender o empoderamento como um processo pelo qual nos entendemos como parte de um grupo maior, que vai além de nós, além do individual. Não parece mega bonito? E é mesmo. Por isso, tem tudo a ver com a sororidade e a representatividade de que já falamos aqui na revista!

A sensação de empoderamento é possível em vários grupos e núcleos e, aqui, como vamos tratar da luta feminista, vamos focar no empoderamento feminino e não-binário (pessoas não binárias são aquelas que não se identificam nem com o gênero masculino nem com o feminino. Essas pessoas fazem parte da luta do feminismo também! Você pode ler mais sobre nesse blog), apesar de que a maioria das coisas se aplica a diversas outras formas de empoderamento. Quando percebemos que somos parte de uma realidade maior, enfrentada apenas por mulheres, meninas e pessoas não-binárias, isso é empoderador, é quando nos reconhecemos como semelhantes. É quando percebemos que não somos inimigas, mas, sim, que somos pessoas que vivem uma mesma opressão que pode ser muito dolorosa (principalmente porque muitas pessoas não são apenas oprimidas pelo machismo, mas também pela transfobia, racismo, homofobia, bifobia, etc.), e que, em união, podemos ser mais do que individualmente. Opressão é o que acontece quando um grupo que é dominante na sociedade se impõe sobre um grupo que não é o dominante.

É uma sensação realmente muito boa e animadora sentir que se nos unirmos conseguimos muito mais conquistas do que se continuarmos a nos ver como o mundo quer que nos vejamos: como concorrentes. Não! Quando nos empoderamos, sabemos que juntas podemos ser pessoas tão mais fortes!

No processo de empoderamento – assim como em todos os outros momentos! –, é necessário, também, entender que nem todas as pessoas têm realidades iguais às nossas: se somos pessoas brancas, heterossexuais ou cisgêneras (ou seja, se ao nascermos já fomos entendidas como mulheres e continuamos a nos entender dessa forma), é muito necessário que a gente entenda que a opressão que sofremos sempre será mais branda do que aquela sofrida por pessoas negras, não heterossexuais ou trans. Por isso, não será empoderamento se nos sentirmos no direito de oprimir outras pessoas do mesmo grupo de que fazemos parte, viu?

O que eu quero dizer com tudo isso é: o empoderamento sempre será coletivo. É dar espaço ao outro, principalmente quando o outro tem uma vivência diferente da sua. É apoiar as outras mulheres e pessoas não-binárias em suas escolhas, ouvi-las e lutar tanto por elas quanto por si mesma. Não é lutar apenas por liberdade dentro da sua própria realidade, mas perceber tanto a si como parte do grupo, que a luta da outra pessoa, que está inserida em uma realidade diferente da sua, acaba se tornando tão importante quanto a sua luta individual, dando sempre o devido espaço para que cada um, com suas vivências, possa protagonizar essa luta. É como se o individual se tornasse insuficiente para o que queremos conquistar. Não é simplesmente eu me sentir livre para fazer algo no meu universo pessoal (apesar de ser também), porque isso por si só não fará nada pelas outras pessoas que sofrem a mesma opressão que eu, principalmente se a realidade delas for mais opressiva do que a minha: é lutar para que todas as mulheres e pessoas não-binárias possam ser livres do sistema opressivo e machista em todos os sentidos, levando em conta as diferenças de suas realidades. É perceber que realidades diferentes precisam de cuidados diferentes e se atentar para eles. Empoderamento é a sensação de que podemos e devemos lutar por todos aqueles que fazem parte desse grupo. É nos sentirmos pessoas mais poderosas por estarmos lado a lado!

Para que possamos lutar contra a desigualdade de gênero que existe ainda no mundo machista em que vivemos, precisamos nos unir. Não tem como estarmos em união se estivermos em guerra entre nós e se ainda tivermos vergonha de ser mulheres e pessoas não-binárias. Ser mulher é incrível, ser pessoa não-binária também. Nós somos incríveis! Estamos empoderadas quando temos orgulho de ser pessoas semelhantes umas às outras, temos orgulho de nos mostrarmos inteiramente, de corpo e alma, como parte desse grupo. Temos que nos perceber como agentes da luta contra essa desigualdade e nos perceber como pessoas semelhantes para que possamos lutar juntas, até que todas estejamos completamente livres.

Beatriz Trevisan
  • Cofundadora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Música

Bia, 23 anos (mas todo mundo acha que ela tem 13), feminista interseccional e estudante do último ano de direito. Talvez queira seguir na área, mas seu sonho de verdade é ser cantora e escritora. Se bem que, se fosse possível, largava tudo isso e se tornava Mestre Pokémon pra ontem.

  • Simone

    Muito esclarecedor seu texto. Gostei da escrita e da forma que lida com esta temática tão delicada. Infelizmente, o individualismo prevalece sobre os interesses coletivos, até mesmo dentro dos grupos oprimidos. Parabéns! Mais pessoas deveriam pensar desta forma….

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  • carol menezes

    Adorei seu texto!!!
    Muito bem elaborado…
    Parabéns!

    • angela aparecida de oliveira

      os governantes e alguns grupos deveriam conhecer a palavra empoderamento na qual voce fala muito bem suas palavras sao bem colocadas

    • angela aparecida de oliveira

      os governantes e alguns grupos deveriam conhecer a palavra empoderamento na qual voce fala muito bem suas palavras sao bem colocadas

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  • http://desbravando-alem-mar.tumblr.com/ Nathália Ferreira

    É por isso que será a primeira palavra que irei tatuar n meu corpo <3

  • Daniella Faria Rosa

    Boa noite! Sou estudante do último ano do Serviço Social na cidade de Hortolândia/SP. Depois de 4 meses escolhendo e trocando temas do nosso TCC, defini junto com minha amiga de faculdade que iremos desenvolver nosso artigo sobre Gênero e Movimentos Sociais (ainda iremos afunilar mais sobre isso). Não posso deixar te parabenizar este artigo sobre empoderamento que será uma “palavra” de grande destaque no nosso. Ficou muito claro o significado, pois eu estava enfrentando dificuldades para entende
    . Grata Daniella

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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