9 de junho de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
O que é literatura, a nova ordem literata, o zeitgeist de Harry Potter e o que temos a ver com isso tudo

[Essa matéria contém spoilers gerais das séries Harry Potter e Jogos Vorazes. Decidi usar apenas esses dois exemplos porque são mais conhecidos e, assim, consegui criar um recorte específico sobre revolução em ficções. Com mais exemplos, o texto ficaria confuso e, provavelmente, não acabaria nunca — e você, leitora, ia querer me bater.]

No auge de meus 20 anos, decidi ler todos os Harry Potter. Curiosamente, em um zeitgeist espetacular, várias outras pessoas que conheço decidiram fazer o mesmo — incluindo na lista Dora, Sofia e seu namô. E em um zeitgeist maior ainda, surgiu essa entrevista com a escritora Ruth Rocha falando que Harry Potter não é literatura, é bobagem. No momento em que li isso (eu estava no fim do Prisioneiro de Azkaban, quando Lupin descobre que Sirius nunca traiu os Potter — e, sim, estava cheia de sentimentos), tive um acesso tão grande que precisei reclamar muito no Twitter e, não bastando, saí da minha cama quentinha quase à meia-noite só para falar mal de quem não gosta de YA para meus pais, os quais já estavam bem sonolentos àquela hora. Mas vamos chegar no porquê disso tudo se formos com calma.

 A nova ordem literata

A literatura YA (Young Adult), ou seja, para jovens adultos, além de ser a divisão mercadológica mais esquisita que já vi na vida (afinal, o que é um jovem adulto? Uma pessoa de 20 anos? De 17? Pessoas de 13 leem livros YA também!), é a mais malvista por estudiosos da literatura. Se envolver garotas adolescentes, criaturas mágicas e triângulos amorosos então… Deus os livre! É como se a cada livro YA que faz sucesso, os pensadores que já se estabeleceram no topo da escada literária morressem um pouquinho. Sinceramente, queria que fossem todos de vez, porque esse pensamento de que magia e adolescentes (especialmente garotas) não podem fazer parte da literatura já devia ser considerado ultrapassado.

Podem contra-argumentar: Mas, Clara, os livros são mal-escritos. Sim, existem YA mal-escritos, mas também existem outros bem-escritos, então vamos parar com essa argumentação sem pé nem cabeça. Além de que existem outras coisas que podem render muitas discussões em um livro do que apenas a qualidade de sua escrita. A prova cabal disso é uma das minhas sagas preferidas de todos os tempos: Jogos Vorazes. Extremamente mal-escrito, sem dúvidas. O primeiro livro não tem nem advérbio modal de tempo e, onde era pra ter vírgula, tinha um ponto final; foi uma prova de fogo terminar a leitura. Mas terminei e, por causa disso, pude discutir milhões de questões interessantíssimas que Suzanne Collins trouxe à tona ao escrever a saga.

Desigualdade social, racismo, manipulação midiática, governos totalitários e estilos de revolução são apenas alguns exemplos do que Jogos Vorazes, Harry Potter e outros livros YA trazem como discussão para quem os lê. E aí pergunto: Bobagem, dona Ruth? Parece que não.

A literatura YA proporciona discussões incríveis sobre problemas reais e de extrema complexidade. Esse tipo de literatura dá segurança e voz a adolescentes, fazem-nos refletir sobre o mundo em que vivem e nossos papéis sociais nele, além de entreter o tempo de uma forma maravilhosa: visitando outros mundos!

O que é literatura

Apesar de todas as discussões que a literatura YA traz, continuam a descartar livros para adolescentes como se fossem ervas daninhas, como se adolescente só pudesse ler Machado de Assis e os outros ~clássicos do vestibular~. Ainda presos aos anos 60, os literatas continuam a bater na tecla de que o que torna um escrito literatura é a forma como ele se dá, jamais o conteúdo de sua prosa. E apesar de entender a necessidade da existência de algo que crie a literariedade de um texto, não acredito que ignorar toda uma forma de escrita porque não bate com a teoria de cinquenta anos atrás seja uma coisa muito inteligente a se fazer.

Toda a história da crítica literária se mostra igual: as tendências de uma época são ignoradas por não se encaixarem no pensamento dos críticos da época. Então, talvez não seria hora de aprender com o passado e rever os conceitos de literatura? Nem que seja para criticar a literatura YA — seja ela distópica, mágica ou apenas sobre a vida normal de uma adolescente. O que não dá mais para acontecer é que os críticos continuem a ignorar toda uma nova geração que está se formando — como leitora e como escritora —, rindo e ensinando os próximos críticos a rirem das produções voltadas a adolescentes puramente por sua finalidade.

Quantas vezes já presenciei um professor no curso de Letras fazendo piadinhas com livros YA ou dizendo que, se os alunos acham que a carga de leitura é muita e é difícil, deveriam “voltar a ler Crepúsculo”? Amigos, está na hora de rever os conceitos, pois o que é literatura pode ter mudado e vocês nem mesmo sabem.

YA versus Ruth Rocha

Em vez de dizer: “Harry Potter não é literatura, é bobagem”, está na hora de se perguntar: por que raios Harry Potter faz tanto sucesso? Por que nos comovemos, torcemos, nos debruçamos sobre um mundo fictício em busca de mais respostas, criando novas teorias? Por que temos essa necessidade quase visceral de entender mais e mais esses mundos ficcionais que a literatura YA nos mostra? Há tempos que a literatura para adolescentes deixou de ser um mero entretenimento e passou a ser também uma espécie de formação.

Não, não estou falando de saber qual casa você é (mas, diga-se de passagem, sou a mistura exata entre Lufa-Lufa e Corvinal), mas sim de se deparar com questões que não necessariamente aparecem antes na sua vida — ou, mais comum ainda, que aparecem, mas são tão corriqueiras que nem se nota. O racismo, por exemplo, é um dos pontos cruciais de sagas como Harry Potter e Jogos Vorazes (para quem não lembra ou não leu: existe toda uma discussão em torno de pessoas que nasceram de pais não bruxos no primeiro exemplo, enquanto no segundo, os distritos são marcados não apenas por suas divisões sociais, mas também raciais — a Rue e a maioria das pessoas do Distrito 8 são negras, assim como a Katniss e a maioria das pessoas do Distrito 12 são árabes, ou, nos termos do livro, têm “pele de oliva”).

Deparar-se com esse tipo de indagação social é formador em diversos níveis: a pessoa passa a se questionar sobre como aquilo que é descrito no livro ocorre na vida real, ela se depara com preconceitos próximos dela — e, muitas vezes, ela percebe que ela mesma reproduz preconceitos e/ou se identifica com as personagens que os sofrem nos livros. Assim, a pessoa passa a ficar mais atenta a pontos problemáticos, torna-se mais empática quanto às pessoas que sofrem a exclusão social narrada e passa a desconstruir em si o que a sociedade lhe ensinou.

Junto a isso, outra questão aparece: como resolver o problema?

Pois, ora!, se Katniss Everdeen conseguiu acabar com o sistema totalitário de seu país, se Harry Potter conseguiu vencer Lord Voldemort, por que nós também não podemos mudar o mundo em que vivemos?

E é aí que entra o grande erro de não levar a sério a literatura YA: pessoas já confortáveis em suas cadeiras de espertinhos da literatura, como nossa querida Ruth Rocha e os críticos literários, não percebem que essa literatura dá força para adolescentes sobreviverem (e mudarem) o próprio mundo em que vivem. Seja por meio da idealização de um cara ideal como em Crepúsculo*, seja por meio da idealização de um lugar muito pior que o nosso. De qualquer forma, encontramos nesses livros não as ilusões perdidas de antigos escritores frustrados após a falha da tentativa de uma sociedade igualitária, mas a certeza que, apesar do que nos contam os mais velhos, ainda construiremos um mundo em perfeita harmonia. E, junto a tudo isso, podemos também viver a vida de adolescente como qualquer outra, com romances, amizades e medos que nos tomam sendo ou não o gatilho da revolução.

A nova ordem literata é mais que uma discussão acadêmica sobre o que é literatura e o que é bobagem; a nova ordem literária somos nós mesmas, lutando com todas as forças pelo mundo que acreditamos.

*Você pode saber mais o que eu acho sobre literatura YA sem o recorte específico de revoluções aqui.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

  • Aline S. Diehl

    Moça, eu sei que eu não tenho nada com isso, mas muito obrigada pro abandonar o aconchego da cama pra defender Harry Potter e YA <3

  • Pablo Luiz

    “[…] e você, leitora, ia querer me bater[…]” Triste agora, e o leitor, como fica?

    • http://www.revistacapitolina.com.br/ Revista Capitolina

      Pablo, nosso público alvo principal é de garotas adolescentes, por isso nos referimos às leitoras no feminino.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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