10 de maio de 2015 | Ano 2, Edição #14 | Texto: | Ilustração:
O que eu mandaria pro espaço?

Este texto começou como uma lista. Parecia uma tarefa relativamente simples. Sentei na mesa – lápis e papel na mão – defini um título, números. Acostumada a fazer listas, sempre preparo primeiro todo o quadro antes de realmente preencher os itens. Não sei o porquê, é mania. Talvez seja vício de ter passado a pré-adolescência preenchendo aqueles cadernos-questionários sobre amigos que já vêm numerados (vocês ainda fazem isso?). Conheço o gosto de já ter lá o 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10 escritos. Parece que ajuda a pensar.

Mas travei. Sentada na mesa do quarto, olhei ao redor. Não sei o que mandaria para o espaço. Abri a porta da estante. Abri umas gavetas. Deu sono, deixei para lá.

No dia seguinte, sentei na mesa do trabalho logo depois do almoço, liguei a tela do computador e pensei: “mandaria todos os e-mails inúteis que recebo para o espaço.” Mas, na real, esses já têm seu próprio espaço-infinito-saco-sem-fundo…que é como carinhosamente chamo aquelas abas extras da caixa de entrada do Gmail, que nunca abro. Não ocupam espaço, nem na minha mente nem na nuvem onde ficam armazenados. Comentei até durante o café da tarde, na mesa que todos dividem na copa do escritório – todas nossas contas pessoais de e-mail viraram mesmo grandes receptores de coisas marginalmente inúteis. Poucas ainda são as coisas que não deixamos se perder nos filtros de spam.

Naquela noite retomei a lista. Mudei a tática: decidi que a categoria de coisas para mandar para o espaço, na verdade, é outra. Há coisas que já têm lugar aqui na Terra, a verdade é essa – e existem aquelas coisas que nem mandar para o espaço resolve. Problemas não vão deixar de ser problemas no espaço. E o que o pobre do espaço fez para merecer receber só coisas das quais desgostamos?

Então mandaria para o espaço aquilo que sobrou, sem distinguir se é bom ou ruim. Aquilo que não tem espaço mais aqui no meu quarto. Abri o armário, a primeira gaveta que deu na telha, dei uma revirada. Escrevi sem pensar muito. Me distraí no meio da bagunça e perdi noção da hora. No final, tinha dois itens em uma lista de dez. Impossível listar mais? Sim, por enquanto sim. Até porque era tudo o que eu precisava mandar para o espaço.

Sapatilhas de ponta não estão prontas para serem usadas assim que você as retira da caixa. Cada pessoa amacia a sua, tem seus truques para costurar as fitas, suavizar os arcos. Tem gente que martela a sola, há quem arranque o cetim da pontinha para escorregar menos. Eu fico fazendo rélévés até parecer que meu pé dobrou e jamais vai voltar ao normal. Nada mais pessoal e revelador do que a sapatilha de quem dança na ponta.

Voltei para o ballet há dois anos e pouco – e já dancei quase metade deles na ponta. Já passei por quatro pares de sapatilha. Cada uma foi quebrando no próprio tempo. Nas duas primeiras, foi meio por mau uso – nunca tinha dançado na ponta antes, subia um pouco envergando o pé esquerdo. Fui corrigindo esses erros. No terceiro par, demorou, mas finalmente me pareceu que o arco do pé tinha conseguido se entender com a tala da sola. Ganhei confiança para soltar a barra nos exercícios, testar dar piruetas en dehors. O suor escorrendo pelo rosto bem pedia para ser enxugado, mas segurei o arabesque dois segundos a mais. Mas a sensação durou pouco. Vieram logo depois uns escorregões, a instabilidade, rasgos no cetim. Traída, aposentei aquele par e arrumei outro. Duro feito deus-me-livre: agulha, linha, fitas, martelo, pés para rélévés. Todo esse trabalho por uma meia dúzia de échappés perfeitos, algo que passa. Mas que agora já sei que passa. Essa sapatilha também vai quebrar.

Os pares antigos foram para o armário. Não tive coragem de jogar fora.

Com as cartas é sempre a mesma história. Diante da agonia de querer dizer algo a alguém, escrevo. E fico com aquilo martelando na cabeça, até colocar para fora. Tenho mania de criar fantasias e imaginar nos outros significados que estão para além de suas intenções (às vezes parece mais fácil se equilibrar no dedão do pé do que entender outros seres humanos,). Me consumo com essas dúvidas, com uma vontade de acreditar que tudo é possível se alguém der o primeiro passo. A adrenalina corre a mil, por trás de uma calculada fachada plácida. Impávida. Mergulhada nesse mar turvo de sentimentos, é escrevendo que consigo me desafogar um pouco.

Até que escrevo com a ideia fixa de entregar a tal carta, mas aí a vida segue seu rumo, me atropelo (ou me deixo atropelar). Talvez seja uma covardia… Ou talvez nunca tenha tido a real intenção de fazer o texto chegar ao destinatário. O que estava escrito era mais para mim do que para a outra pessoa: o conhecido desaforado, a amiga que se afastara, a pessoa que me dava borboletas no estômago. Aconteceu já algumas vezes. No fim, elas vão para a gaveta. Ficam como provas de algo que chegou a um momento de suspensão, um momento decisivo. Movida por uma inquietude, me colocara a formular o que estava pensando, confessando primeiro para mim aquele conteúdo, por meio das palavras que escolhia para falar ao outro. Entendia-me, finalmente. E, imbuída dessa compreensão, sentia-me segura por alguns instantes. O resto da ladainha, já contei. E, no fim, começo de novo.

Não é porque sapatilhas quebram que deixarei de dançar. Não é porque guardo as cartas que deixarei de sentir. E não é porque elas não me servem mais ou porque ficam um pouco escondidas de vista que elas deixam de ter sido escritas. Escrevi cada palavra, amaciei cada milímetro. Mas o que aconteceu é muito maior do que aquele monte de coisas entulhadas. Sapatilhas antigas não servem mais para dançar, cartas ultrapassadas não têm mais sentido entregar. Hoje queria mesmo era deixar escapar para o espaço esses pequenos lembretes, para os quais não tenho mais lugar aqui no meu quarto, mas que podem achar sentido talvez para além da minha porta. Assim, abro espaço para mais cartas e sapatilhas. E, quem sabe, aquilo que escrevi, pode no fim acabar servindo como uma luva para alguém que não conseguiu ainda escolher as palavras que quer dizer. Tudo é possível nesse universo sem fim.

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Ana Paula Pellegrino
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Ana Paula tem vinte e poucos anos e a internet opina demais sobre sua vida. Mora com sua família no Rio de Janeiro. Prefere ficar em casa tomando chá sem açúcar a sair para lugares barulhentos. A não ser que o programa envolva comprar roupas. Ou livros. Apesar de destrambelhada, faz ballet; segue tumblrs de yoga e pensa demais. Ana Paula, mesmo sendo estranha, é feliz.

  • http://bloglucicaroline.wordpress.com Luci Caroline

    Minha mãe sempre me disse que antes de ir falar com a pessoa que nos magoou, antes escreva tudo o que você queria falar pra ela. Leia e veja se o sentimento continuará, já que palavras mal ditas, são como facas, ou malditas 😉

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