21 de outubro de 2014 | Ano 1, Edição #7 | Texto: | Ilustração:
O que eu queria ter aprendido sobre folclore
Ilustração: Isadora Maldonado.

Ilustração: Isadora Maldonado.

A palavra “folclore”, pessoalmente, vem carregada de memórias da minha infância. Era sempre assim: quando chegava agosto, a professora ensinava que folclore era uma palavra que vinha já junção de “folk”, que é povo em inglês, e “lore”, que é sabedoria também no inglês. Como se a gente não tivesse aprendido isso no ano anterior, ela fazia a grande revelação de que folclore significava “sabedoria do povo”. Aí em seguida a gente aprendia umas parlendas e pintava uns curupiras e uns sacis-pererê que ficavam enfeitando a escola até o dia 22 de agosto, que é o dia oficial do folclore. E depois não se falava mais em folclore no restante do ano.

Quando a gente dá um dia pra alguma pessoa ou coisa, é pra ampliar, pra celebrar, pra espalhar por aí que essa pessoa ou coisa existe e é importante e maravilhosa. Mas com o folclore eu tenho a impressão de que a gente acaba reduzindo a um diazinho no ano, e que em todos os outros 364 dias do ano o folclore fica invisível, deslocado.

É triste ter que assumir, mas, assim que eu saí do Ensino Fundamental, eu parei até de lembrar que folclore existia. Mas, gente, folclore é tão profundo e tão demais.
Você já parou pra pensar que em quase toda região do país tem pelo menos uma criatura mágica,* às vezes a mesma, ligada ao fogo? Agora, de cabeça, lembro do boitatá e da mula sem cabeça. Esses entes seriam explicações aos fenômenos naturais inexplicáveis, quase como religião. Quando viam um redemoinho de vento, pensavam “é obra do saci-pererê”. E aquela agitação na água? Ah, relaxa, deve ser só o boto. Ou cobra Norato. Ou a fofa da Iara.

Essas criaturas mágicas também são comumente usadas pra coagir criancinhas a dormir. “Menina, vai dormir que se não o bicho-papão vai aparecer!” Já dizia também a parlenda: “dorme que a Cuca vem pegar”. Que maldadezinha!

Isso tudo faz parte (ou deveria fazer) da memória coletiva de um povo. “Sabedoria do povo”, lembra? É isso que é tão legal no folclore. A gente se identifica uns com os outros quando canta “Se essa rua fosse minha” ou quando tem medo da Cuca. É quase inerente a nós, parece que já nascemos sabendo, independente de classe, raça ou religião
E ouso dizer que isso acontece em nível mundial. A Iara, por exemplo, existe em muitas culturas diferentes. Iara nada mais é que uma sereia, e as sereias estão aí há um tempão. Elas sobreviveram desde a Odisseia de Homero, quando Ulisses teve que tampar seus ouvidos para não ser seduzido por elas, até os dias de hoje com a moderna sereia Ariel da Disney, que fez muitos pais tamparem seus ouvidos com suas canções estridentes.

Unimo-nos ao resto do mundo, com nossas variações, é claro, mas unimo-nos. E a variação só traz ainda mais riqueza pra história. É triste quando a gente deixa isso se perder, porque poucas coisas dão liga à nossa identidade regional e nacional como o folclore. Era isso que deviam ensinar nas escolas no dia 22 de agosto, pra que nem todo dia a aula fosse dedicada ao folclore, mas que a gente se lembrasse sempre e com carinho por que ele é tão importante.

* A Verônica fez um post bem completo sobre criaturas mágicas, não deixe de dar uma espiada nele depois!

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Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

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