7 de janeiro de 2015 | Edição #10 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
O que me faz ter poder: um relato

po·der
(latim vulgar *potere, de possum, posse, ser capaz de, poder)

Confesso que demorei pra pensar sobre o que escrever para a coluna, afinal considero que o que dá poder se dá diante de vários fatores: de vivências, leituras, conversas entre amigos, ou seja, existem diversas formas de se empoderar, sendo assim, existem diversas formas de trabalhar em nossas vidas em relação a nossa emancipação de forma digna e livre.

Por isso, pensei, pensei e pensei, tentando encontrar o principal agente desencadeador que explicaria o que me faz ter o poder, que hoje acredito que tenho, para lidar com umas situações. Esse amadurecimento veio com o tempo e não sozinho, isso eu consegui facilmente identificar. Logo que comecei a me envolver com o Feminismo conheci pessoas que são importantes para mim até hoje, como Sueli Feliziani, essa que me mostrou o Feminismo Negro Interseccional com textos enviados, com apoio, com puxões de orelhas e às vezes com ovos mexidos. Descobri a real sororidade por meio dela, que veio a se tornar minha mãe e irmã. Feministas Negras, em geral, me deram apoio incondicional.

Mas queria ressaltar uma mulher na minha vida, diante de tudo que pensei em escrever aqui: minha MÃE.

É clichê talvez, mas eu acho que ser mãe de militante nunca é fácil, tanto que qualquer pessoa que não segue a linha do filho perfeito pode perder o apoio dos familiares. Entro em vários debates, disputas ideológicas e não teve uma vez que minha mãe não me apoiou.

Esses dias ela me enviou o seguinte recado:

“Parabéns filha e obrigada por vim a esse mundo uma militante que defende seus ideais sem medo de mostrar a que veio muito orgulho de ti e que Deus a abençoe e guie-te amo muitoooo sua mãe beijinho.”

Acho que só por esse amor incondicional, ela merecia o posto de rainha do meu coração. Mas minha mãe é muito além disso.

Cristiane Mendonça, minha mãe, é filha de Daniel Mendonça, homem negro, pobre, trabalhador autônomo como pintor, e de Leornor Barroti, uma mulher branca que trabalhava numa fábrica de meias. Minha vó e meu vô viveram um relacionamento interracial, ele faleceu faz alguns anos. Na época, ela fugiu para poder casar, já que a sua família impedia a relação por conta do racismo direcionado ao meu vô. Todo esse enfrentamento entre eles e a família só acabou quando minha mãe nasceu, em 1967. Não considero que ela tenha ~acabado~ com o racismo dos meus bisavós, mas que tenha sido o estopim pra uma convivência mais respeitosa por parte deles. Minha mãe cresceu de forma humilde, cheia de amor, porém com conflitos familiares muito comuns: o seu pai era alcoólatra – vale ressaltar que em homens negros é comum a dependência, causada muitas vezes como fuga de inúmeras situações que o racismo cria.

Minha mãe tem duas irmãs, começou a trabalhar cedo limpando casas, acabou entrando na mesma fábrica que a mãe. Depois de um curso mudou de emprego, e nessa época se apaixonou, foi morar com quem futuramente seria meu pai e, aos 25 anos, se viu minha mãe.

Quando eu tinha três anos, meu pai foi embora da casa que ele vivia com minha mãe. Ela ficou sozinha grávida e com uma filha nova.

Eu fui criada com o auxilio dos meus avós e tias. A minha mãe abriu mão da sua vida pela minha e da Maria Giulia, minha irmã. Trabalhava em dois empregos, tinha pouco tempo de sossego. Nos finais de semana levava trabalho extra para casa, fazia “bicos”, corria: não consigo enxergá-la longe desse eterno vai e vem, tudo pensando em nós.

Se hoje eu sou estudante de uma universidade reconhecida, uma garota empoderada, é porque no fundo eu tenho o maior exemplo de todos em casa, me ensinando, me guiando, e mostrando que as pequenas alegrias estão nas atitudes singelas. Eu percebia sempre que nos dias das mães ou dos pais na escolinha, minha mãe estava ali, mesmo com toda as suas inúmeras obrigações trabalhistas, ela estava ali. Eu podia confiar de uma forma que nunca pude em outra pessoa.

Minha mãe é o poder que eu espero que toda mulher tenha. Não que precisemos de histórias tristes ou abrir mão de nossas vidas, mas devemos ser como ela: buscar a força mesmo quando achamos que não temos. Ela é aquela pessoa que sem muito, no fundo bem na simplicidade, sabe compartilhar.

E foi assim que ela me criou, foi assim que ela me ensinou, e foi assim que depois de pensar e pensar descobri que o que me dá poder é Cristiane Mendonça, e me sinto muito lisonjeada e eternamente grata.

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Stephanie Ribeiro
  • Colaboradora de Artes

Arquiteta e Urbanista, ativista feminista e escritora. Contribui com textos e artigos para diversos meios, além de participar de palestras e eventos. Trabalha em seu livro a ser lançado pela Cia das Letras em breve.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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