19 de maio de 2016 | Edição #26 | Texto: e | Ilustração: Sarah Roque
O que faz um filme ser um clássico
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Podemos medir o sucesso de um filme de diferentes maneiras: em retorno financeiro e de vendas, número de público, audiência em exibições na televisão, participação e prêmios em festivais de cinema, venda de DVDs e outros produtos, avaliação da crítica e algum tipo de marca que o filme deixa em termos culturais (um personagem, uma fala, uma cena…), etc.

Só que não podemos pegar todos os filmes do mundo e medir o sucesso deles do mesmo jeito. Existem muitas coisas a se considerar: para algumas produções o retorno financeiro é mais importante que o prestígio de ter uma exibição em um grande festival de cinema.

Vamos pegar de exemplo Meninas Malvadas (sim, nós adoramos esse filme e nunca perdemos a oportunidade de falar dele). O filme foi lançado em 2004 e foi a 28ª melhor bilheteria daquele ano. Podemos considerar que o filme foi um sucesso, mas, além dos números, o filme se tornou um clássico. Como podemos saber isso? Todo dia 3 de outubro as redes sociais são bombardeadas com prints da cena em que a Cady (Lindsay Lohan) perguntou pro Aaron que dia era: era 3 de outubro. Ou a #onwednesdayswewearpink (#naquartafeiranosusamosrosa), em referência a uma das cenas do filme. Os dez anos de lançamento do filme caiu numa quarta-feira, preciso dizer a loucura que foi? Até nós, da Capitolina, saímos de rosa. Poderíamos citar mais algumas coisas do filme que se tornaram clássicas e estampam camisetas, canecas e qualquer superfície que possa ser estampada com uma frase.

Meninas Malvadas é um exemplo de clássico popular. Fazendo uma pesquisa rápida pela internet podemos ver a lista de ganhadores de Melhor Filme no Oscar, e em 1987 a estatueta foi para O último imperador, de Bernardo Bertolucci, um filme de quase três horas sobre Puyi, o último imperador da China. Não queremos desmerecer nenhum dos filmes, cada um teve seu reconhecimento. Ambos foram sucesso de bilheteria e ganharam prêmios, mas em premiações completamente distintas. Enquanto o filme de Bertolucci ganhava melhor fotografia, Lindsay Lohan e suas colegas de filme ganhavam o prêmio de Melhor Grupo na premiação da MTV.

Donnie Darko (Richard Kelly, 2001) é um exemplo curioso. Lançado nos cinemas nos Estados Unidos no mês seguinte ao ataque ao World Trade Center, o filme foi um fracasso de bilheteria, não arrecadando nem 1 milhão de dólares (o que não pagava o orçamento de quase 4 milhões de dólares, uma produção de baixíssimo orçamento). Mas o lançamento em DVD e VHS e os relançamentos nos cinemas em Nova York (que ficou em cartaz por quase trinta meses consecutivos) e em Londres não apenas pagaram o resto do orçamento mas levaram o filme a um status cult e desafiaram diversas pessoas, até hoje, a explicar muitas coisas do filme.

Blade Runner – O Caçador de Andróides (Blade Runner, 1982) é, sem dúvida, um dos maiores filmes de ficção científica, mas na época de seu lançamento não foi capaz de recuperar o dinheiro que havia sido investido na sua produção. E.T. – O Extraterrestre foi lançado naquele mesmo ano, assim como também outros filmes do gênero. Talvez o filme tenha passado batido para os espectadores pois havia outros títulos um tanto quanto semelhantes nas salas de cinema. Nas décadas que se seguiram, porém, o filme começou a ganhar reconhecimento, além do lançamento de uma versão do diretor. Sua fama não se deve apenas pelo seu tema (a relação máquina/humano), mas também por sua fotografia, direção de arte e trilha sonora. Recentemente houve notícias de que uma continuação será feita e que o ator Ryan Goslin estaria envolvido.

Um clássico precisa deixar algum tipo de marca cultural. Ao mesmo tempo que fazemos essa afirmação levantamos as seguintes questões:

Mas e os filmes que não necessariamente mudaram as estruturas do cinema, mas são amados e populares?

Mas e os filmes que são super populares e ruins?

E aqueles filmes que só fazem sentido para um determinado público?

Um filme cult, obscuro e desconhecido para o público médio é necessariamente um clássico?

O filme precisa ter sido lançado a um tempo específico?

Mas nem todos os filmes ganham fama por boas razões. O filme norte-americano The Room é um caso interessante. É quase um consenso que ele é ruim. Parece que nada nele faz sentido, a atuação é ruim, tem falhas terríveis de continuidade, o roteiro é piegas… Adicione elementos curiosos como o fato de que o diretor tem um passado meio nebuloso. O filme é considerado tão ruim que atrai a curiosidade das pessoas e foi elevado a um status cult. Podemos até considerar um clássico do cinema ruim.

Quando pensamos em clássicos do cinema frequentemente pensamos em filmes antigos hollywoodianos. Mas não se engane, só porque um filme é em preto e branco e tem um galã e uma mocinha não significa que ele seja um clássico.

Por um lado, não podemos comparar The Room a um Cidadão Kane da vida (Orson Welles, 1941), já que o primeiro é famoso por ser ruim e o segundo é um dos filmes mais importantes da história do cinema. Cidadão Kane, Psicose (Psycho, 1960), Táxi Driver (Taxi Driver, 1976) e 2001 – Uma Odisséia no Espaço (2001 – A Space Odyssey, 1968) trouxeram algum tipo de inovação para o cinema e de um modo ou de outro atravessaram a barreira do tempo.

Ainda temos diversos tipos de clássicos quando pensamos em gêneros cinematográficos e em público.

O Exorcista (The Exorcist, 1973) e Suspíria (Suspiria, 1977) são clássicos do terror e qualquer um que se considera fã do gênero já viu. E mesmo dentro do terror ou do cinema fantástico podemos encontrar sub-gêneros e outros clássicos. A noite dos mortos vivos (The Night of The Living Dead, 1968) de George A. Romero é um must-see dos filmes de zumbis. E ainda assim, algumas pessoas podem argumentar que outros filmes menos conhecidos são mais clássicos e mais influentes.

Pensar de um modo geral o que faz ou não um filme se tornar um clássico é uma tarefa difícil, já que isso pode depender de muitos fatores e também do momento em que o filme foi lançado. Algumas vezes o caminho é mais rápido e fácil, outras vezes leva anos e algumas releituras. E mesmo que o filme seja considerado um clássico por qualquer motivo, não significa que todas as pessoas vão querer ver, talvez por falta de interesse ou conhecimento. Afinal, cada pessoa tem seus próprios requisitos na hora de escolher um filme pra assistir.

Pensando em tudo isso, resolvemos fazer uma lista das cenas de filmes que mais marcaram sua geração e a história do cinema. Tentamos usar os critérios que falamos neste texto, mas também não vamos negar que teve um gosto pessoal envolvido na seleção.

1885 a 1899 – Trem chegando na estação, de Chegada de um trem a estação (L’arrivée d’un train à La Ciotat, 1896)

Estamos começando essa jornada lá no inicio, quando o cinema surgiu e as pessoas não faziam a menor ideia do que era isso e do que viria a ser. Os irmãos Lumiere foram pioneiros na “invensão” do que chamamos de cinema. Além de produzirem as primeiras câmeras, produziram diversos curtas de coisas do cotidiano, de tudo que estava a volta deles. Essa cena do trem chegando na estação foi uma das mais famosas e que mais marcaram quem assistia – e a nós quando vamos estudar a história do cinema. Durante muito tempo se acreditou que as pessoas ficaram tão impressionadas com a imagem do trem que saíram correndo da sala achando que era real e que ele ia atropelá-las. Hoje em dia a história é considerada um mito, mas a cena persiste como um dos primeiros marcos do que seria o cinema.

1900 a 1910 – Nave chegando a lua, de Viagem à Lua (Le voyage dans la lune, 1902)

Ainda falando do início do cinema. Em 1902 as pessoas estavam descobrindo o que era essa mídia e elas ainda exploravam as diversas possibilidades que o cinema prometia. Aqui Georges Méliès lança um dos primeiros filmes de ficção que conhecemos e o primeiro de ficção científica/fantasia. A história é de vários homens que constroem uma nave para a lua e chegando lá se deparam com seres nativos desconhecidos e violentos. A cena da nave aterrissando no olho da lua é icônica e uma das primeiras imagens que pensamos quando se fala em história do cinema e seus primeiros anos.

1911 a 1920 – A batalha final de O nascimento de uma nação (The Birth of a Nation, 1915)

A maioria dos filmes marca a história positivamente, mas esse não é necessariamente o caso desse filme. Em 1915 D.W. Griffith lançava seu épico histórico sobre uma América pós-guerra civil que precisava se unir, pois ainda era muito clara a divisão entre Norte e Sul. O grande problema do filme é que ele retrata os negros americanos como os maiores vilões desse momento histórico e, pior ainda, a organização Ku Klux Klan como os heróis que salvaram o país assassinando os negros. Pra piorar, nenhum ator negro participa do filme e atores brancos fazem blackface para representar os “negros malignos”. Hoje o filme é lembrado como um dos mais racistas e cruéis que já foram produzidos na história do cinema. Mesmo na época com o sucesso que teve, diversos protestos foram realizados contra a exibição do filme em certos cinemas e a repercussão negativa motivou diversos cinegrafistas negros a entrarem no mercado.

Contudo, muito se estuda nas universidades de cinema sobre a estrutura narrativa implantada no filme que de fato foi inovadora. O nascimento de uma nação é o primeiro longa a usar a edição para contar uma história e criar um suspense. A última batalha do filme é um exemplo disso, e por esse motivo a cena foi escolhida. Além da inovação cinematográfica ela deixa claro o preconceito e o racismo que marcam o filme.

1921 a 1930 – A escada de Odessa, de O Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potemkin, 1925)

A década de vinte foi marcada pelas escolas de vanguarda do cinema espalhadas pela Europa. Os principais destaques ficam com o Surrealismo Alemão e a Vanguarda Soviética. Ficamos muito na dúvida sobre qual escolher, mas então lembramos que essa cena da escada do filme soviético de Serguei Eisenstein foi tão homenageada e reproduzida de diversas formas em tantos filmes e séries que não tivemos como escolher outra cena.
O filme de 1925 fala sobre a tripulação de um navio que organiza um motim e é massacrada pelo exército. Muito da escola soviética era focado na montagem e as diferentes formas que ela pode conduzir e estruturar um filme. Eisentein era obcecado por isso e fala muito de ritmo e de choque, e como cada corte deve ter uma intenção e produzir algo no espectador. Essa cena da população inocente sendo destruída pelo exercito faz exatamente isso.

1931 a 1940 – “Eu nunca vou passar fome de novo” de E o vento levou (Gone with the wind, 1939)

Em 1930 surge o que vamos chamar de Hollywood. Abrem vários estúdios e logo a indústria de cinema americana, que é a maior que conhecemos até hoje, começa a se firmar. As estrelas de Hollywood começam a pipocar e os grandes clássicos românticos nascem um atrás do outro. Exatamente nesse contexto estreia, em 1939, E o vento levou. Vivian Leigh é Scarllet, uma jovem menina sulista que vive poucas e boas durante a guerra civil americana. Ela é a estrela do filme e, depois de ter sua vida virada de ponta-cabeça e sofrido demais, faz um dos monológos mais marcantes do cinema.

1941 a 1950 – “Nós sempre teremos Paris” de Casablanca (Casablanca, 1942)

Casablanca é outro clássico romântico. Estrelam o filme Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, dois grandes nomes dessa era de ouro de Hollywood. No filme, dois antigos amantes se reencontram no meio da Segunda Guerra Mundial e apesar de ainda se amarem percebem que não podem ficar juntos. O filme tem vários momentos marcantes, como quando Ingrid reencontra Bogart e canta uma música. Porém quando eles finalmente percebem que não devem ficar juntos e se despedem lembrando de quando se conheceram (em Paris) é a cena que mais ficou na memória, triste de partir o coração.

1951 a 1960 – Monológo na Delegacia de Juventude transviada (Rebel without a cause, 1955)

James Dean foi um jovem ator americano que morreu muito precocemente em 1955 com apenas três filmes no currículo. Mesmo assim toda uma mística e um arquétipo de personagem foi criado em torno da sua persona, o bad boy, com raiva do mundo, mas que sofre por dentro e só quer ficar de boas. Nos anos cinquenta, o que conhecemos como filmes adolescentes estavam começando a surgir. Essa cena é uma das primeiras que retrata a angústia adolescente de estar completamente perdido na vida e é muito bem representada justamente por ele, James Dean.

1961 a 1970 – The Sound of Music de A Noviça Rebelde (The Sound of Music, 1965)

Musicais também foram um grande gênero que começou nos anos 1950 e seguiu forte até os anos 1970. Recentemente tivemos um revival do gênero, mas ainda não chegamos perto do que era essa época. Já falamos de A Noviça Rebelde aqui, mas escolhemos esse para a década de 1960 porque, além de ser um ícone quando se pensa em musicais — especialmente essa música —, Julie Andrews lançou moda e muitas meninas sonhavam em ser como ela na época.

1971 a 1980 – “A long time ago, in a galaxy far far away…” de Star Wars IV (Star Wars IV, 1977)

Como não falar de Star Wars quando se está fazendo uma lista de filmes que marcaram uma geração? Star Wars não só foi um marco, como se revitalizou e continua conquistando gerações, fazendo com que os sortudos que viveram o nascimento dessa franquia de sucesso mundial possam causar inveja em muitos fãs mais novos. De diversos momentos marcantes de toda a saga, escolhemos os primeiros sete minutos do primeiro filme. Porque aqui temos a famosa introdução em texto subindo na vertical, temos lutas no espaço, temos naves, temos armas de lasers, temos robôs, temos Darth Vader e temos Princesa Léia com seu maravilhoso penteado.

1981 a 1990 – Dança Final de Dirty Dancing (Dirty Dancing, 1987)

A década de 1980 foi recheada de filmes de dança. Começando ainda nos anos 1970 com Embalos de sábado à noite (Saturday Night Fever, 1975), filmes focados em dança eram os novos musicais. Dirty Dancing sendo o mais famoso deles. Em 1987, Patrick Swayze arrebentava com suas habilidades de dançarino assim como ganhava o coração de diversas adolescentes pelo mundo. A cena final quando Baby finalmente consegue realizar o salto que treinou tanto é icônica e foi reproduzida em diversas séries e filme. Inclusive por mim e várias outras adolescentes em seus quartos na frente do espelho.

1991 a 2000 – Neo desviando balas de Matrix (1999)

Os anos 1990 foram uma década peculiar. Metade dela ainda estava presa nos anos 1980 e toda essa coisa do passado, e a outra metade é toda o novo milênio, “o futuro é agora”. Matrix faz parte da metade focado no novo milênio e foi símbolo de modernidade e “do que está por vir”. Ele revitalizou o gênero de ficção cientifica e essa cena também foi reproduzida por muitos durante muito tempo.

2001 a 2010 – Cena no ginásio de Meninas Malvadas (Mean Girls, 2004)

Lá vamos nós falar de Meninas Malvadas novamente. Porém a verdade é que esse filme marcou demais toda uma geração, principalmente as adolescentes do inicio dos anos 2000. Ele retrata muito questões sobre popularidade, insegurança e amizade. Nessa cena que já é clássica, diversas meninas enfrentam seus medos confessando seus erros ao perceberem que todo mundo já fez algo para prejudicar a colega ao lado e o quanto isso só piora a vida dos outros.

2011 a 2015 – Morte de Voldemort de Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 2 (Harry Potter and the Death Hallows part 2, 2011)

Às vezes precisamos de tempo para perceber que algo é um clássico. A resistência ao tempo e o olhar de fora sobre uma época que nos faz perceber o quanto aquela obra marcou e foi significativa. Porém, mesmo tendo sido só há cinco anos que a saga de Harry Potter chegou ao fim, já conseguimos perceber o quanto essa história está gravada na mente e no coração de diversas pessoas, principalmente as que cresceram junto com Harry. A morte do principal inimigo de Harry Potter marca o fim de toda uma era. Dos livros aos filmes essa franquia foi um fenômeno mundial e já começa a mostrar sinais que vai atravessar gerações com fãs cada vez mais novos se apaixonando pelo mundo de Potter.

Essa foi a nossa lista, espero que vocês tenham curtido. Se sentiram que fomos injustas e faltou alguma coisa só mandar para gente, o que vocês acham que ficou de fora? Para vocês o que faz um filme ser um clássico?

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha tem 23 anos e segundo um taxista paulista não tem sotaque gaúcho. Cursou cinema e tenta se inspirar em Leslie Knope, mas sabe que sempre acaba sendo Ron Swanson ou April Ludgate. Escreve menos do que deveria e trabalha com produção audiovisual.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.