14 de setembro de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Isadora M.
O que o BBB pode nos dizer sobre poder e elitismo cultural

O BBB foi um fenômeno gigantesco pra televisão brasileira – foi ali que descobrimos o que é reality TV e o que gostamos de assistir nesse tipo de programa, e a partir disso foi que as grandes emissoras brasileiras começaram a explorar e mexer com os elementos que compõem a fórmula de um reality bem sucedido. O BBB foi também um divisor de águas no que diz respeito ao elitismo cultural da classe média, que adora dizer por aí como “o povo” é alienado. Se transformou em um “argumento” honorário para a desclassificação da cultura de massa, sendo muito fácil escutar até hoje, uns muitos anos depois da primeira edição do programa, como “os brasileiros são muito burros mesmo, não se importam com arte, só escutam aquelas músicas horríveis e ficam assistindo aquele BBB”.

O negócio é que o Big Brother nunca se dispôs a desvendar os mistérios da vida, universo e tudo mais, e nem ninguém se dispõe a passar todos os minutos de sua vida fazendo isso. Nós precisamos de entretenimento puro e simples, e alguns obtêm esse entretenimento através do BBB, outros através de novelas, outros através de filmes americanos cujo roteiro só envolve explosões e reproduções automáticas de estereótipos (grande parte do que chega aos nossos cinemas). E não tem nada, mas nada mesmo, de errado com isso; nem existe alguém que viva sem entretenimento leve. A questão é que a desqualificação de quem assiste ao BBB, com base em supostamente ser um programa fútil, é simplesmente uma máscara que esconde a vontade que uma elite brasileira tem de se distanciar de outras classes – tanto que as críticas são sempre aos brasileiros, e nunca a quem controla a mídia, sempre a quem assiste ou participa do programa, nunca a quem faz. Será mesmo que o BBB nos diz alguma coisa sobre a maioria dos brasileiros, ou será que ele nos fala mais sobre as elites? E o que, afinal de contas, ele poderia nos dizer?

É difícil negar que o próprio conceito do programa é, em si mesmo, bastante atraente (agora vou entrar numas viagens, mas me aguenta um pouquinho mais). Big Brother é um termo retirado do livro de ficção distópica 1984, de George Orwell, e representa uma instância governamental que sabe de tudo que toda a população faz e mesmo pensa, a própria definição do olho que tudo vê (que é o símbolo do programa). A diferença é que, no caso do reality show, o papel do Big Brother se inverte e você não é mais a pessoa espionada, mas sim aquela que tudo vê. Passa-se para o público a ilusão de controle absoluto sobre o que acontece lá dentro, já que você é supostamente onisciente e tem o poder de tirar do “jogo” ou de recompensar quem você quiser. E em uma vida onde somos constantemente vigiados e controlados, quem não quer retomar um pouco de poder para si?

O problema é que o controle que nós temos sobre o que acontece lá dentro é só isso: uma ilusão. Existe uma empresa enorme por trás dos bastidores que não apenas edita e corta tudo que vamos ver, controlando nossa opinião sobre as pessoas, como escolhe quem vai parar lá dentro. O BBB é tudo, menos representativo da nossa realidade, e as pessoas que são selecionadas necessariamente sofrem tentativas de serem encaixadas em estereótipos. A agência delas lá dentro é, no fundo, muito limitada. As edições podem te transformar em basicamente qualquer coisa.

A maior parte dos homens gays, por exemplo, foram utilizados através dessas tais edições para puro alívio cômico, assim como as mulheres gordas. As lésbicas ou bissexuais, para a realização de fetiches masculinos. Aliás, a maioria de mulheres que foram participantes existiam ali com a função da realização de fetiches masculinos, já que, se bobear, não teve um episódio sequer que não mostrasse longas tomadas de corpos femininos tomando sol, banho ou coisas assim, e quase todos esses corpos se encaixando perfeitamente no padrão de beleza vigente. Ah, sim, tem também a escolha proposital de homens que fazem questão de se provar como ~macho alfa~ o tempo inteiro, consequentemente, machistões. E sem falar na predominância de pessoas brancas e de classe média, sendo “empresário/a” a profissão mais comum.

Mas isso tudo aí é culpa de quem assiste ou de quem faz? E isso é exclusividade do BBB, ou está na cultura ocidental como um todo? Mais do que isso – com tudo assim tão complexo, fica difícil “culpar” os espectadores do programa de escolherem quem ganha. São escolhas restritas no próprio momento em que é feita a seleção de participantes. E todo mundo sabe disso, a possibilidade de ser tudo manipulado passa pela cabeça de todo mundo, não é um grande segredo. Mas continua sendo divertido. Sei lá, muita gente acha. Você pode não achar e tudo bem também. Só é bom lembrar que, diferentemente do que pode ser dito por aí, reality shows não são exclusividade brasileira e dão muita audiência ao redor do mundo, e nenhum deles se trata de uma competição de física quântica ou literatura russa.

O BBB é, sim, >>>extremamente<<< problemático e suscita MUITO racismo, muito machismo, muito slutshaming, muita homofobia, muita gordofobia, muita transfobia entre tantas outras coisas, tanto dentro do próprio programa quanto fora dele. É claro que sim. Nossa cultura em geral produz todas essas coisas, que estão profundamente entranhadas nos discursos de todo mundo, e também em filmes, livros, televisão e tudo o mais, e no BBB isso é levado a um extremo. Mas é preciso fazer uma diferenciação entre uma crítica à problemáticas da nossa cultura e ao elitismo cultural. A maior parte das críticas ao BBB não se tratam de uma tentativa de construir um mundo melhor, mas sim de uma tentativa de separar seres superiores, que só escutam música clássica e leem Freud (um grande mito, já que essas pessoas nem existem), de seres inferiores que assistem ao BBB. Até porque grande parte das pessoas que criticam o BBB partilham de opiniões lugar-comum racistas, machistas, homofóbicas etc sobre os participantes, caindo direitinho no jogo dos produtores e pensando exatamente o que eles querem que as pessoas pensem. Aliás, o BBB exerce um fascínio tão grande por aqui, tanta gente faz tanta questão de se posicionar com relação ao BBB que isso funciona justamente pra dar mais audiência e perpetuar todos os problemas desse tipo de programa.

Na realidade, por aqui no Brasil, as escolhas de ganhadores são tão pouco coerentes que é difícil concluir algo sobre o público que vota. A maioria dos ganhadores é branco (assim como a maioria das pessoas que foram parar no BBB), homem e ~garanhão~, héteros e sarados.  No entanto, também ganhou Jean Wyllys, apesar de o Brasil ser um país homofóbico. Ganhou Cida, empregada doméstica, apesar do Brasil ser um país classista e elitista. Ganhou a Maria, contrariando o que muita gente achava que ia acontecer, apesar de o programa ter o tempo todo tentado fazê-la parecer “burra” e “promíscua”, e apesar de o Brasil ser um país machista. Não assisti ao BBB14, mas ouvi boatos que a ganhadora assumiu um relacionamento com outra mulher e ganhou apesar de o Brasil ser machista e lesbofóbico.

No fundo, o BBB diz pouco sobre a maioria dos participantes, muito pouco sobre os espectadores, muito pouco até mesmo sobre quem critica. Ele é muito mais um sintoma de como nossa cultura funciona, do nosso elitismo e dos nossos preconceitos sistêmicos, e mais ainda dos interesses da nossa mídia. Ele nos fala mesmo sobre quem tem poder, e mais ainda sobre como e com qual propósito essas pessoas escolhem utilizá-lo.

Thais Bakker
  • Colaboradora de Cinema & TV

Thais tem 20 anos e estuda Relações Internacionais e Filosofia. Se sente bem estranha se apresentando, por isso pagou uma coxinha a quem escrevesse isto por ela. Essa pessoa também achou relevante mencionar que ela reclama mais do que o socialmente aceitável.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Achei incrível 😀

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