28 de abril de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Heleni Andrade
O que você faz para ganhar a vida?

“O que você vai ser quando crescer?” é uma pergunta frequente durante nossa infância — nessa época ainda nos permitem um pouco de sonho, então, podemos responder sem pensar duas vezes: “Um monstro”, “Uma sereia” ou “Feliz”. Mas, quando chegamos à adolescência, uma palavra se torna constante: “Vestibular.” O que queremos ser já não importa tanto, a questão agora é “Que curso você quer fazer na faculdade?” ou “Em que você quer trabalhar?”. Depois que temos uma idade na qual, supostamente, já nos formamos no colégio, passam a nos perguntar “E aí, o que você faz da vida?”, e não podemos responder “Tomo sorvete” ou “Sou maravilhosa” (minha resposta atual), porque sabemos que esse verbo “fazer” se refere ao nosso trabalho ou ao que estudamos para construir uma carreira profissional. A verdade é que desde cedo nos ensinam que os verbos “ser” e “fazer” se referem a uma profissão, mas, afinal, o trabalho define quem uma pessoa é?

Se respondemos positivamente a essa questão, não é surpreendente que nossas crises profissionais se confundam com crises existenciais. “Não sei o que fazer da minha vida” é a frase que mais escuto dos meus amigos. Às vezes ela é dita com leveza, porque, sem dúvidas, também há prazer em se perder. Mas, em geral, é um desabafo cheio de angústia: alguns não encontram um sentido ou motivação para guiar seus dias e acabam depressivos; outros querem tantas coisas que são consumidos pela ansiedade. Independentemente de serem marcados pelo vazio ou pelo excesso, esses incômodos partem de uma mesma ideia: é preciso usar nosso tempo em vida para fazer/produzir algo ou, de modo mais prático, é preciso encontrar uma profissão. O que aparentemente é uma ideia óbvia, já que nós, seres humanos, não vivemos em um equilíbrio perfeito como as vaquinhas que passam os dias a pastar e quando morrem se transformam no adubo para essa mesma vegetação. Se há algo que pode distinguir a humanidade dos outros animais é a capacidade (ou seria necessidade?) de fazer coisas; nós deixamos legados, inventamos tecnologias, construímos uma história, enfim, trabalhamos.

Pensando assim, parece natural a preocupação em fazer algo da vida; mas a ideia de dedicar nosso tempo a uma ocupação significativa pode se tornar um fardo quando colocamos isso em termos profissionais. Seria ótimo se encontrar uma profissão fosse só uma questão de dar um sentido ao nosso ser e fazer algo útil para a sociedade em que vivemos; mas, infelizmente, a necessidade de trabalhar tem mais relação com a urgência em pagar as contas. Eu e meus amigos — que somos jovens de classe média, universitários ou recém-formados, ou seja, estamos em uma posição privilegiada no contexto do nosso país — crescemos acreditando que é importante trabalhar não só para ganhar dinheiro, mas, principalmente, para fazer algo com paixão. Meus pais sempre me incentivaram a tentar me descobrir profissionalmente e, como eles, trabalhar com algo que me dê prazer. No entanto, a expectativa que uma única atividade dê sentido à sua existência, seja prazerosa, tenha valor social e renda algum dinheiro não é muito condizente com nossa realidade. É claro que algumas pessoas — com sorte, privilégios e muita dedicação — conseguem encontrar uma profissão que atenda a essa expectativa, mas isso não é a regra. O fato é que o mundo em que vivemos é organizado de um modo desigual e injusto; dentro desse sistema, o trabalho ocupa um valor que atende a uma lógica que nada tem a ver com nossos anseios e satisfações pessoais. Por isso que tentar definir nossa existência pelo trabalho, pode ser, sim, perder o próprio rumo.

Esse é o momento em que você, leitora, deve estar se perguntando “Tá, mas aonde você quer chegar? Você quer que eu largue tudo e vá vender minha arte na praia? Quer que eu abandone meus sonhos e vá viver em função do dinheiro? Quer que eu chore em posição fetal pensando em como é difícil crescer e ter responsabilidades?”. Não, eu não quero nada disso, embora já tenha passado por esses estágios na minha vida. A única coisa que esse texto pretende dizer é que nossa vida não é uma carreira profissional. O nosso trabalho — ainda que ocupe grande parte do nosso tempo diário — não define necessariamente quem nós somos e não é a única coisa que dá valor e sentido às nossas vidas. Podemos ser, tentar e inventar muitas coisas, algumas delas vão nos render dinheiro, outras, prazer. Acredito que todo mundo deve buscar ser útil e colaborar para que nossa sociedade seja menos injusta e desigual; todo mundo deve fazer o que ama; todo mundo deve produzir algo e isso pode ser um texto, bolo, afeto ou construções de areia. Mas não acredito em dom e vocação; ninguém nasce pra ser algo, todos nós, velhos ou adultos, estamos em constante descoberta.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

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