23 de abril de 2014 | Ano 1, Edição #1 | Texto: | Ilustração:
O que você gosta não te define
Ilustração: Verônica Vilela.

Ilustração: Verônica Vilela.

Entre no seu Facebook e observe as primeiras postagens que aparecem no seu feed de notícias. A rede social tem um mecanismo de uma seleção “natural” do que aparece para você de imediato baseado nos “seus gostos”. Ou, pelo menos, no que acha que você curte ver. Faça uma análise rápida do que viu. Vamos supor que na primeira postagem tem uma matéria sobre enchente em Londres, embaixo tem um vídeo da banda indie dos anos 90 Neutral Milk Hotel e mais embaixo tem algo sobre Star Trek. Será que você já foi a Londres, adora bandas desconhecidas de 20 anos atrás e é nerd, tudo ao mesmo tempo? Aliás, normalmente gosta do que aparece na sua timeline? E daí começam algumas perguntas cruciais: como uma rede social te define pelo seu suposto gosto? Como um computador acredita que, porque uma vez entrou num site de viagem por um spam, estará interessado em ver sempre fotos ou status de todos os meus amigos que viajaram na sua timeline? Bizarro é explicar que não é apenas o computador que faz isso. Nós julgamos as pessoas e generalizamos as suas preferências baseadas em uma opinião diariamente.

Imagine-se numa festa. Lá está alguém que, numa conversa primordial, te revela que dá aula de educação física. O primeiro julgamento natural pode vir de um estereótipo de que todos que fazem faculdade de educação física são burros e adoram seu próprio corpo. Ao prosseguir, a pessoa começa a falar sobre dietas de carboidratos e aquela coisa toda de “preciso ganhar massa muscular”. Se você for sedentária e não souber diferenciar uma batata normal de uma doce, seu julgamento aumenta de “é simplesmente burro” para “também é fútil”. E ao longo do papo acaba se revelando uma pessoa engraçada que faz piadas inteligentes sobre pequenos fatos da vida. Provavelmente, sua cara ficaria no chão, afinal, estudantes de educação física não podem ser engraçados nem inteligentes, não é o que dizem? É assim que funciona, certo? Quem é assim sempre será assim, nunca assado e não pode mudar para cru. Como aquele clássico de Gal Costa, “Eu nasci assim eu cresci assim e sou mesmo sim, vou ser sempre assim” (Gabrieeeela). Quem nunca ouviu “sempre te achei tal coisa, mas agora sei que é diferente”? Isso se chama primeira impressão, e o fazemos baseado nos que a pessoa nos mostra, uma superficialidade fundamentada no gosto.

Se montamos uma opinião nas primeiras impressões, como, afinal, é o processo de intimidade com uma pessoa? Como viramos amigos de alguém aleatório para a gente? Antes de qualquer coisa, é necessário saber que somos produtos do meio que vivemos e fomos criados. Desde a parede do seu quarto descascado àquela goteira que nunca foi concertada, dos discos do Tim Maia do seu pai àquele amigo que andava de short rosa, tudo isso te influenciou de alguma maneira. Sabe aquela sensação de ouvir uma música que sua mãe escutava muito e que você, por ser criança, nunca nem soube o nome? Isso está no seu inconsciente e influencia tudo o que acha importante ter como referência. Acabamos por nos adaptar para sobreviver, somando o que aprendemos da nossa infância até agora. Basta ver como a moda funciona – e não apenas de roupa –: se um corte de cabelo que apareceu numa novela é o que há, muitas mulheres, de tanto verem, acabam desejando sem saber que estão sendo bombardeadas para quererem aquilo. Quando conhecemos uma pessoa, nos atraímos pelo que nos identificamos nela, uma espécie de espelho e egocentrismo que nunca deixaremos de lado. Os nossos gostos influenciam, a princípio, as nossas escolhas e temos mais facilidade de ser mais íntimos e ter assunto (porque é assim que se começa uma amizade: de assunto em assunto que um dia vira um segredo). Mas isso não acontece com todos, certo? Faça uma lista de quantos amigos seus gostam, por exemplo, de um livro favorito seu. Poucos, possivelmente.

Ter gosto em comum com uma pessoa não é critério nenhum de amizade longa e duradoura ou coisa que o valha. É um facilitador, apenas. Claro, as pessoas se guiam por isso para limar quem ou não será merecedor da valiosa companhia no dia a dia. Observe seu melhor amigo e pense no que tem em comum. Ou melhor, pense nos gostos em comum. Agora, se pergunte: Isso foi um fator importante para a amizade e companheirismo com ele? Provavelmente sua resposta será não e verá que talvez todos seus amigos também não. Às vezes o gosto em comum contigo foi influência sua ou dele, mas não foi o motivo em especial para que criassem um laço de confiança. Os nossos gostos pessoais não nos definem com quem teremos uma relação, seja ela qual for.

Mas o que é gosto no fim das contas? Umas das repostas é que é aquilo que saboreamos. O verbo saborear é diferente de comer. Comer te dá a idéia de algo rápido, sem gosto, apenas para satisfação das necessidades primárias. Saborear sugere algo mais demorado, a cada mastigada uma sensação nova, em que tudo mora nos detalhes e procura-se por isso. O que gostamos (e não gostamos) funciona deste jeito. O que passa batido é o ato de comer.

Há uma teoria de que as crianças precisam ver o mesmo filme várias vezes para entenderem o que se trata, já que as primeiras impressões delas é apenas o estético (explica porque sua irmã mais nova vê Enrolados 8 vezes ao dia). Somos assim com as pessoas. O estético nos atrai ou repele. E, se insistimos muito, a primeira impressão vira uma piada após anos. E, mesmo sabendo que isso é errado, ainda o fazemos com muita frequência (e nos ferramos por isso). Quem já fez entrevista de emprego já deve ter ouvido aquela pergunta: Você prefere ter em seu escritório o PhD mal vestido ou o 1º grau incompleto arrumado? E logo após se fala de como a aparência é importante para uma primeira impressão. Mas, de fato, ela não é definição. E não mostra nada além de bom gosto para se vestir ou não.

O bom gosto, alias, é algo relativo. O que é bom gosto para ti? Sem perceber estará respondendo o que todo mundo responde, sem pensar (olha aí a influência de novo). É aquilo que é bonito. Mas o que é bonito? O que é feio? Sua mãe pode achar seu cabelo rosa feio. Mas sua amiga o acha incrível. O que difere sua mãe da sua amiga? Para Kant (filósofo alemão do século XVIII), o belo é relativo, ou seja, depende do indivíduo. Então o que acho bonito provavelmente não será o que você acha bonito. Novamente: O seu gosto não te define. Se te definisse, para alguns seria maluca por ter um cabelo de cor diferente e, para outros, seria bacana demais por ser tão ousada. Na verdade, talvez só estivesse de saco cheio do cabelo preto e resolveu mudar, não querendo provar nada a ninguém, apenas experimentar ao menos uma vez na vida o que é ter um cabelo de cor artificial.

Não, o amadurecimento não vai acabar com este rótulo constante que te atribuirão ao longo da vida. Piora, aliás. Enquanto as crianças são mais verdadeiras por serem mais livres, os adultos se escondem em suas máscaras. E, ao crescer, terá que ser algo diferente em cada lugar, e mostrar para cada um gosto diferente. No trabalho será mais séria e provavelmente mostrará seu gosto  com os livros. Na faculdade será  inteligente e mostrará nas roupas. Na balada quererá liberdade e vai dançar muito o que tocará, mesmo não sendo o que escuta no iPod. Na verdade, nunca revelará seu gosto inteiro para ninguém, até porque haverá vezes que, do nada, descobre o que sempre gostou e nunca soube o que era. E, adivinha: isso nunca fez nenhuma diferença para você nem na sua personalidade.

Seu gosto não é inútil. Vai usá-lo sempre. Por exemplo, quando vai ao encontro com uma pessoa com quem está ficando e a pessoa te pergunta qual filme que quer assistir, você vai usar seu gosto para definir qual escolher. E sim, será julgada internamente por isso. Porém, não ache que é proposital, fazemos isso sempre. Não fazer é uma questão de controle. Quando não estamos apenas fechados no nosso mundinho de “apenas o que gosto e sei que é bom”, acabamos por achar coisas incríveis e nos abrimos para novas amizades e amores. A graça desta vida é conhecer o mais diverso tipo de gente. É como Raul diz: “Prefiro ser uma metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo…”.

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

  • Patricia Cunha

    Adorei seu texto Bia! Vou compartilhar =)

  • Fernanda Martinelli

    Raul <3 Muito perfeito <3 Li alguns textos e já me sinto apaixonada por esse blog, é simplesmente lindo.

  • Pingback: A obrigação de ser feliz - Capitolina()

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Que maravilha

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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