23 de julho de 2014 | Ano 1, Edição #4 | Texto: e | Ilustração: Laura Viana
O silêncio e a sirene
Ilustração: Laura Viana.

Muita coisa mudou quando me mudei de Mogi das Cruzes para São Paulo por causa da faculdade. Não venho de um lugar tão pequeno e desconectado do mundo, mas os pouco mais de 400 mil mogianos não são páreo para os 11 milhões da Pauliceia. Algumas coisas pelas quais eu passo valem a pena ser comentadas.

Cultura e dinheiro

Como minha cidade natal fica a só uma hora de carro de São Paulo, desde pequena eu e minha família íamos com frequência para lá. Aprendi a amar o bauru do Ponto Chic, a ter paciência com o trânsito congestionado e com as filas, a segurar meu coração com tantas opções tão diversas de filme no cinema (pausa para crítica: Mogi está, atualmente, sem cinema, pasmem!).

Acho, aliás, que segurar o coração é a chave para se ter sucesso morando na tal da cidade grande. As opções e oportunidades são tantas que é preciso até tomar cuidado pra não se perder por aí (como bem disseram Os Mutantes). É bom lembrar que a gente tem que viver a cidade, sim, claro, com certeza, mas viemos primeiramente para estudar (momento tia chata, desculpa).

Você com certeza ficará mais pobre, não importa quanto você gaste ou quanto dinheiro tenha. Eu não sei de estatística formal nenhuma, mas me parece que, quanto mais dinheiro você tem, mais dinheiro você gasta; e, quanto maior a cidade, mais caras as coisas são. Uma coisa boa é que vira e mexe tem muito programa barato, às vezes de graça! Só que essas coisas raramente são bem divulgadas, então cabe a você ficar de olho. Recomendo seguir nas redes sociais lugares que costumem ter rolês interessantes, tipo o Sesc mais próximo de você.

Saudade vs. fuga dos problemas

Dependendo da sua relação com a família e a cidade natal, tem uma parte bem chata de se morar longe de onde se veio. Pode ser que você sinta saudade da comida caseira, do seu colchão, da mangueira em frente à sua casa, dos seus irmãos fazendo montinho em você.
Mas a história pode ser outra se você vive em pé de guerra com alguém com quem costumava conviver. Aí você pode ficar muito feliz de estar a quilômetros de distância dos seus desafetos. Só tome cuidado para não se isolar de problemas que precisam ser resolvidos. Se ninguém estanca o corte, só sai mais sangue e a cicatrização fica inviável. Palavra de amiga, não faz bem pra gente ficar com pendências por aí. E outra: você vai se sentir ainda mais livre enterrando de vez os presuntos do seu passado.

Mudando a relação com as cidades

A cidade em que morei por toda minha infância e adolescência é silenciosa de madrugada, bem diferente de São Paulo. Quietinha, na hora de dormir, sempre reparo em como está silencioso ou como a sirene da ambulância toca sem parar (moro em frente a um hospital). Eu costumava odiar a vida pacata da semi-roça, mas tudo tem seu lado bom. Nada como fugir da barulheira e da montoeira de gente num almoço de domingo com os familiares – e depois passar na sorveteria caseira e barata (e que não é gourmet) e voltar para casa em menos de cinco minutos. Só que se isso se alonga demais, em vez de relaxada fico ansiando por pessoas, por coisas, por hipérboles. Aí eu entro em parafuso e amo o caos ainda mais. E o ciclo se repete…

Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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