7 de novembro de 2015 | Edição #20 | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
O Silêncio que mata

AVISO DE DISPARADOR: O texto a seguir contém forte relato de violência doméstica. Se você preferir pulá-lo, clique aqui.

“Quando tinha 18 anos, meu pai saiu de casa e me disse: você não precisa mais de mim. Com isso, fui trabalhar, sustentar minha casa, pois minha mãe sempre se dedicou à família e quando ele a abandonou, ela não tinha como sobreviver. Quando fiz 24 anos, estava no primeiro ano da faculdade e resolvi me casar com uma pessoa que eu considerava meu melhor amigo, engravidei e fui cuidar da casa. Os primeiros indícios de violência: eu não podia pintar minhas unhas nem os cabelos, pois, como ele dizia, ninguém iria reparar em mim mesmo! Saí do meu emprego e tranquei a faculdade, pra quê trabalhar e estudar se eu estava bem casada, não é mesmo? Era nisso que ele me fazia acreditar. Depois que meu filho nasceu começaram as agressões físicas, pois ele não admitia uma mulher ter opinião própria e emití-las, ele era o homem da casa! A primeira agressão foi uma sapatada, depois uma chinelada e então começaram os tabefes, na frente do meu filho e a ameaça de bater em minha mãe se ela falasse algo. Isso fez com que eu me retraísse e não imaginasse minha vida sem ele. Ele foi transferido e eu, como uma boa esposa e mãe de família, iria acompanhá-lo. Eu estava no último ano da faculdade (pois voltei a estudar) e iria mudar toda a minha vida por ele, pela família que somente eu achava que existia. Na nossa última semana na cidade ele bebeu muito, começou a me desmoralizar na frente da própria família e na volta pra casa me bateu, bateu muito, tentou me atirar fora do carro, ameaçou bater o carro numa árvore, mas refletiu: “não vale a pena estragar meu carro e manchá-lo com seu sangue”, tentou me asfixiar e quando eu estava desmaiando ele abriu o vidro e disse: “respira um arzinho, vai!”, então entrou na garagem de minha casa e não me lembro de mais nada. Depois disso minha mãe conta que me carregou para uma ducha gelada, para me acordar, e que ele ficou fumando e dizendo que eu fingia. Minha mãe não ligou pra polícia, não ligou pra ninguém, teve medo de ele fazer algo, talvez não contra ela, mas ela sabia o que ele seria capaz de fazer contra mim! Durante a semana uma amiga me convenceu a denunciá-lo, no entanto, não tive coragem de fazer o corpo de delito, nunca me imaginei entrando em uma delegacia, nunca me imaginei sendo tão humilhada.
O que me levou a não seguir adiante foi o medo, na época eu estava desempregada, com filho pequeno e sofria com as ameaças dele de retirar a criança de mim. Fazia tortura psicológica por telefone, até que resolvi procurar terapia e por orientação mudei meu número. Fui me libertando aos poucos, a única procura que fiz depois do fim do relacionamento foi por mim mesma, pois ele fez com que eu perdesse até mesmo a minha identidade, eu precisava saber quem foi e quem estava sendo naquele momento, a Regiane, aquela garota que achava que era muito forte quando foi abandonada pelo pai, descobriu sua fortaleza após todos os tipos de agressões imagináveis durante um longo tempo. Aquele amigo que conhecia minhas fraquezas as utilizou contra mim.
Se você está enfrentando um tipo de situação parecida, te digo, tente perceber os indícios, os comportamentos. As mínimas atitudes são capazes de revelar o tipo de caráter dos agressores. Hoje posso afirmar com toda a convicção: eu sei o tipo de pessoa que não quero na minha vida!’’

Esse é o relato de Regiane Maria, de 30 anos, professora moradora da região de Ponta Grossa – PR, que, assim como milhares de jovens e mulheres foi vítima de violência de gênero. Infelizmente, os dados ainda são alarmantes, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Avon em parceria com o Data Popular em 2014 (confira na íntegra aqui) 3 em cada 5 jovens confessaram ter sofrido violência em algum de seus relacionamentos. Muitas delas ainda veem nos relacionamentos em geral a esperança e expectativa de alcançar aquele ideal (irreal e injusto) de amor romântico e de realizar-se a partir da união com o outro. Mas às vezes, esse sonho torna-se um pesadelo e começa uma luta por sua sobrevivência psicológica e física.
Muitas jovens também acabam vivenciando desde cedo a violência porque, infelizmente, veem essa dinâmica destruidora entre seus pais. É o caso de Maria, nome fictício que darei para uma jovem que me contou um pouco de sua experiência durante sua infância, onde presenciava constantemente o pai ser violento com a mãe. O conselho que ela dá é o de que, caso você tenha alguma possibilidade, tente intervir. Que tente com calma e paciência conversar com sua mãe, a encoraje. Muitas vezes ela continua naquela situação por medo de desestabilizar mais ainda as estruturas dos filhos. Às vezes ela está passando por isso com medo também de que o pior aconteça a você. Era o que acontecia na família de Maria. Nas vezes em que ocorria a denúncia, sua mãe a retirava e dizia a seus filhos que estava fazendo aquilo por eles, porque aquele homem também era pai. Se coloque ao lado dela de forma que ela perceba que vocês a querem bem, que sabem que ela merece muito mais que aquilo. Que estarão com ela em qualquer situação, mas que esse ambiente tóxico não pode continuar se sustentando.
Qualquer que seja sua inserção nesse ciclo, caso seja você a vítima direta ou não, saiba que NÃO está sozinha e que a culpa NÃO é sua. Apesar do que o seu parceiro pode estar te dizendo, você não é fraca e não merece estar passando por isso, sua mãe não merece estar passando por isso. Ah, e lembre-se de que violência não é só praticada na forma de agressões físicas. Violências simbólicas e psicológicas também machucam. Se o outro monitora, impede de sair sem a presença dele, faz chantagens, promete que nunca mais fará isso, humilha. Amiga, ele está sendo abusivo e violento.
Infelizmente os espaços públicos não estão totalmente preparados para te atender, mas eles são sim um direito seu. Apesar das enormes falhas e faltas (como o fato de só abrir em dias de semana, em horário comercial), a delegacia da mulher é um local para denúncias. Imagino que a essa altura você já deva estar cansada, mas, caso consiga ir até esse espaço e não consiga um atendimento empático e humanizado, procure o Ministério Público e denuncie. Outra coisa que costumo perceber pelo relato de outras mulheres que já procuraram ajuda é que elas te aconselham a não ir sozinha. Vá com alguém em quem você confie. Muitas ONG’S e coletivos feministas também costumam disponibilizar advogadas para acompanharem a denúncia e a não permitirem que você sofra mais um abuso ao pedir socorro.
Em relação às mulheres trans e travestis, a luta é ainda mais complicada, porque, além da transfobia com que elas têm que lidar todos os dias, lhes é negado o direito de usufruir da Lei Maria da Penha. Recentemente, entretanto, presenciamos um caso raro, onde a identidade de gênero foi respeitada e, apesar de ter sido negado em primeiro grau, uma mulher trans conseguiu com que a Lei fosse aplicada a seu favor e teve acesso às medidas protetivas. Link para a notícia aqui.

Para falar um pouco mais a respeito disso, fiz alguns questionamentos a Dayse Mara. Dayse é feminista, psicóloga e trabalha no CRAM (Centro de Referência de Atendimento à Mulher).

Amanda: Enquanto mulher, psicóloga e técnica do CRAM, o que você falaria para jovens e mulheres que estão em situação de violência? Onde procurar ajuda?

Dayse: A violência contra a mulher tem várias facetas, inicia com falácias e relação de duplo vínculo, na qual a jovem acredita que as manifestações de violência, não são violências, mas, sim, demonstrações de amor em demasia. O duplo vínculo são palavras que na prática não se realizam, ou se realizam na contramão da palavra ou promessa. A atitude é de controle e sedução, com imposição da vontade dele, não levando em conta as vontades, ideias e desejos da companheira. Também se dá o afastamento da mulher de amigos e familiares gradativamente. A violência aumenta na medida de seus episódios, e pode levar a morte da mulher pelo homem, o que é corriqueiro no Brasil. Fique atenta aos sinais dessa violência que se inicia sutilmente. O controle de suas saídas sem a companhia dele, as roupas, batons e esmaltes que você usa e também o controle de amigos que você pode ou não sair junto, controle de conversas, whatsapp, redes sociais etc. Fique muito atenta mesmo. Ele deixa você falar em reuniões sociais? Expressar suas ideias? Demonstra ciúmes infundados? Isso é motivo para que você fique atenta e reflita sobre a relação. Muitas vezes a relação de amor não te faz bem. Se você se sente desconfortável com atitudes do parceiro, procure o CRAM (Centro de Referência de Atendimento a Mulher em situação de Violência), vamos juntas avaliar a situação, ajudar você a perceber que seu amor por você mesmo é o que conta. O empoderamento significa que a sua POTÊNCIA está fluindo, ou seja, seu amor, seu poder e sua sabedoria. Você merece estar com alguém que te respeite e se respeite também, porque um homem violento não tem amor próprio e para sobreviver subjuga e violenta a mulher que julga amar.

Para saber onde pedir ajuda, você pode ver os meios a seguir:
Telefones importantes:
Central de Atendimento à Mulher – 180: Esse é um disque-denúncia que funciona 24 horas por dia. Você pode fazer denúncias (mesmo que não seja você a vítima) e pode obter orientações sobre como agir.
Polícia Militar – 190
Samu – 192

Nesse link, você tem acesso às redes de atendimento em todo o Brasil. São organizações governamentais, ONG’S, coletivos, movimentos de mulheres, Conselhos e Núcleos que podem te auxiliar.
Se você que está lendo está presenciando algum tipo de violência de gênero, por favor, não se omita. Por favor, não silencie e não duvide da vontade de uma mulher de sair desse ciclo. Se você não passou por isso, jamais poderá imaginar quão doloroso é. Apoie, dê forças. Seja alguém que pode ouvi-la e auxiliá-la na busca por socorro.

Amanda Lima
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Se Liga

Amanda, 22 anos, mas com carinha de 15. Ama o significado de seu nome, mas prefere que a chamem de Nina. Psicóloga e militante feminista, sabe que conhece ainda tão pouco e por isso tem uma sede muito grande em conhecer mais. Mais da vida, mais do mundo, mais de tudo. Nutre um amor incondicional por Beyoncé e, nas horas vagas, sonha em poder mudar o mundo.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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