25 de novembro de 2015 | Ano 2, Edição #20 | Texto: | Ilustração: Marina Sader
O som da música

Eu não gosto de musicais. Acho sem sentido as cantorias, não gosto da vibe. Mas gosto muito de A Noviça rebelde (The Sound of Music, 1965). Já falei até dele aqui na revista. Acho que faz sentido como musical, afinal, o nome dele, numa tradução livre é “O som da música”.

Vamos ver sobre o que é?
Antes de Maria virar um meme na internet, ela era uma noviça que dava um certo trabalho pras freiras. Não sabia muito o que queria da vida. Logo no começo do filme, ela leva um esporro da freira e é mandada para tomar conta das sete crianças Von Trapp. Com idades variando em 16 e 5 anos, as crianças tinham um histórico de expulsar babás pelo mau comportamento. Faziam travessuras como colocar tachinhas nas cadeiras onde iam sentar e receberam a Maria com um sapo dentro de seu casaco, logo de cara. Mas Maria não ia desistir fácil daquelas crianças, principalmente quando ela viu como eram tratadas pelo pai, o capitão Von Trapp. Ele chamava as crianças por um apito, como se fossem cachorros.

A frieza e a distância do pai com os filhos assustou Maria.

Onde se encaixa a música nisso tudo?
Bem, a primeira aproximação que a noviça teve com as crianças foi quando, durante uma tempestade com trovoadas e relâmpagos, faltou luz, fazendo com que as crianças ficassem com medo de dormir sozinhas, indo procurá-la em seu quarto.
O que ela faz para acalmá-los? Ela canta para eles. Enumera as coisas favoritas dela e usa essa lista pra transformar isso em música (a Phoebe canta essa música pra Rachel no primeiro episódio de Friends), depois as próprias crianças falam das coisas favoritas delas para completar a música. Com essa simples música, ela acaba conquistando as crianças e elas começam a confiar na noviça.
O que descobrimos, aos poucos, sobre o capitão Von Trapp é que ele é viúvo e está prestes a se casar com a baronesa. Desde que ele ficou viúvo, as crianças não escutam música. Ele é bem recluso e fechadão. Só que Maria aconteceu na vida dele e trouxe música pra casa, costurou roupas pras crianças, levou elas pra brincar, mesmo depois da hora de brincadeiras. Desde que a noviça começou a trabalhar para a família, ela deixou a música entrar de novo na mansão Von Trapp e isso mudou o comportamento das crianças e do próprio pai.
Quando Maria introduz música de volta à casa Von Trapp, isso abre não só o coração das crianças, como o coração do capitão também. Ele começa a agir diferente com os filhos, para de tratá-los como animais, cheios de ordem e interagem e criam vínculos, tudo através da música. Eles organizam festas na mansão e podemos dizer que voltam à vida. É como se todos tivessem virado zumbis por um período. Ele passa a ver a vida com outros olhos e começa a questionar suas escolhas — no caso, a mulher com quem está prestes a casar. É um clichêzão de filmes que a gente já tá besta de saber, mas ainda assim é uma bela maneira de ver que a presença da noviça e sua cantoria muda toda a rotina de uma casa.
A música tem um papel importantíssimo no filme: ajuda a disciplinar as crianças, as ensina a lidar com o medo, amolece o coração de gelo do capitão, faz com que ele se apaixone e até os ajuda a fugir dos nazistas. As músicas não parecem fora de lugar neste filme — meu maior problema com musicais —, elas têm um propósito. E a história dos personagens vivendo o conturbado período da época, ainda mais na Áustria, dá um pano de fundo contrastante com os dias vividos com a noviça. Um filme que fez cinquenta anos, recentemente e ainda emociona plateias de todas as idades e gostos. Ou você não se emocionou com a Lady Gaga cantando as músicas do filme no último Oscar?

Georgia Santana
  • Coordenadora de Revisão
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Esportes

25 anos, do Rio de Janeiro, mas passou a primeira infância em Natal - RN. Estuda Biblioteconomia na UFRJ. Assiste a qualquer tipo de competição esportiva e lê muitas biografias / autobiografias e já chorou de emoção ao comer caldinho de sururu. Odeia barulhos, luz artificial e frio. 90% lufa-lufa, 10% sonserina.

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