18 de novembro de 2015 | Ano 2, Edição #20 | Texto: | Ilustração: Beatriz H. M. Leite
O som do kpeta: o intervalo musical proibidão pela Igreja Católica

A Igreja Católica foi a instituição mais influente da Europa medieval. Além de acumular terras, os mosteiros eram praticamente os únicos centros de educação durante a Idade das Trevas. Por causa disso, grande parte dos livros da época foi escrita por monges.

Além de conduzir a vida espiritual dos europeus, a Igreja também era politicamente poderosa naqueles tempos em que não havia governo centralizado. Seus dogmas eram a lei e ela própria era o juiz, e o cumprimento da vontade de Deus serviu como pretexto para movimentos de conquista territorial, como as Cruzadas, e de perseguição religiosa, como a Inquisição. Algumas decisões tomadas pelos religiosos da época permanecem vigentes até hoje, como é o caso do nosso calendário ocidental, que foi promulgado pelo Papa Gregório XIII em 1582.

Portanto, não é de se admirar que a influência da Igreja tenha moldado também a arte produzida durante o período! Os motivos retratados nas artes plásticas eram sempre religiosos e a arquitetura era marcada pelo estilo gótico. E não foi diferente na música.

Essa pintura, na verdade, é do século XIX, mas não tem como falar de arte religiosa sem lembrar dela, né!

Essa pintura, na verdade, é do século XIX, mas não tem como falar de arte religiosa sem lembrar dela, né!

Agora, vamos falar de som. O som é uma vibração que se propaga no ar através de ondas, que são captadas pelo nosso sistema auditivo. Ele é, então, transformado em impulsos elétricos e é transmitido pelos neurônios até o cérebro, onde chega primeiro na região responsável pelo processamento das emoções e dos sentimentos. É por isso que o som tem o poder de provocar sensações nas pessoas.

Assim como existem sons capazes de provocar enlevo, existem aqueles que provocam reações negativas, como a tensão e a angústia. O acorde musical que gera esse tipo de som é conhecido como trítono.

O trítono acontece quando um intervalo entre alturas de duas notas musicais possui exatamente três tons inteiros. É uma combinação de notas (como, por exemplo, e si) que, quando tocadas simultaneamente, resultam em um som dissonante, ou seja, desarmônico, desagradável aos ouvidos. Ele causa a sensação de movimento e, quando não é seguido de um acorde de repouso, deixa o ouvinte aflito.

Muitas trilhas sonoras de filmes de suspense são compostas por trítonos, assim como parte do Primeiro Movimento da Quinta Sinfonia de Beethoven, que é carregado de tensão:

E é justamente essa sensação de tensão e instabilidade que levou a Igreja Católica medieval a considerar o trítono uma obra do demo – afinal, as coisas de Deus são harmônicas e aprazíveis, certo? – e bani-lo da música!

O monge italiano Guido D’Arezzo, que criou a notação musical moderna (ou seja, organizou e nomeou as notas musicais que conhecemos e usamos hoje em dia), proibia expressamente a utilização do trítono. Eventualmente, ele (o trítono, não o monge) veio a ser chamado de diabolus in musica, que significa “som do diabo” em latim.

Por causa disso, o trítono só veio a aparecer na música bem depois do final da Idade Média, com o advento do estilo barroco, nos últimos anos do século XVI. Hoje, ele é usado sem neuras por músicos dos mais variados estilos. Mas o diabolus in musica é característico de um estilo em particular…

O heavy metal!

É isso mesmo: a sonoridade desse gênero musical, que é marcado por temas pesados, cores escuras e pela fama de satânico, tem como seu elemento fundamental o frequente uso do trítono.

O Tony Iommi, guitarrista do Black Sabbath e um dos responsáveis pelo nascimento do estilo, explicou no documentário Metal: uma jornada pelo mundo do heavy metal (2005) que não tinha a intenção de criar nada demoníaco; as influências da banda variam do jazz e do blues à música clássica, e a única preocupação dele foi criar algo que soasse bem.

Intencional ou não, a associação do diabolus in musica com o heavy metal criou a atmosfera musical peculiar ao gênero. Um dos melhores exemplos disso pode ser conferido na música “Black Sabbath” (que, não por acaso, é do Black Sabbath):

E, intencional ou não, pode ficar tranquilo, Tony Iommi: soa muito bem.

Laura Athayde
  • Ilustradora
  • Quadrinista

Laura Athayde é advogada por profissão e desenhista por teimosia. Após terminar a pós graduação em Direito Tributário, em 2014, passou a dedicar-se à ilustração e ao quadrinhos. Participou de diversas publicações coletivas como o Zine XXX, Zine MÊS (outubro/14), o livro Desnamorados, Zine Amendoim e Acerca Zine, dentre outros. Lançou também dois zines individuais, Delirium e O Mundo é Um Jogo e Eu Só Tenho Mais Uma Vida, que podem ser lidos online em http://issuu.com/lauraathayde. Atualmente, desenvolve uma HQ longa de sua própria autoria em parceria com a Editora Tribo.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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