22 de abril de 2015 | Ano 2, Edição #13 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
O tempo através dos tempos

O tempo é uma grandeza que sempre foi alvo de fascinação justamente por sua natureza aparentemente incontrolável. Ao longo dos séculos, diferentes civilizações tentaram desenvolver métodos de organizar e padronizar as horas de luz, as estações e todos os outros fenômenos naturais.

Os dois principais formatos de medir o tempo – o relógio e o calendário – foram um resultado direto do conhecimento astronômico de civilizações como os sumérios, maias, egípcios, babilônios e árabes. Por mais distantes cultural e geograficamente que esses povos estivessem, é interessante observar que a quantificação do tempo esteve sempre fortemente ligada à religião e a aspectos conectados à sobrevivência, como a produção agrícola. Os calendários eram usados tanto para dividir estações – algo crucial para a agricultura – como para determinar datas de comemorações religiosas e rituais, algo de igual importância em civilizações cujo poder centralizado tinha como validação o direito divino.

O calendário mais antigo já encontrado – apenas em 2013! – por arqueólogos, em Aberdeenshire, na Escócia, data de dez mil anos atrás. Ele é composto por doze buracos que acompanham a posição da lua no céu. Vince Gaffney, professor de arqueologia da Universidade de Birmingham e chefe da equipe de análise da descoberta, alega que a evidência sugere que as sociedades caçadoras-coletoras escocesas tinham tanto a necessidade quanto a sofisticação necessária para marcar o tempo. Vale lembrar que as Ilhas Britânicas também são o lar de mais de 1.300 círculos de pedra – tal como o Stonehenge – que costumam ser dispostos nos locais do nascer e pôr do sol, além de frequentemente marcarem solstícios e equinócios.

O mais incrível é que, antes dessa descoberta, acreditava-se que a civilização mais antiga que havia tentado desenvolver um calendário fosse a suméria (localizada na região sul da Mesopotâmia, área ocupada atualmente pelo Iraque), que o faria cinco mil anos depois dos caçadores-coletores escoceses. No entanto, os sumérios – junto com os egípcios e maias (dois outros povos que também se baseavam na agricultura), principalmente – continuam sendo uma das primeiras civilizações a desenvolver um conhecimento astronômico sofisticado e os primeiros a criar um calendário formal – algo que foi, sem dúvidas, auxiliado pelo fato da civilização suméria também ter sido responsável pela criação do primeiro sistema de escrita, o cuneiforme. A Mesopotâmia é considerada o berço da astronomia ocidental, de base matemática e científica.

O calendário sumério já era um tanto parecido com aquele que utilizamos hoje. Ele era lunissolar, ou seja, divido tanto de acordo com as fases da lua – cada um dos doze meses, de 29 ou trinta dias, iniciando em uma lua crescente – como com os anos solares. Cada dia era dividido em doze partes – seis delas com sol, seis delas com noite. Uma hora era considerada 1/6 de cada dia ou noite – ou seja, a duração das horas era variável durante o ano, dependendo da posição da Terra em relação ao sol.

Durante o solstício de verão, por exemplo, as horas do dia duravam mais do que as da noite. Os sumérios já organizavam até aquelas horas que “sobram” a cada ano em um dia extra – ou seja, eles já tinham anos bissextos. Eles também são responsáveis pelo sistema sexagesimal da medida de tempo – a divisão de uma hora em sessenta minutos, de um minuto em sessenta segundos… – que nós usamos até hoje, e cujo principal atrativo é a possibilidade de registrar tanto números muito grandes como muito pequenos.

Os egípcios, por sua vez, são considerados pioneiros na marcação do tempo por meio de horas. Foi ali que surgiram os primeiros obeliscos e relógios de sombra, que também indicavam se era manhã ou tarde, além de marcar os solstícios. Devido às limitações naturais de relógios dependentes do sol, os egípcios também desenvolveram outras formas de marcar o tempo, como relógios de água e dispositivos para acompanhar o movimento das estrelas. Estes que, de quebra, também eram usados para prever as enchentes do rio Nilo, centro de toda a economia do Egito e responsável pela maior parte da prosperidade da região.

Ao traçarmos uma breve linha do tempo da padronização do tempo (ha!) percebemos que seu progresso – que coincide de muitas formas com o progresso científico – sempre foi motivado pelo interesse de controlar tanto a natureza como povos. Pegando um exemplo recente, assim como grande parte das invenções científicas do século XX, os relógios também foram modernizados tendo como base tecnologias desenvolvidas durante a guerra. Lembra quando o seu professor de física falou sobre a conexão entre espaço e tempo e você achou que era uma ideia um pouco abstrata? O desenvolvimento de tecnologias de medida do tempo é uma das melhores provas de que a conexão entre esses dois conceitos – mesmo fora da física – é crucial.

Bárbara Reis
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos