23 de abril de 2015 | Ano 2, Edição #13 | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
O tempo da natureza

Acordar cedo, passar muito mais tempo do que gostaria no transporte público, trabalhar ou estudar em um lugar fechado, se alimentar rápido, passar mais tempo no transporte público e, ao chegar em casa, geralmente ter mais um monte de coisa para fazer, seja no trabalho doméstico, seja com o trabalho que levou para casa, seja com o 2º trabalho, que é indispensável para conseguir ter dinheiro o suficiente.

Quem mora na cidade conhece muito bem esse roteiro. Ele é a rotina da grande maioria das pessoas e por vezes parece ser o único modo de vida que existe no mundo. Mas ainda tem muita gente que vive seguindo outro ritmo: o ritmo da natureza.

“Mas então as pessoas que moram na cidade não seguem o ritmo da natureza?”

Seguem, sim! Primeiro porque, na minha visão, o ser humano pertence à natureza, portanto nem seria possível sair do ritmo da natureza, uma vez que tudo o que criamos é natureza. Segundo, porque quem vive na cidade também é regido pelos fenômenos naturais: nosso dia muda conforme amanhece e anoitece, mudamos nossos planos quando está chovendo, temos vontade de fazer coisas diferentes conforme a temperatura. Entretanto, os moradores dos centros urbanos estão cada vez mais longe da natureza planta-terra e mais perto da natureza plástico-concreto, e isso muda totalmente a relação que elas têm com o tempo.

Antigamente, bem antes de existir a máquina a vapor e esse tal de capitalismo, as atividades humanas eram totalmente regidas por essa natureza que existe independente da nossa vontade. A noção de tempo era guiada pelo amanhecer e pelo entardecer, o trabalho era determinado pela necessidade das plantações, para as pessoas que trabalhavam com a agricultura – épocas de colheita e de plantio exigem trabalho mais intenso, enquanto as outras épocas do crescimento das plantas, onde elas só necessitam de manejo, são de trabalho mais ameno – as fases da lua e as constelações serviam como guia.

Portanto, viver todos os dias trabalhando oito horas em um lugar fechado nem sempre foi a coisa mais comum do mundo. Acontece que, apesar de muitos não perceberem, esse ainda não é o modo de vida de muita gente do mundo contemporâneo. As pessoas que acordam com os galos, vão tirar leite da vaca, colher os ovos das galinhas e cuidar da roça ainda existem, e não são poucas, apesar de já terem sido muitas mais.

A questão é que muita gente da cidade se sente a última bolacha do pacote por viver no esquema busão-escritório-shopping e acha que o esquema cavalo-roça-festa da comunidade é uma coisa suuuuuuper atrasada. E eu nem tô querendo dizer que elas não têm motivos para gostar da cidade, mas que: em primeiro lugar, é um preconceito enorme achar que o campo é um lugar sem cultura, sem nada pra fazer e sem gente interessante e, em segundo lugar, a população camponesa, e ainda mais a população camponesa brasileira, tem um histórico de luta enorme e criou um patrimônio cultural rico e extenso – e se essa cultura não chega na gente, isso é outra história –, portanto é no mínimo desrespeito jogar todo esse universo no lixo e continuar vivendo como se ele não existisse.

Então as pessoas que não vivem na cidade ainda existem, e o trabalho delas inclusive é produzir quase tudo o que comemos aqui na cidade. Para essas pessoas, nada mais normal do que esperar cinco meses para um milho crescer, ou anos e anos para uma árvore atingir seu tamanho máximo. Não vou nem falar das pessoas que moram nas florestas, porque estas estão acostumadas a lidar com espécies vegetais centenárias! Ao mesmo tempo que estas pessoas acham normal que as plantas levem este período de tempo para se consolidar, nós na cidade não temos paciência nem para acompanhar um feijãozinho brotar do algodão. O engraçado é que, ao mesmo tempo que é normal para alguém que mora em um grande centro urbano ficar mais de uma hora no trânsito, a mesma situação é inconcebível para alguém que está acostumado a andar só dentro de sua cidade pequenininha, que nunca chega a acumular mais de 2 Km de trânsito.

Percebe que as relações que temos com o tempo são MUITO diferentes? E que isso acontece entre pessoas que, algumas vezes, não moram a mais de 100 km de distância?

O mais legal disso tudo é perceber que as noções de rápido e de devagar são totalmente construídas socialmente, não são instrínsecas a nós. Ninguem fala “quinze dias é muito tempo!”, mas todo mundo fala “quinze dias é muito tempo para viajar daqui para a Europa!”. No século XIX, se levava muito mais do que quinze dias para ir do Brasil para a Europa. Vê que rápido e devagar são totalmente relativos?

E tem mais! um camponês, por exemplo, trabalha m u i t o nas épocas de plantio e colheita das plantas, mas quando não se está em nenhuma dessas duas fases, o trabalho tende a ser relativamente tranquilo. Para as pessoas da cidade, que trabalham mais ou menos o mesmo tanto todos os dias, o camponês é um vagabundo que não trabalha “de verdade”. Novamente, essa ideia é fruto de uma ideia preconceituosa da gente do campo, além de deixar subentendido que só tem valor quem trabalha oito horas por dia/cinco dias por semana, não importa o que nem por que nem como se faz, afinal “tempo é dinheiro”.

Acho que tudo que eu queria que se entendesse é: viver todos os dias de forma acelerada não tem nada de errado se funciona para você. Mas essa não é a forma de vida de toda a população mundial, nunca foi e nem deve ser – nada que é homogêneo costuma dar certo. Algumas tradições e costumes, como viver na floresta, são importantes para a vida de t-o-d-o mundo do planeta terra – porque não é porque você passa oito horas por dia no escritório que não precisa do oxigênio que as plantas produzem – e dependem totalmente da forma com que as pessoas que fazem essa atividades lidam com o tempo.

“O capitalismo é o senhor do tempo. Mas tempo não é dinheiro. Isso é uma brutalidade.
O tempo é o tecido de nossas vidas”.
– Antônio Candido

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos