23 de novembro de 2014 | Ano 1, Edição #8 | Texto: | Ilustração:
O transfeminismo me empoderou
Ilustração: Clara Rende

Ilustração: Clara Rende

Certa vez escutando os álbuns da Janet Jackson, me deparei com uma música que dizia que todos nós temos a necessidade de sentir que pertencemos a algo. Que fazemos parte daquela construção. Por muito tempo procurei isso. Procurei um lugar seguro onde eu pudesse achar conforto, proteção e uma palavra de encorajamento. Eu, até aquele momento, tinha lidado com tudo sozinha. Talvez por isso, a bagagem fosse maior do que eu pudesse aguentar. Muitas vezes cedi, abaixei a cabeça, me dei por vencida e me sujeitei ao que queriam. Minhas inseguranças me consumiam, falavam e agiam por mim. Minhas decisões não eram minhas. Eram delas. Entretanto, chegou o momento de paz. Chegou o momento em que finalmente me vi sendo reconhecida. Sendo vista. Ah, como eu sonhei com isso! E foi aqui, dentro do transfeminismo, que finalmente tive voz para falar e encontrei ouvidos que pudessem me ouvir.

Durante muito tempo cravei batalhas dentro de mim por conta da minha identidade. No meu primeiro ano enquanto mulher transgênera assumida, me vi em busca de padrões que socialmente me foram ditos que construía o que era ser uma mulher. O cabelo sempre estava alisado, o rosto bem maquiado, as roupas o máximo de femininas possíveis – aliás, quem dita isso?. Em nenhum momento, tudo isso me preencheu. Em nenhum momento, tudo isso me deu o que supostamente deveria: segurança. Pelo contrário, olhando para dentro de mim, me percebia vazia. Tentei preencher uma lacuna e não seriam essas coisas que viriam a me dar o que eu precisava. E isso me frustrou. Me frustrou porque durante 16 anos eu ouvi que era aquilo que fazia uma mulher ser mulher, mas não. Ia muito além. Descobri que o que me fazia ser mulher eram minhas peculiaridades, meu jeito singular, minha individualidade. Eu.

Tive que perceber a clareza dentro de Maria Clara. Tive que reconhecer seus medos, seus demônios internos, suas inseguranças e, com a ajuda do transfeminismo, ser suficientemente forte para construir uma segurança para ela mesma. E hoje, quando de frente àquela menina, ver uma outra pessoa.  Ver uma outra mulher. Ver uma mulher empoderada, a qual tem finalmente consciência que não deve se sujeitar a padrões e normas. Ver nela, uma mulher que precisa respeitar sua essência e viver dessa forma. Saber lidar com obstáculos da vida e tentar tirar as devidas lições de cada fraquejo que fosse dado quando de frente a eles.

Contudo, uma insegurança persistia: a com meu corpo. Infelizmente, a maioria das pessoas trans tendem a levar suas frustrações como o que as legitimam serem trans. Eu precisava ir contra isso. Eu precisava quebrar essas correntes e ter a devida noção que aquele era meu corpo. Um corpo que ia além do entendimento usual e cissexista, um corpo que era meu. E, sim, eu era uma mulher com um pênis. Entretanto, não era uma mulher que possuía um órgão masculino. Aqui, em meu corpo, não há nada que seja masculino. Tudo nele é feminino e seria dessa forma que o veria dali em diante. Assim, eu pude me olhar no espelho e não me sentir mal. Assim, eu pude ir deixando que as cordas da opressão que eu, enquanto mulher transgênera sofria, não iria me fazer mais mal.

Dessa forma, eu pude olhar para trás e ver todos os ganhos que o transfeminismo, enquanto game changer na minha vida, me deu. Eu pude vê-la ganhando a devida cor; meus olhos, o devido brilho; e meu rosto, um sorriso, que até aquele momento, eu nunca tinha vivenciado. A forma com que hoje eu lido com preconceitos, estereótipos, inseguranças e qualquer coisa que antes pudesse me machucar, é diferente. Hoje eu tenho algo que por muito tempo procurei e não achei: a paz comigo mesma. E foi por conta desse movimento, um movimento que me entende enquanto mulher transgênera, que tenho orgulho de levantar minha identidade como mérito meu.

O transfeminismo me empoderou!

Maria Clara Araújo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Futura pedagoga e feminista que transversaliza as questões de gênero e raça. Meu nome se tornou uma alusão à minha transparência em relação aos meus sentimentos. Pisciana, sinto como se eu fosse um mar misterioso e difícil de se velejar.

  • feborrges

    Maria Clara,um nome tão simples e lindo para uma mulher tão forte. Parabéns

  • Brenda Lima

    Que bacana, Maria Clara! Achei fascinante a sua história! Mulher forte, guerreira, que luta por ser quem é e pela liberdade de ser o que é!
    Fantástico!
    Fico muito feliz de ser da mesma cidade que você!

  • Péricles Delmondes

    Eu tenho aprendido bastante com vc, Maria Clara <3

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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