26 de novembro de 2015 | Ano 2, Edição #20 | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
O universo e os seus sons

Imagina um lugar silencioso, mas não silencioso que nem a sua casa de madrugada, quando você consegue ouvir a água passando na tubulação, os carros passando na rua ou o barulho do elevador subindo e descendo o prédio. Imagina que você não ouvisse nem isso. Um lugar total e completamente silencioso. Será que existe, no Universo, um lugar em que a gente não houve nenhum som? Parece meio difícil de imaginar, né?

Esse lugar existe sim. E é o próprio Universo. E com “Universo” eu quero dizer o espaço sideral, tudo aquilo que tem entre a Terra, o Sol, a Lua, outros astros, estrelas, etc. E por que não tem nenhum som no Universo? Para entender isso, precisamos primeiro entender por que nós ouvimos um som.

 

            Como ouvimos um som?

O som se propaga como uma onda, uma perturbação. Mas o som é um tipo de onda (onda mecânica) que precisa se propagar através da matéria, porque a propagação do som se dá quando as partículas da matéria vibram e colidem com outras partículas, fazendo elas vibrarem também. Por exemplo, quando ouvimos alguém bater à porta, o que acontece é que a mão da pessoa faz as partículas da porta vibrarem e, como a porta está em contato com o ar, ela faz as partículas do ar perto dela vibrarem, e essas partículas vão colidindo com partículas depois delas e assim por diante, até que o ar dentro do nosso ouvido vibra, faz nosso tímpano vibrar, o cérebro interpreta esse sinal, e então nós escutamos o som de alguém batendo à porta. É como se as partículas da matéria fossem uma multidão de pessoas, e quando uma pessoa começa a dançar, ela bate nas pessoas ao seu lado e elas também começam a dançar, e isso nos faz ouvir um som.

 

Mas por que não ouvimos no espaço?

Bom, apesar de no espaço sideral termos milhões de planetas, estrelas, asteroides e várias outras coisas que são grandes concentrações de matéria, entre tudo isso, temos um espaço MUITO grande com uma concentração de matéria muito baixa. Para ter uma noção de como tem muito espaço praticamente vazio entre os planetas, existem umas simulações muito legais (que, infelizmente, são em inglês, mas mesmo assim vale a pena dar uma olhada) que mostram qual seria a distância entre a Terra e Marte e as distâncias entre os corpos do sistema solar se tudo tivesse a dimensão de pixels. Elas estão aqui e aqui.

Em todo esse espaço entre os planetas, estrelas, etc., tem pouquíssimas partículas. E a distância entre elas é tão grande que elas praticamente não colidem entre si, e então não tem como o som se propagar. Mesmo se liberássemos gás no espaço e tentássemos falar através dele com outra pessoa, esse gás se espalharia tão rapidamente que isso também não funcionaria.

Ué, mas como assim? E todos aqueles barulhos que têm nos filmes do Star Wars quando as naves explodem? Pois é, isso é pura ficção, pra deixar o filme mais empolgante. Isso também deixa o filme menos correto do ponto de vista da física, mas não é lá um grande problema (afinal, existem tantas coisas erradas do ponto de vista da física em tantos filmes que isso é assunto pra outra hora).

 

Ah, que coisa sem graça…

Calma, pera aí, que a história não acaba por aqui. Bom, o som realmente não se propaga lá fora no Universo. Mas tem uma outra coisa que se propaga: ondas eletromagnéticas, ou seja, luz visível, raio-X, micro-ondas, ondas de rádio… Isso mesmo, ondas de rádio, que nem aquelas que os nossos aparelhos de rádio captam e a partir delas, tocam músicas, notícias, etc. E, com as ondas eletromagnéticas no geral, podemos fazer o que nossos rádios fazem. Podemos pegar essas ondas que são emitidas por estrelas, luas, planetas, e transformá-las em algo que possamos ouvir. Isso, além de muito legal, é bastante útil para os cientistas, que através desses sinais transformados em sons conseguem obter informações sobre o astro somente pelo som. A NASA disponibilizou alguns desses “sons do Universo” gratuitamente.

 

Então, se algum dia você estiver precisando de um lugar silencioso para ler, estudar ou só ficar pensando na vida, lembre-se que a melhor escolha é entrar em um foguete e ficar lá flutuando no meio do espaço (com capacete e traje espacial adequados, claro). Mas não esqueça de deixar seu decodificador de ondas eletromagnéticas em casa.

 

Para “ouvir” mais o Universo:

http://www.scientificamerican.com/video/what-does-the-universe-sound-like-2013-09-13/ (o vídeo é em inglês, mas dá para colocar legenda em português)

https://www.agambiarra.com/nasa-disponibiliza-arquivo-de-sons-do-universo-gratuitamente/

http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2013/09/17/voyager-captura-sons-do-espaco-interestelar-ouca.htm

Mariana Cipolla
  • Colaboradora de Ciência e Tecnomania
  • Revisora

Tem 21 anos, mora em São Paulo capital e adora café (mas sem qualquer infinitésimo de açúcar). Não acredita em signo, não gosta de fazer escolhas, tenta se planejar com antecedência e sonha em um dia conseguir terminar de ler todos os livros que tem. Estuda física, e queria que todas as pessoas pudessem se encantar com as maravilhas dessa ciência tanto quanto ela (queria conseguir ser uma boa divulgadora de ciência e/ou professora pra tornar isso um pouco mais possível). Mas acha que a ciência só vai ser completa quando houver mais mulheres cientistas e quando essas não forem estigmatizadas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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