18 de fevereiro de 2015 | Ano 1, Edição #11 | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
O universo em um círculo lilás
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Cabras não têm muitas ambições
É só olhar na cara delas…

Pobres cabras. Em certo lugar na rede mundial de computadores, algumas dezenas de milhares de pessoas costumavam se reunir em torno dessa cruel afirmação, e por lá intercalavam julgamentos e debates sobre a letargia caprina com alguns joguinhos só para descontrair o ambiente.

Essa poderia ser a definição em poucas palavras da belíssima gíria moderna que é “wtf”, ou do incrível movimento – esse moderno de verdade, historicamente – Dadaísta, mas é apenas um exemplo do funcionamento profundamente peculiar desse conceito tão único que é a Comunidade do Orkut.

Inicialmente pensada como forma de reunir pessoas em torno de uma ideia comum – pessoas que, por exemplo, odeiam acordar cedo ou amam a própria mãe -, a Comunidade do Orkut ganhou dimensões próprias muito mais amplas que as de mero fórum de discussão, tornando-se forma de autodefinição (tinha comunidade sobre isso, claro), mecanismo de materialização de piadas ou simplesmente um enorme bolo de “nada disso faz sentido”.

Naquela primeira grande rede social, as comunidades eram parte de um microcosmos muito próprio, em que milhares de pessoas se reuniam em torno de chamadas que dispensavam qualquer coerência, moderadores e donos eram elevados a celebridades virtuais – B!, C!, Gordo nerd e Konelindo, por exemplo, continuam presentes nas memórias e corações de muita gente por seus antigos e extensos domínios de comunidades engraçadinhas – e onde, acima de tudo, havia um elemento aglutinador intrínseco, que deu origem a incontáveis laços sociais que, em muitos casos, sobreviveram ao processo migratório virtual e à consequente morte de nosso companheiro lilás.

Para entender a internet e até mesmo o espírito do tempo dos meados da primeira década dos anos 2000, as comunidades no Orkut são um dos melhores caminhos, um lugar onde conceitos como trollagem, memeficação e viralização nascem para a web mainstream e se manifestam em sua forma mais clara, e onde toda a organização de rede social como conhecemos começa a tomar forma. Assim, se alguém construiu uma cápsula do tempo nesses últimos anos, seria certamente absurdo não incluir um printscreen de “Anão Vestido de Palhaço Mata 8″.

Então, para matar as saudades de quem viveu esse importante momento internético e ilustrar melhor a coisa toda para quem não viveu, eis aqui abaixo alguns exemplares mais especiais e absurdos e maravilhosos do que podia ser encontrado nas ida terras orkuteiras:

 

AS CLÁSSICAS

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São aquelas que nem são tão interessantes assim – afinal, nada de novo em odiar falsidade, né? –, mas acabaram se tornando a cara da rede social, justamente por reunir muita gente em torno de unanimidades bem óbvias. A grande representante da categoria é, sem dúvida, a icônica “Eu odeio acordar cedo”, que arrebanhou a maior quantidade de membros de toda a rede social com seu Garfield mal-humorado como foto de capa.

Menção honrosa para “Queria sorvete, mas era feijão”, qualquer coisa que envolva amor de pai e mãe, e, claro, “Sua inveja faz minha fama”.

 

AS ENGRAÇADINHAS

Sem elas, o Orkut poderia ter sido jogado no lixo que ninguém ligaria muito. Ok, talvez isso seja cuspir em cima de todos os laços afetivos que surgiram por interesses comuns menos ridículos, mas vocês precisam concordar que o Orkut só é O Orkut graças a esses poços de tosqueira e bobagem que por lá surgiram.

A lista é infinita, então talvez caiba dividi-la em categorias menores:

 

O MELHOR TROCADILHO

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De bons trocadilhos o Orkut tá cheio, mas “Tô fazendo amor com 8 pessoas” é um daqueles que permanecem sendo citados com relativa frequência em nossas vidas, ou seja, ganhou nossos corações feito música do Só Pra Contrariar.

 

A MELHOR BLASFÊMIA

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Quem nunca pensou “credo, vou pro inferno!” depois de alguma piadinha interior envolvendo divindades, não é mesmo? Com a crocantíssima “Fica com Deus”, a culpa por pensar bobagem diminui consideravelmente ao contar com uma rede de apoio de milhares de outras pessoas tão condenadas à danação eterna quanto você.

 

AS MELHORES AUTO-CRÍTICAS

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O Mr. Bean esquivo da “Não sei paquerar” e o Will Smith meio Sérgio Mallandro da “Já fui mais engraçado” são meus animais espirituais no processo de conhecimento e aceitação dos meus próprios defeitos, certamente. É aquele tipo de comunidade que entraria para a lista “frases que dariam boas bios nas redes sociais” e que ajuda a amizade virtual a conhecer melhor o seu íntimo.

 

AS MELHORES PIADAS CONTÍNUAS

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No começo da rede social, alguns indignados com a banalização do termo “eu te amo” se uniram para protestar por meio da popular “TE AMO não é BOM DIA’”. Como a internet não perdoa, surgiu após um tempo a versão que enganou alguns incautos, e fez a alegria de outros, “’Bom dia’ não é ‘eu te amo’”, que conta com uma das melhores descrições de todo o site e arranca risadas até hoje.

Também é brilhante a série que passa por “Sou legal, ñ tô te dando mole”, depois por sua versão mais sincera “Não sou legal, to te dando mole”, e, em seguida, por inúmeras derivações menos apropriadas.

 

AQUELAS QUE NEM SEI PORQUE SÃO TÃO ENGRAÇADAS MAS SÃO

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“Sei imitar o Renato Aragão” (com uma belíssima descrição que era tipo “Ou nem sei, mas sou tão sem graça que dá pra confundir”), “Dando satisfação a desconhecidos” e “Pego ninguém, mas é cada olhada”: três comunidades que me fazem desmanchar de tanto dar risada. Obrigada, internet.

 

AS QUE TE DAVAM UM AR DESCOLADO

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Categoria ampla, começa naquela comunidade de filme cultzinho ou da banda indie que pouca gente conhece – “nossa, ó o cara, ouve essa tal de Sigur Rós e curte Almodóvar, uUuuUUiiiii” – e chega a sua melhor e mais eficiente forma como uma espécie versão intelectualóide da categoria anterior, em que a fonte das piadinhas passa a ser alguma figura ou contexto político-acadêmico. O melhor exemplo desse tipo de Pokémon é provavelmente a ótima “Luta de Classes”, juntamente com “Lênin, de três” – da qual, devo admitir, fiz parte muito tempo sem entender muito bem -, que combinavam muito bem o humor quinta série orkutiano com um toque de pedantismo. Também vale citar as memoráveis “Porque nem sempre” e “O problema em ser irônico”, que reuniam toda uma fauna de alternativos meio-blasé-mas-sem-perde-o-bom-humor.

 

PRÊMIO GENIALIDADE DA WEB

Ok, aqui a coisa fica séria de verdade. Muitos dirão que são apenas mais algumas comunidades engraçadinhas, mas não se deixe enganar: isso é genialidade em sua forma mais pura.

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Em “Carlos, 3 dias morto e nada”, vemos a construção de uma narrativa digna de Monty Python ou Luis Buñuel, que explora o non-sense e o absurdo de forma primorosa. Me rendeu três dias de risadas e me volta à mente todos os anos de copa do mundo.

 

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Já em “Uma rodada de suco pra galera”, o conceito de comunidade é subvertido e transformado em um padrão fixo de pergunta e resposta em que só se cabe “Uma rodada de suco pra galera” e “Aeeeee”, respectivamente. Tá de parabéns.

 

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Por fim, “Anão vestido de palhaço mata 8”, o lugar que deu origem a análises brilhantes da estrutura jornalística brasileira, levando à luz pérolas popularescas como o jornal Meia Hora e fundando as bases de conceitos como Jornalismo Vai Com Deus. Era fonte inesgotável de choque, horror e maravilha em relação à humanidade com suas manchetes completamente absurdas.

 

E O FACEBOOK, FAZ JUS AO LEGADO?

Redes sociais diferentes, dinâmicas diferentes. É impossível fazer justiça total ao que foi o Orkut, com todo o seu senso de comunidade e seu absurdo, mas algumas páginas conseguem manter o espírito surreal de seu antecessor e até mesmo sua capacidade de criar laços baseados única e exclusivamente no gosto pela bizarrice. Seguindo algumas delas, você pode manter uma dose adequada e saudável de falta de noção na sua timeline:

Please come to Brazil
Site dos Menes
A mesma foto do Gilberto Barros chorando todos os dias
AjudaLuciano
Odiei, 5 Estrelas
Página das imagens que giram
Fotos de lideres mundiais descontextualizadas
Bonecas trouxas
Se vocês soubessem o que aconteceu, ficariam enojados
Sasha Frases – O seu bem estar no face
FOTOS De BICHO FELIZ A BEÇA
Capas da Martin Claret
Sadmenes 2001
Grandes manchetes do jornalismo brasileiro

 

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Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

  • Pablo

    ainda na categoria trocadilhos, lembrei de uma preferida da casa:
    http://orkut.google.com/c12833393.html

    ~ sdds orkut ~

  • Heleni Andrade

    Lau, que maravilha em forma de texto (e imagens) hahahahaha

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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