1 de abril de 2017 | Ano 4, Edição #32 | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
Os limites do humor
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Vamos brincar de adivinhação! Pense em uma piada que você conhece. Pode ser a mais simples, mesmo, a primeira que vier em sua mente. Aquela que seus amigos costumam contar em uma roda de conversa, ou aquela que seu tio solta em toda oportunidade que tem. Pensou? Ok. Então agora vamos tentar adivinhar sobre o que ela é. A “graça” dessa piada está no fato de ela ser sobre mulheres… burras? Ah, não? Então é sobre alguém que fala errado, um pobre, um chinês? Se não, aposto que é sobre gays! Acertei?

Na verdade, não é preciso ter uma habilidade sobrenatural para adivinhar em que se baseia a maioria das piadas que contamos. Isso acontece porque elas geralmente recorrem à ridicularização de setores da sociedade que, não por acaso, também são os mais marginalizados. Por exemplo, grande parte das piadas fala sobre como mulheres são burras, como são incapazes de entender uma instrução de embalagem de shampoo, por exemplo. Ou como não conseguem realizar atividades básicas como trocar uma lâmpada, porque mulher é assim mesmo. Ou que são interesseiras, ou fáceis, ou qualquer outra característica que nos coloque para baixo, no mesmo saco. O mesmo acontece com a “graça” que se tira do fato de pessoas falarem errado. O personagem pode ser desde um caipira até um imigrante que não sabe falar o português corretamente. Outra centena de piadas se baseia no quão “engraçada” é a homossexualidade, principalmente se ela for de um homem, que “gosta de peru” ou qualquer frase semelhante. Também são comuns piadas que logo relacionam pessoas negras à criminalidade. Você deve conhecer pelo menos uma dessas, não é?

De maneira geral, as piadas se utilizam de estereótipos para produzir o riso, recorrendo à humilhação de pessoas em nome de uma “brincadeira”. O problema é que esse tipo de brincadeira acaba reforçando preconceitos e contribui para a manutenção dos estereótipos negativos que atingem, não só no campo das palavras, as pessoas menos favorecidas de nossa sociedade. Mulheres “burras”, negros “criminosos”, homossexuais “efeminados”, pobres sem instrução…Todas essas características, por serem naturalizadas, acabam se tornando combustível para mais e mais preconceitos. A verdade é que esses estereótipos podem ser engraçados para quem não vive a exclusão na pele, mas são motivos reais de muito sofrimento para esses grupos.

Nos últimos anos, vimos se intensificar os debates sobre os limites do humor. Até onde ele pode ir com essas piadinhas que agridem outras pessoas? Muitos grupos deram um basta nessas brincadeiras, porque os motivos de nossa dor não podem se tornar temas de piadas para os outros… É por isso que, incomodados com o fato de não poderem mais zoar mulheres, negros, gays, pobres, apenas por serem quem são, os “humoristas de plantão” reclamam do que seria a “ditadura do politicamente correto”, um mundo em que, vejam só, não se pode mais ridicularizar pessoas! Onde já se viu, né? Como agora vamos ser engraçados???

Quem não se lembra de já ter sido ofendida com alguma dessas piadas e ouvir de volta um “mas eu só estava brincando! Você não tem senso de humor, não? O politicamente correto é muito chato…”, como se o humor só pudesse se basear em algo agressivo para outras pessoas.

Na verdade, quem insiste em fazer esse tipo de piada ou em reclamar do “politicamente correto” é que não deve ter senso de humor nem criatividade. Quer dizer, o universo é tão grande que a gente nem sabe o quanto, só no nosso planeta vivem uns 7 bilhões de pessoas e ainda tem gente que não consegue fazer piada sem ridicularizar outras pessoas! Oi??? Assunto é o que não falta, né, mas mesmo assim há quem cisme que não devemos reclamar das “piadas” preconceituosas, e ainda vão dizer que somos chatos por nos sentirmos ofendidos com isso.

O exercício que propomos é que, quando for fazer ou ouvir uma piada, pare antes e pense: “Por que mesmo ela é engraçada?”. Se a resposta for algo semelhante a “Porque ela usa estereótipos ou zomba de grupos marginalizados”, melhor repensar se é com este tipo de humor que queremos colaborar. Para mostrar que o humor não precisa ser também preconceituoso, deixamos aqui algumas sugestões!

Documentário “O Riso dos Outros” (2012) – o filme dirigido por Pedro Arantes discute os limites do humor em entrevistas com diversos comediantes, cartunistas e ativistas que dão seus depoimentos a respeito dos efeitos que uma piada pode causar. Boa dica pra quem quer debater sobre esses conceitos de politicamente correto e incorreto.

Página “Na ponta da língua” – o mote da página da artista Beliza Buzollo é “gostar de mulheres é maravilhoso, mas você precisa ficar esperta”. As tirinhas retratam situações cotidianas (ou não) de mulheres que se relacionam com outras mulheres, de maneira descontraída e bem humorada com um traço lindo e divertido.

Página “Doodle Time in Portuguese” – Sarah’s Scribbles

Vlogger “Tia Má” – a divertidíssima baiana Tia Má posta vídeos simples, curtos e sem edição em seu canal no YouTube. O tema? Absolutamente QUALQUER coisa. Falando desde apropriação cultural a “como lidar quando acaba a manteiga do pote”, Tia Má aborda tudo que é assunto de uma maneira super didática e também muito engraçada. Dá vontade de chamar ela pra dar um rolé e bater papo.

 

 

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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