17 de abril de 2014 | Edição #1 | Texto: | Ilustração: Verônica Vilela
Oblíquas, dissimuladas e livres: um pouco do que somos e por que o somos

“Você já reparou nos olhos dela? São assim, de cigana oblíqua e dissimulada.” (Machado de Assis, em Dom Casmurro)

A enigmática Maria Capitolina, personagem do clássico realista Dom Casmurro, sempre traz à tona aquela polêmica do traiu-ou-não-traiu, ainda que as tentativas de incriminá-la ou defendê-la sejam inúteis e fadadas ao fracasso.

Suas características de mulher forte e independente são sempre trabalhadas como indícios de mau caratismo e dissimulação, já que uma mulher tão dona de si não seria bem vista no século XIX (e no XXI também, por incrível que pareça) e Bento não a consegue possuir por inteiro – uma mulher “normal” teria que estar no lugar de recatada e submissa aos homens.

Tanto julgamento só porque não devia nada a ninguém, pobre Capitu! E tanto não devia que jamais saberemos se a infidelidade era real ou invenção do ciúme doentio de Bento. A irreverência de Capitu é julgada o tempo inteiro por deixar muita dúvida a respeito dela – o que é justamente a essência da personagem. Mas o fato é que ninguém nunca a dera a chance de dizer a verdade.

Maria Capitolina, assim como todas as mulheres, fora injustamente julgada e rotulada ao longo dos séculos. É por isso que emergimos agora, usando seu nome como símbolo de feminilidade e homenagem à merecida audácia que nos torna livres de preconceitos e imposições.

A revista Capitolina surge num contexto em que revistas femininas não condizem com o que nós somos, e sim com o que querem que a gente seja. Nossa personalidade forte abre espaço para todas se identificarem como meninas, mulheres, Capitolinas que não precisam de quem lhes diga o que vestir, que corpo ter ou do que gostar.

E às meninas que quiserem se aproximar um pouco mais da personagem:

  • Livro Dom Casmurro, de Machado de Assis – a leitura fácil permite a identificação da leitora com os personagens jovens. Narrativa muito envolvente, marcada pelos diversos surtos de Bentinho.
  • Minissérie Capitu – a minissérie global, do mesmo diretor de Hoje é dia de Maria, é muito bonita e fiel ao livro. Além dos cenários circenses e metafóricos, o enredo te prende também graças ao elenco, que conta com os belos “olhos de ressaca” de Letícia Persiles no papel de Capitu.
  • Livro A audácia dessa mulher, de Ana Maria Machado – uma história contemporânea cruza com uma versão diferente e… ousada de Dom Casmurro, com três protagonistas muito audaciosas, como sugere o título, que libertaram-se das amarras e dogmas da sociedade.
  • Música “Capitu”, de Luiz Tatit – uma canção muito gostosa com uma letra lindalinda demais! Os versos apaixonantes descrevem lindamente a Capitu que existe em cada mulher.
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

  • Carine Suder Fernandes

    Por isso gostei tanto dessa revista e a adolescente em mim se identificou tanto… Gostaria quem em meus anos mais jovens as revistas que tentei colecionar tivessem esse tom libertário…

  • Mauro

    eu me atrevo a afirmar: perguntar-se ‘traiu?’ ou afirmar ‘não traiu’, é já, em alguma medida, já cair na armadilha de Machado… o problema da Capitu é ser liberta do problema masculino que levanta a dúvida… e aí, depois de erguida, pouco importa a solução que se dê para essa questão… exílio lisboeta de Capitu: tão macho, tão viril, tão alfa…

  • Pingback: Dicas culturais: Agosto | Capitolina()

  • Anna

    Amo demais a música do Tatit! Parabéns pela iniciativa…

  • maria carolina santos

    Amei! Parabéns pelo lindo trabalho. Precisamos mais disso.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos