11 de julho de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Bárbara Fernandes
A obrigação de ser feliz

Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro.

Eu sempre fui chamada de antipática. Quando eu era adolescente (até agora) não achava necessidade de sorrir o tempo inteiro. Nem de falar oi para quem não conhecia. Nem de fazer a íntima de quem não era nada além de um colega. Ficava quieta no meu canto, mostrando os dentes de forma delicada para quem me interessava. Mas sempre fui julgada por isso.

“Mas a Bia não sorri nunca”, “Olha, ela tá rindo, a piada deve ter sido muito boa” e “Bia, você está bem? É que sua cara está fechada, você parece chateada com algo” são frases que costumo ouvir sempre. Sim, mesmo com os 26 anos que tenho hoje ainda sou avaliada por não parecer feliz e satisfeita com a vida o tempo inteiro. Mas o que é ser simpático? O que é ser feliz? O que é estar bem-humorada? Como transparecer isso?

Simpatia, segundo os dicionários alheios, tem a ver com afinidade. Felicidade, satisfação e bem-humorada com disposição. Significados que se complementam, completam e juntos formam exatamente o que uma pessoa, qualquer uma, procura numa outra para um relacionamento duradouro: um ser agradável. Claro, ninguém aguenta ficar muito tempo junto de alguém que constantemente pareça grossa(o) ou aborrecida(o) com algo, mas será que o julgamento através das feições faciais ou com poucos segundos juntos é válido para resumir uma pessoa inteira?

Eu, por exemplo, tenho uma cara não muito convidativa. Minhas sobrancelhas são arqueadas, não sorrio quase nunca e minha voz é grossa e alta, além de ter uma fala afobada, rápida, direta, cortante, sempre movimentando os braços. Não foram poucos os que chegaram até mim dizendo que antes tinham uma visão (e não era muito boa) e mudaram assim que conversaram melhor comigo.

Como já foi falado aqui, as pessoas avaliam pelas primeiras impressões e às vezes isso já basta para rolar uma vontade de saber mais. De conhecer mais. Estamos num mundo onde tudo é muito rápido, é necessário saber logo se vai rolar uma amizade longa e bonita de primeira porque há uma fila imensa para conhecer e não se pode perder nenhum tempo com quem não faz o requisito. Então, se a primeira impressão da pessoa foi que ela é chata, provavelmente não haverá uma nova chance. E normalmente não é culpa dela.

As pessoas têm jeitos. Maneiras de agir através de uma atitude do outro ou de uma situação de vida. De falar e de pensar. Então é construída, assim, a personalidade, que vai além de um físico ou de uma capa que estamos usando no dia. Sim, a cada dia usamos uma de acordo com o que estamos passando ali. Lembro-me de certa vez ter encontrado uma menina pela primeira vez e ter feito uma piada com ela. Ela não entendeu e até hoje não gosta de mim. A capa que estava usando não me representava por inteiro, mas ela preferiu me ver daquele jeito.

O senso comum é de que quanto mais sorrisos forem distribuídos, mais a pessoa é feliz e satisfeita com a vida. É alguém menos inconveniente (alguém sincero?), menos suscetível a jogar os problemas nos seus ombros. Mas será que parecer feliz é ser feliz? Precisamos parar de achar que as pessoas que parecem chateadas com o mundo são tristes e que precisamos desistir delas de cara. Eu, como pessoa que está do outro lado, posso dizer que isso machuca. Principalmente quando você olha para dentro, revê suas atitudes e não encontra nenhuma grosseria ou algo que possa ter machucado a outra pessoa, porque, para você, isso é normal. Dê uma chance, todo mundo merece.

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

  • Vick Fernandes

    Meu deus, que texto maravilhoso!

  • Mália

    Nossa, me descreveu…tanto meu perfil, quanto as chateações vividas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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