26 de junho de 2015 | Ano 2, Edição #15 | Texto: | Ilustração:
“Oi quer tc?”: o virtual invade a língua

A menos que você seja um viajante do tempo, está mais do que óbvio que a gente não vive mais sem internet. “Que tragédia! Viramos máquinas insensíveis!”. Calma, sem fatalismo, vai. Gosto de pensar que a “internetização” do mundo tem mais prós que contras, que o contato humano foi otimizado e não perdido. Hoje, qualquer um pode fazer um canal no YouTube, gravar suas ideias e viralizar. Ou ainda gravar sua música, disponibilizar para todo mundo e alguém maneiro querer te contratar para fazer um show em outro país. A internet é uma arma de longo alcance para ideias, e não precisamos de dinheiro ou status para ser relevantes no ambiente virtual. Quer dizer, dinheiro ajuda, mas não é essencial. A própria Capitolina é prova disso: as colaboradoras se conheceram pelo Facebook, se organizam pelo Facebook, e o conteúdo chega até você através do WordPress, Twitter, YouTube, Instagram etc.

Todo mundo ganha com esta democracia, mas isso é especialmente significativo para nós, “xóvens”. Finalmente temos nossa voz ouvida e considerada relevante. Afinal, a internet é nosso habitat natural, e quem melhor para entender a nossa casa do que nós mesmos? Estamos tão confortáveis e imersos no ninho interwébico que os limites entre real e virtual se confundiram e se mesclaram de vez.

Os reflexos desta fusão estão não só na maneira como nos relacionamos com as pessoas, mas também na linguagem. A nova comunicação é dinâmica em níveis epiléticos, e essa necessidade de se expressar rapidamente levou à compressão das línguas. “Não” virou “naum” porque não dava mais para perder tempo fazendo o til, e depois até isso ficou longo demais, “n” bastava. “Você” virou “vc”, “teclar” virou “tc”. Essa última abreviação eu demorei para sacar, inclusive: jurava que era “tecer”, o que deixava as frases totalmente sem sentido. O ponto é que a internet é uma avalanche, e se você perde um detalhe é provável que perca o sentido todo.

E no meio dessa centrífuga louca, a comunicação continuou ficando mais e mais comprimida até chegar nos emojis e nos memes. Os dois são um tipo de linguagem imagética com alta concentração de significado. Mas façamos distinções.

O meme é superparticular, tipo uma piada interna — embora possa se popularizar e ser entendido por muita gente. Memes nascem não se sabe onde e perdem a graça antes que seu tio consiga entendê-los e usá-los sem parecer nonsense, ou seja, o timing do humor ficou bem mais exigente. Talvez eu esteja viajando pesado, mas arrisco dizer que o meme é uma versão virtual da gíria. Vê se não faz sentido: os dois são linguagem informais que fazem sentido para um grupo específico em uma determinada época.

Já o emoji é uma linguagem universal que consegue se fazer entendida por muitas comunidades. Ele começou nos celulares e, como todo celular agora é smartphone e tem internet, logo as carinhas, bichinhos e trequinhos passaram a povoar as redes sociais. E se engana quem pensa que é só mais um amor que não sobe a serra: tem banco trocando senha numérica por senha de emoji e existe até uma versão emoji do clássico da literatura Moby Dick.

É claro que sempre tem moralismo tentando deslegitimar as culturas que fogem à norma culta e acadêmica. Mas abreviações, emojis e memes já são parte da nossa língua, não há como negar. O encontro da linguagem virtual com a linguagem escrita e falada não é especulação, é realidade. Azar de quem não aceita essas novas peculiaridades. Estão perdendo uma língua muito rica, que se destrói e se reinventa a cada atualização de página.

Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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