14 de dezembro de 2015 | Cinema & TV, Colunas, Se Liga | Texto: | Ilustração:
Olmo e a Gaivota

Se você procurar palavras relacionadas a gravidez no Google a maior parte do que irá achar são casais sorrindo, uma mãe alegre e contente, um pai segurando uma bola em uma mão e uma boneca em outra (típico), frases de amor e grandes mensagens sobre como dar a vida a outro ser é a melhor coisa do mundo. É perceptível como em grandes meios de comunicação nos deparamos com tal idealização. Como se houvesse apenas um lado: o que opera uma mulher sempre amável, disposta, feliz, carinhosa, bonita, sorridente e segura. Mas e se não for bem assim? O que realmente passa dentro da cabeça de uma mulher diante de uma gravidez? (E depois dela? E no momento que se descobre a gravidez?). O que é ter de aguentar a pressão de se sentir deslocada por não se mesclar dentro da realidade que parece dada nos filmes, nas novelas, na literatura?

Após sair de Olmo e a Gaivota (2015) não consegui falar muita coisa. As perguntas que eu tinha na cabeça só podiam ser respondidas por uma pessoa, que não estava ali no momento. Só tomei coragem para perguntar alguns dias depois: liguei para a minha mãe e interroguei-a sobre a gravidez dela. Como uma boa professora de História, ela tomou o ocidente como um ponto e a modernidade como outro, dizendo que o amor materno era algo construído – lembrei-me até de Medeia, de Eurípedes, em que ela mata os próprios filhos por vingança a Jasão.

“Começa pelos enjoos toda manhã, isso já acaba com o humor de qualquer mulher. Minha pele se infestou de espinhas, mesmo com todo aquele mito de que a pele fica fantástica. Que a mulher fica bonita e maravilhosa. Eu tinha medo: medo do que estava por vir, medo do que estava acontecendo. Medo de sair na rua porque tinha vergonha de me ver daquele jeito, não ia para casa dos meus amigos, nem para as festas que me chamavam. Era solitário.” Esse relato é da minha mãe, mas poderia ser qualquer outra.

Petra Costa dirige seu segundo longa metragem fadada pela necessidade de mostrar uma gravidez nua, feita por e com mulheres: é dada a voz para finalmente elas se expressarem. A sub-representação da mulher dentro do cinema é pauta importantíssima de discussão dentro do filme. Ao retratar pelo ponto de vista de uma mulher a gravidez e os seus “poréns”, a diretora dá finalmente voz para quem sempre teve de ouvir calada (é importante ressaltar que apenas 30% das personagens falantes em filmes são mulheres). Uma voz contrária àquela que colocava a mulher contra a parede, mostrando-a que deve ser sensível, atraente e sempre aparentar confiança, “se portar como uma mulher; ter em mente o seu papel feminino na sociedade”.

A protagonista é Olivia (interpretada por ela mesma), uma atriz italiana que acaba de descobrir que está grávida de seu marido Serge (também interpretado por ele mesmo), também ator. Costa acompanhou Olivia durante a gravidez para capturar os sentimentos e ações da atriz, em que uma realidade aproveita para de fundir com a ficção. Olivia está sendo ela mesma, ou está atuando ela própria diante de uma câmera? Seu emocional é posto contra a parede, dentro do espaço de um apartamento que parece sempre vazio de sentido, mas sempre lotado com suas batalhas psicológicas. São planos extremamente fechados que parecem prender Olivia em seu quarto. Não pode sair de casa, tanto de forma literal (ordens médicas), quanto metafóricas.

Um embate milenar então acontece, ao botar lado a lado realidade versus ficção. A forma veementemente sublime que a história é contada desperta uma sensação curiosa, em que não sabemos se o estímulo se dá pelo foco da ficção como forma de subverter uma realidade conhecida, ou pela noção de que aquilo é real. Vez ou outra, a voz da própria diretora “interrompe” o plano do filme para sugerir algo, ou para falar com os atores (ou com as personagens?). Torna-se a própria forma do filme: uma grande teia em que se entrelaça uma vida com uma arte, e que as tornam análogas.

Na realidade, essa é a proposta de Petra, e o que gera uma belíssima narrativa que ora pende para uma personagem interpretada, ora para o seu verdadeiro eu, e ora ainda pende para algo que não identificamos ou definimos. As várias fragmentações são partes de uma só, a qual transmite uma história psicologicamente aberta e sentimental.

As perguntas voltam, sempre implícitas: Por que machuca? Por que dói? Por que tenho de fingir que estou feliz? Sempre parecem vir com alguma culpa, afinal há uma vida que a própria mulher está concebendo. Deveria ser grata por isso, deveria se sentir mãe, deveria se sentir bem. Aliás, deve sentir-se bem (em um grande tom imperativo).

Petra ainda faz questão de introduzir e salientar o homem dentro da relação, e mostrar como a mulher realmente se sente perante a isso.

“A minha realidade presente é diferente da sua”, diz Serge tentando se defender – algo como um “sou eu quem estou realmente fazendo algo por aqui”.

Minha realidade presente também é a sua, mas sou eu quem a carrega”, é a resposta final de Olivia.

Sofia Brayner
  • Colaboradora de Cinema & TV

Sofia tem 18 anos e mora em São Paulo, apesar de ter um coração alagoano fruto de sua moradia de 7 anos na capital. Estuda Cinema e tenta escrever ora ou outra umas histórias mirabolantes que aparecem na sua cabeça fantasiosa. Ela canta Beatles, dança sem motivo, é louca por jogo de terror e fala demais. Ah, e sonha, sonha muito...

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