7 de agosto de 2017 | Ano 4, Edição #36 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Onde você estava em 2013: jovens relembram as Jornadas de Junho
Jovens falam das Jornadas de Junho de 2013

Ei, você que está nos lendo: lembra onde estava em junho de 2013? Talvez seja difícil puxar pela memória. Mas e das manifestações pelo país? Ah, isso é difícil de esquecer, não é?! Afinal, junho de 2013 entrou para a história como um mês emblemático para a última geração de jovens no país. Tamanha movimentação política era inédita desde o impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Inicialmente pautados pelo aumento das passagens de ônibus das principais capitais brasileiras, os protestos convocados pelo Movimento Passe Livre ganharam imensas proporções na medida em que a viralização das reivindicações nas redes sociais propuseram novas demandas e estratégias, além escancarar a insatisfação popular.

Em resposta ao comentário apresentado pelo jornalista Arnaldo Jabour durante o Jornal Nacional, os manifestantes lançaram o slogan “Não é só por 20 centavos”. A disputa pela narrativa de um evento tão importante e, ao mesmo tempo, imprevisível, era nítida.

Com os avanços da internet e a comunicação via redes, pela primeira vez, os oligopólios da mídia hegemônica teriam concorrentes à altura, dando uma nova aparência à voz das ruas. Mas, afinal, o que fez milhões de brasileiros saírem de casa, apesar de toda a truculência policial? Esta reportagem busca fazer um pequeno recorte de experiências pessoais vividas durante as Jornadas de Junho.

“Foi aí que eu comecei a fazer armas desconcertantes com bexigas”

“Eu estava pesquisando quais eram as ‘armas’ – entre aspas, porque a ideia não era necessariamente machucar – que a gente poderia fazer para dar uma resposta às bombas de gás e balas de borracha utilizadas pela polícia.

Porque eu via a galera tacando pedra e eu ficava ‘tá, maneiro, é legal’, mas essas pedras não tem um alcance muito distante e são perigosas porque podem machucar feio os caras [policiais] e dar muito problema, como acabou acontecendo, com a morte do cinegrafista [Santiago Andrade]. Então, eu comecei a pensar numa outra forma de revidar àquelas bombas de efeito moral. Foi aí que eu comecei a fazer armas desconcertantes com bexigas.

(…)

Eu fiz a primeira intervenção na manifestação da final da Copa das Confederações. Foi uma produção maior, eu cheguei a fazer umas vinte bexigas. Queria alguma coisa desconcertante, então pensei em tirar aquele preto que predomina no uniforme da polícia. Eu misturei cola e pigmento rosa e enchi umas bexigas também de cor rosa e distribuí entre os black blocs que estavam na linha de frente, bem na hora em que a manifestação chegou perto do cerco policial em torno do Maracanã.

Na hora do emparelhamento, a galera tacou as bexigas e devem ter acertado. Me lembro que houve uma resposta rápida da imprensa, uma notícia bastante parcial, desmoralizando a manifestação, dizendo que não sabíamos o que estávamos fazendo. A matéria ainda dizia, com um ar bastante cientificista, que iam estudar o elemento rosa misterioso, um blá blá blá científico escroto! Eu só peguei uma cola cascorez e pigmento rosa e misturei. Era só perceber que tem cheiro de cola, sabe? Tentaram inventar que era uma arma química. (risos)

Enfim, eu queria ter continuado a produção de bexigas, mas não consegui fazer isso sozinho. Acho que seria uma boa fazer mais armas não letais, com o objetivo de incomodar a performance policialesca.” – Lucas Bueno, 25 anos

“Tenho a impressão de que, depois das jornadas de junho, a pauta da vida na favela – que é muito rica e também muito massacrada – passa a ser colocada com mais força.”

“A gente percebe que tem muitos moradores de favela e periferia que, no início, iam para as passeatas mesmo sem ter uma noção política tão grande e viam se passando no asfalto o que já vivem todos os dias em seus bairros: a violência do Estado de uma forma explícita.

E, já que no cotidiano é mais difícil a pessoa reagir de uma forma direta, no asfalto a gente já tem essa possibilidade. É aquela máxima: no asfalto a bala é de borracha e na favela, não. Aqui na favela eles nem se armam desse fuzil para balas de borracha porque nós não temos essa chance. Eu particularmente acho fantástico isso de a população não aceitar mais a violência de braços cruzados.

(…)

Eu acho que junho de 2013 proporcionou uma troca de conhecimento entre a população moradora de favela e as pessoas que não conhecem a realidade de quem vive o cotidiano na comunidade.

O que me faz pensar muito nisso é um episódio na Prefeitura do Rio, quando aparece o ‘caveirão’. É um acontecimento que me chama muito a atenção, porque quando o ‘caveirão’ aparece na passeata muitos jovens, a maioria negros, enfrentam esse carro, subindo nele e tacando-lhe pedras. E os moradores do asfalto se percebem incapazes de entender essa fúria e revolta popular, a vontade de enfrentar aquele símbolo de repressão do Estado.

Bubba Aguiar participou das Jornadas de Junho, em 2013

Bubba Aguiar numa das manifestações das Jornadas de Junho de 2013 (Arquivo Pessoal)

Daí, justamente por não entenderem, essas pessoas do asfalto se juntam à juventude das comunidades, que é muito combativa, com o interesse de pensar juntos em ações diretas. Isso, pra mim, como moradora de favela, é muito significativo. Tenho a impressão de que, depois das jornadas de junho, a pauta da vida na favela – que é muito rica e também muito massacrada – passa a ser colocada com mais força.” – Buba Aguiar, 25 anos

“Eu vivi várias coisas novas, que, no fim, viraram uma grande frustração e medo.”

“Pessoalmente, ir pra rua foi um ato simbólico, não só como vivência política, mas também como uma vivência da própria cidade, porque eu tinha acabado de me mudar para o Rio de Janeiro, vindo de uma cidade pequena no nordeste. Então, viver a rua foi uma mistura de tudo, uma euforia coletiva! Uma coisa ingênua e meio anarquista, de querer estar lá, por vezes sem refletir tanto, mas junto com os amigos – algo que, hoje, eu acho bem ingênuo, considerando tudo que eu vivi posteriormente.

Durante junho de 2013, criamos um jornal e algumas tentativas de mídias independentes na faculdade. Eu saía sempre com câmera, microfone, entrevistando as pessoas e tirando fotos – tínhamos grupos no dropbox para compartilhar essas mídias.

(…)

Eu vivi várias coisas novas que, no fim, viraram uma grande frustração e medo. As passeatas foram ficando cada vez mais violentas perigosas, as pessoas começaram a ser presas e se machucarem. Teve também a perseguição da mídia, que foi absurda.

A última manifestação que eu fui, foi a manifestação de 20 de julho e foi um dia muito violento, acho que fiquei meio traumatizada. A polícia cercou todo mundo, foi uma covardia. Naquele dia, quando consegui voltar para casa, senti que todo mundo ficou muito marcado, porque alguns amigos foram presos.

Depois disso, fiquei com muito medo de voltar para a rua. Gerou um trauma, uma sensação de impotência e fragilidade, porque ali eu soube que nós não teríamos nossos direitos humanos minimamente respeitados.” – Mariana Cavalcanti, 25 anos

“Hoje, eu percebo que, por vezes, parecia que a gente estava lutando contra as pessoas que estavam na manifestação, e não pelos direitos que estávamos reivindicando.”

“Em 2013 eu estudava no CEFET-MG e conhecia as pessoas do grêmio da minha escola. Elas eram vinculadas ao PCR. Eu tinha contato também com pessoas do PSOL e do MEPR. Nós éramos bastante envolvidos com a militância e tínhamos um grupo de estudos de textos comunistas.

Quando começaram as manifestações em Belo Horizonte, elas foram puxadas por um pessoal anarquista, mas eu participei junto com as pessoas desses movimentos que já mencionei. Todo mundo levou vinagre, leite de magnésia e essas coisas, porque a polícia era muito truculenta. Inclusive, lembro que duas pessoas morreram porque caíram de um dos viadutos principais da cidade. Isso aconteceu porque a população foi encurralada pelos policiais num viaduto e não cabia todo mundo lá, então algumas pessoas caíram. Duas delas morreram de traumatismo craniano.

(…)

Hoje, eu percebo que, por vezes, parecia que a gente estava lutando contra as pessoas que estavam na manifestação, e não pelos direitos que estávamos reivindicando. Parecia que eu estava na passeata chamando gritos de ordem que diziam ‘vamos ser black bloc e quebrar tudo’, numa mentalidade do tipo ‘temos que ir contra as pessoas que são sem partido’. Na outra ponta, o grupo dos ‘sem partido’ ficava tentando cantar o hino nacional e segurando a bandeira do Brasil, como se fosse uma resposta.

Eu acho que, ao mesmo tempo que foi a primeira vez que a gente viu que as pessoas podiam não se conformar, parecia que era um monte de pré-adolescentes na rua. Parecia que as pessoas não sabiam o que estavam fazendo ali e estavam brigando contra si mesmas, sabe?

Eu acho que, nessa época, a classe média conseguiu formar uma cultura. Porque a gente já conseguia pensar em estereótipos para pobres e estereótipos para ricos. E hoje, quando eu penso na classe média, eu só consigo imaginar pessoas que acham que são ricas porque ganham cinco mil reais por mês, gente que apoia a Lava Jato, odeia o PT, usa camisa do Brasil e, ao mesmo tempo, fala que esse país não presta e quer se mudar para o exterior.” – Ellen Dutra, 20 anos

“Eu não estava acompanhando de modo passivo, eu estava ajudando aquilo a acontecer e vendo o desenrolar das coisas.”

“As passeatas foram além dos limites físicos, porque existiam as manifestações em si e os seus ecos, acompanhados através da internet. Durante esse processo, havia uma porção de fontes e olhares: era como se cada pessoa transmitisse o seu ponto de vista através dos vídeos. Eu me lembro que eu ficava com a TV de um lado e o computador ou o celular de outro, acompanhando.

Muitas vezes era nítida a diferença entre a mensagem transmitida pela TV e a do meu celular. Quando eu olhava para a TV, tinha muitas imagens do alto. Era muito bonito porque trazia a possibilidade de ver a manifestação acontecendo em termos de multidão, a Avenida Paulista (em São Paulo) ou a Avenida Rio Branco (no Rio) cheias de gente. Já na internet, eu conseguia entrar em contato com o olhar do que estava acontecendo no meio das pessoas, então eu sentia a vibração daquela cobertura feita em loco.

Eu percebia também que a cobertura da mídia tradicional transformava pequenos incidentes, relacionados aos black blocs, no todo, quando, na verdade, se sabia que a manifestação era muito mais do que aquilo. Independentemente de dar um juízo de valor para a postura dos black blocs, existia ali muitas formas de manifestar indignação, podendo ser tanto por um cartaz, por um grito, uma salva de palmas ou pelos black blocs. A questão é que, na cobertura da mídia tradicional, uma dessas formas de manifestar acabava se transformando no todo, e não era bem assim que as coisas aconteciam na realidade. Ali havia vários discursos ao mesmo tempo e diferentes formas de se indignar.

(…)

Como teve um certo tumulto por conta da repressão, a forma de luta que eu escolhi para aquele momento foi pela internet. O enriquecedor disso era a corrente de ajuda, que foi muito forte. Eu usava constantemente o Twitter e ficava feliz em poder alertar as pessoas que estavam na rua sobre as melhores rotas de fuga das barreiras policiais e mudanças nos trajetos das passeatas. Foi muito legal estar participando e contribuindo para o fluxo das manifestações porque eu não estava acompanhando de modo passivo, eu estava ajudando aquilo a acontecer e vendo o desenrolar das coisas.” – Vítor Hugo dos Santos, 22 anos

Ayodele Gathoni
  • Colaboradora de Artes

Ayodele Gathoni tem uns 20 e poucos anos e mora no Rio de Janeiro. Gosta de ver desenho animado, rodar bambolê e confeccionar licores artesanais.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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