24 de abril de 2016 | Relacionamentos & Sexo, Sem categoria | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
Os aplicativos de relacionamento estão estragando a paquera na vida real?

Numa roda de amigas resolvi lançar uma pergunta e meio que já sabia as respostas que viria a ouvir. “Quem usa ou já usou aplicativos de relacionamentos nos últimos dois anos?” Numa mesa de oito mulheres, sete já tinham se aventurado no mundo dos apps de paquera. Com uma aceitação tão grande assim, resolvi aprofundar um pouco mais a minha pesquisa. “E por que vocês usam? O que te atrai nesses aplicativos?”, continuei perguntando, e as respostas que mais ouvi davam conta da facilidade com que essas redes virtuais resolvem os nossos problemas, sendo “problemas” aqui o mesmo que solidão ou solteirice. Mas seria facilidade mesmo ou comodidade?

Para usar o Tinder (ou Happn, OkCupid, Adote Um Cara etc.) você não precisa de praticamente nada, só o seu smartphone. Sem essa de ter que se arrumar, maquiar, sair de casa, gastar dinheiro. Basta um clique e, pronto, o alvo está no papo e lá se vai meio caminho andado no jogo da conquista. Depois de um “oi” despretensioso, fica mais fácil desenvolver a conversa. Sabendo que a outra pessoa por trás daquela tela também tá a fim de você (afinal, vocês só estão conversando porque houve um interesse mútuo) o flerte rola bem mais suave. Do app de paquera vocês passam para o WhatsApp e, consequentemente — ou não — chega a hora de se conhecer pessoalmente. E aí nessa hora bate o pânico, porque até então todo o seu contato com o/a possível paquera foi construído, e desenvolvido, no plano virtual. Com raras exceções das mensagens de áudio ou telefonemas, até o presente momento você só conhece a fisionomia do outro por fotos. Não sentiu o cheiro, não olhou dentro dos olhos, não ouviu o som da sua gargalhada.

Até alguns anos atrás a maneira mais comum de conhecer um possível paquera era através de amigos em comum, na escola/faculdade ou mesmo naquela festinha do sábado à noite. O que antes demandava mais passos, como demonstrar o interesse, superar a timidez de chegar na pessoa e iniciar a conversa foi resumido a um jogo rápido que não requer nenhum incômodo. Ficou mais fácil? Talvez. Mas ficou bem mais automático também, vamos ser sinceros.

Eu, pessoalmente, acho que o grande barato da paquera é justamente esse momento do flerte, do nervosismo para se aproximar do outro, de mostrar vulnerabilidade e se colocar ali, em corpo e em palavra, vivendo a situação na pele. Mas se a gente não pratica como vamos nos aperfeiçoar nessa arte? Como vamos aprender a superar o medo de levar um fora sem que, de fato, vivenciemos essa situação? É lógico que ninguém fica feliz ao ouvir um “não”, mas se isso já aconteceu com você uma vez, é mais provável que saiba lidar com essa situação caso ela se repita. Assim como vai ficando cada vez mais fácil demonstrar interesse ou iniciar uma conversa com um desconhecido quando você faz isso constantemente.

Terminar um rolo também ficou mais leve — ou seria leviano (?) — na era dos apps. Se por algum acaso do destino o papo não está bom ou você se arrependeu do “like” que deu naquele carinha, basta bloquear ou excluir o indivíduo e, voilá, problema resolvido. Essa prática cada vez mais recorrente tem nome: ghosting. Sumir, desaparecer, fazer o fantasminha… chame como quiser mas o ghosting é real e presente nas vidas da maioria dos usuários deste tipo de aplicativos. Só que ainda não inventaram esse mecanismo na vida real e, por enquanto, a maneira mais recomendada para encerrar um relacionamento continua sendo a boa e velha conversa.

E é essa interação com o outro, seja para iniciar ou encerrar uma paquera, que os aplicativos estão tirando de nós. A capacidade de enxergar o outro como uma pessoa que tem problemas e sentimentos como você, em vez de só e somente um perfil virtual com fotos fotogênicas, não pode ser abolida das nossas relações sociais. Afinal, essas relações são a condição indispensável para o desenvolvimento e a constituição das sociedades.

Por mais que a comodidade dos aplicativos nos seduza, é importante não se distanciar das interações com os outros indivíduos porque são elas que nos transformam em sujeitos capazes de criar redes de relações e comportamentos sociais.

 

Júlia Freitas
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Júlia Freitas, jornalista em busca do mestrado perfeito, se interessa por tantas áreas que não sabe por onde começar. Típico de libriana. Militante afrofeminista e dos movimentos sociais, morou em Nova Iorque e lá estudou de tudo um pouco. Mas o dendê corre na veia e ela voltou pra Bahia. Por enquanto.

  • Ligia Baruch

    Julia, gostei do seu artigo, delicado e sensível. Caso queira aprofundar o tema acabei de defender uma tese na PUC-SP sobre esse tema. Sou psicóloga e também baiana residindo em Sp. Encontrei essa revista interessante enquanto pesquisava nomes para meu livro que abordará esse assunto também. Abs, Ligia.

  • Carina

    Escrevi sobre isso no meu blog (https://voualidormir.wordpress.com/2016/06/13/apps-de-namoro-e-a-vergonha-injustificavel/), mas com uma pegada diferente, sobre as pessoas terem vergonha de usar apps de namoro.
    Concordo com você, ficou tudo automático e a “magia” de se conhecer alguém do modo antigo era muito melhor. Acontece que , pelo menos pra mim uma tímida incurável que não sai todo final de semana, os apps são a unica chance que tenho de dar uma paqueradinha. Confesso que o nervosismo do 1º encontro até pode se igualar ao do 1º flerte também… Prefiro conhecer um amigo de amigo, mas isso nunca aconteceu ao longo dos meus 12 anos de paqueradora haha, então viva aos apps <3 ( ou não… o.o)

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