10 de abril de 2016 | Ano 3, Edição #25 | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
Os inomináveis: sentimentos que não conseguimos traduzir em palavras

there
are
feelings.
you haven’t felt yet.
give them time.
They are almost here.

fresh

existem
por aí
sentimentos.
que você ainda não sentiu.
paciência.
eles estão chegando.

frescor

(Poema da Nayyirah Waheed, tradução livre minha)

Volta e meia a gente descobre um sentimento novo, né não? Volta e meia somos obrigadas a lançar mão daquele meme “não sei o que dizer, apenas sentir”, e volta e meia também a gente se pega no flagra dizendo pra uma amiga que aquilo que a gente está sentindo não tem explicação, não tem como botar em palavras, não dá pra traduzir. Eu gosto muito dessa metáfora da tradução aplicada aos sentimentos, primeiro porque sou tradutora e segundo porque acho essa imagem tão precisa, tão bonita. A tradução entre duas línguas é um trabalho muito generoso e muito poderoso, e assim também é essa tentativa de dar sentido ao que se sente através de palavras. De declarações de amor a declarações de fim, poder dizer pro outro o que se passa dentro de você é um ato corajoso e altruísta. Mas é difícil, né?

Pois é. E é difícil, eu acho, exatamente porque as palavras que escolhemos pra representar o que sentimos muitas vezes não dão conta do sentimento em si. Porque sentimentos são complexos, multifacetados, estranhos e acima de tudo mutáveis. Ou seja, são feitos à nossa semelhança – vide Divertidamente. A verdade é que falta léxico pra explicar o que a gente sente, e tudo bem. A gente tenta mesmo assim.

Uma das complicações mais comuns nesse sentido acontece quando a gente começa a confundir sentimentos de carinho e amizade com amor. Aviso logo que não tem problema nenhum e todo mundo passa por isso uma ou muitas vezes na vida. Amor, amizade e carinho andam de mãos dadas, assim coladinhos, então tudo bem se confundir. Você pensa: pessoa X é incrível. Pessoa X é inteligente, engraçada e atraente. A companhia da pessoa X me faz muito bem. Eu passaria mais tempo com a pessoa X se fosse possível. Eu me importo com tudo que acontece na vida da pessoa X, e faria tudo que estivesse ao meu alcance pra vê-la sempre bem e feliz. Pra mim, esses sentimentos se aplicam tanto a amigos quanto a crushes. Daí vocês me perguntam: tá, mas o que diferencia o que você sente por um e por outro? Hmmm, não sei… tesão? E de onde vem o tesão? Também não sei. E o que é tesão exatamente? Uma coceira? Um calor? Um delírio de verão? Difícil, gente. Até porque, tcharãããm, dá pra sentir tesão em amigo também. Risos choros.

Eu não to ajudando, né? Mas vamos relatar mais casos pra pelo menos a gente se identificar e saber que não estamos sozinhas. Também acontece muito da gente começar a sentir uma uma preguiça misturada com palpitação misturada com sensação de impotência misturada com medo. Lembro que a primeira vez que senti essas coisas todas de uma vez só fiquei achando que eu ia pirar. Quis ir ao médico, depois não quis, depois quis de novo, depois resolvi me abrir com uma amiga. E ela também já tinha sentido isso. É ansiedade, Luiza – ela me disse. Mas eu achava que ansiedade era aquela coisa que dava dor de barriga/borboletas no estômago quando estamos esperando por algo que queremos muito. É isso também. Pra mim ansiedade é uma aflição, uma vontade louca de fazer 455 coisas somada à incapacidade total e irrestrita de me mexer pra começar.

Tem também aquela saudade que não é bem saudade, né? É melancolia, é tristeza, mas ao mesmo tempo é uma pontinha de alegria por tudo que aconteceu. Eu tenho esse sentimento em relação a alguns ex-namorados, por exemplo. Não é saudade no sentido de querer voltar, mas é um cuidado com a memória, uma dorzinha por ter terminado, uma satisfação por ter vivido. Emfim.

Em todos esses casos, acho que a tradução do dentro pra fora só acontece através da arte e da identificação. Pode ser arte que você produz, pra tentar dar sentido ao que sente, e pode ser arte produzida por outrem, que aí bate certinho e dá aquela onda boa, aquela certeza de que você existe no mundo e é compreendido. Eu sinto isso hoje em dia muito através de séries e músicas, apesar de ser escritora. Talvez os seriados e as canções proporcionem uma identificação mais imediata, pelo menos pra mim. Mas também fico bem satisfeita e realizada quando descrevo alguma confusão mental em textos e as pessoas se enxergam ali. É tão importante. Mais importante ainda é dizer, botar pra fora, desengolir. Mesmo que esteja confuso, mesmo que seja indizível, mesmo que seja inominável.

Luiza S. Vilela
  • Coordenadora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Esportes
  • Revisora

Luiza S. Vilela tem 28 anos e mora no Rio, mas antes disso nasceu em São Paulo, foi criada em Vitória e viveu uma história de amor com Leeds, na Inglaterra, e outra com Providence, no Estados Unidos. Fez graduação em Letras na PUC-Rio e mestrado em Literatura e Contemporaneidade na mesma instituição. É escritora, tradutora, produtora editorial e acredita no poder da literatura acima de todas as coisas.

  • Paula Maria

    Me fez lembrar um texto bem velho meu… E, claro, me identifiquei muito com suas palavras, Luiza! Estou numa fase assim, sem nome, sem certezas, porém, com muitas sensações. Algumas, avassaladoras. Afogando… Pra re-aprender a nadar? Vai saber.

    Aqui o texto: http://meninadoaneldeluaestrela.blogspot.com.br/2007/07/sem-nome-mas-nomeado.html (cavuquei longe esse blog!)

    beijos.

    • luizavilela

      Nossa, só fui ver o comentário agora. Amei a metáfora do cabelo – uma mutilação sem dor mesmo, que talvez doa ou afague em outros lugares. Esses momentos de incerteza acabam sempre dando em coisa boa. Obrigada pela leitura sempre atenta, querida <3

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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