28 de outubro de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Os limites da realidade

A forma como percebemos o mundo ao nosso redor não é a mesma como 10 anos atrás, assim como antes disso também era diferente. O ponto em comum, no entanto, costuma ser alguma inovação na forma como nos comunicamos. O rádio, a televisão, o computador, o smartphone… Nossa percepção do mundo é cada vez mais influenciada (e dependente) da tecnologia. Isso não passou despercebido, é claro – inclusive é sempre alvo de críticas. Quem nunca ouviu de um parente mais velho que ninguém mais quer conversar, todo mundo só fica com a cara enfiada no telefone? Mas, para além das críticas de gerações anteriores, existem também muitos, muitos estudos teóricos, espalhados por diversas áreas do conhecimento. A interação humano-computador, por exemplo, é um campo superabrangente que estuda a nossa relação com as máquinas (ou talvez melhor dizendo, nossas reações às máquinas). Ela trabalha com a cognição e com a ideia de que as máquinas devem maximizar as habilidades humanas, tornando a interação  mais simples e intuitiva possível.

A realidade aumentada é um conceito que faz parte desse universo. É uma forma de relação que se aproxima também da ideia de ubiquidade. Esses conceitos são todos muito presentes na ficção científica, e parecem coisas muito loucas e distantes. Mas, quando paramos para analisar a teoria da coisa, a gente vê que muito do que é extrapolado na ficção já faz parte do nosso dia a dia. A computação ubíqua, por exemplo, tem a ver com a onipresença da tecnologia no cotidiano. Quer coisa mais onipresente nas nossas vidas do que tecnologia? A ideia é um pouco mais complexa, no entanto, e requer também que essa tecnologia esteja presente nas nossas vidas de forma quase invisível. Isso não quer dizer que a gente não vá ver nada, mas que a tecnologia esteja tão integrada no nosso cotidiano que nem se perceba que ela está sendo usada.

Voltando para a realidade aumentada: não existe uma definição fechada do conceito, mas muitos teóricos já falaram sobre o assunto. A ideia é, de forma geral, literalmente aumentar a realidade: através de uma “camada extra” de informação digital, o mundo real é ampliado. Quer dizer, você tem a percepção clara de que está no seu mundo, físico, mas são sobrepostas a ele coisas que você só percebe através de algum dispositivo. A amiga-irmã dela é a realidade virtual, mas elas têm personalidades opostas: a realidade virtual quer que você esteja em outro mundo, paralelo à realidade. Ao criar um contraponto, ela ajuda a entender a realidade aumentada. Alguns autores chamam tudo isso de realidades mediadas (realidades que são alteradas e existem com o auxílio de ferramentas), mas outros consideram elas complexas o suficiente para serem seus próprios termos guarda-chuva. Dentro da realidade aumentada, cabem diversas variações sobre o tema, incluindo até mesmo os smartphones, e os wearables (os “vestíveis”, tipo o Apple Watch e o Google Glass) de que tanto se ouve falar, mas até agora só tivemos grandes promessas e diversão muito limitada.

realidade

 

Resumindo: a realidade aumentada traz elementos virtuais para dentro do seu mundo, expandindo a realidade. A computação ubíqua tem muito a ver com esse conceito, já que, para ter a sensação desejada, a sensação de fluidez entre esses elementos virtuais e reais tem de ser quase impecável, tornando a realidade aumentada quase imperceptível. É muito comum o uso de projeções para trabalhar com RA, já que a visão é o sentido mais fácil de enganar. A expansão da realidade, afinal, precisa da sua percepção para funcionar. Ainda é muito raro o uso dos outros sentidos de forma eficiente para lidar com a realidade aumentada, mas essa é uma das suas maiores pretensões: usar todos os sentidos para criar uma experiência realmente eficiente e agradável.

A realidade virtual tem mais ou menos os mesmos caminhos, mas quer chegar em um objetivo um pouco diferente, que é te dar a sensação completa de estar em outro mundo. Uma das formas de fazer isso é através da imersão, com capacetes e até mesmo ambientes inteiros dedicados a simular outra realidade. Isso pode também ser feito de forma bem mais simples, como por exemplo o projeto Cardboard, da Google: uma caixinha de papelão, com espaço para encaixar o smartphone, que tem cortes simulando um óculos. Ao colocar no rosto, você tem a sensação de imersão, e pode assistir a vídeos, por exemplo. O objetivo, segundo eles, é tornar a realidade virtual uma experiência acessível (você pode inclusive desenvolver apps para o Cardboard).

A realidade virtual apareceu um pouco antes da aumentada, em meados da década de 1950. Uma de suas primeiras aplicações é o Sensorama, um simulador de passeios de bicicleta (que foram pré-gravados em Manhattan) e que, além da imagem, emitia sons, vibrações e vento. Na década de 1960, graças aum cara chamado Ivan Sutherland, surgiu a realidade aumentada. As teorias dele, e também o seu capacete de visão ótica direta, pavimentaram o caminho para ambas as realidades. Apesar disso, o boom só veio mesmo quase na década de 1990, quando os termos “Realidade Aumentada” e “Realidade Virtual” foramcunhados. Os avanços foram acompanhando a evolução da computação como um todo, e em 1997 foi publicado um estudo sobre RA que gerou um subsequente interesse, que se reflete nos avanços que ainda estamos vendo. É compreensível que estejamos num momento tão intenso na pesquisa dessas tecnologias. Elas parecem o próximo passo lógico da evolução tecnológica. No entanto, ainda estamos num momento muito incipiente, pelo menos em termos de grande mercado.

Até agora, como já comentei, o grande foco dessas tecnologias é a visão. Com óculos especiais de vários tipos, as propostas passam fortemente pela indústria de jogos. Seja lançando seu próprio hardware, ou mesmo ressurgindo das cinzas utilizando realidade virtual como alavanca (cof cof Second Life), as empresas estão investindo pesado nessas tecnologias.

Temos vários modelos de “óculos inteligentes” surgindo: o próprio Google Glass, o Oculus Rift, que foi financiado através de crowdfunding, e até mesmo a Microsoft anunciou a sua versão: o HoloLens.

Demo do jogo Project X Ray, usando HoloLens.

Para além do universo dos jogos, no entanto, existem diversos caminhos e usos para as tecnologias de realidade aumentada/virtual. Um outro campo muito promissor é o da medicina, no qualavanços tecnológicos são sempre bem-vindos. Métodos e aplicações de realidade aumentada podem ser usados para visualização em tempo real do sistema venoso de um paciente, por exemplo. E é claro, na verdade podemos usar realidade aumentada para qualquer coisa – esse é meio que o objetivo, afinal. Por exemplo, existem dispositivos que capturam movimentos das mãos (Leap Motion, Reemo, até mesmo Kinect) e que podem ser trabalhados junto com algum óculos inteligente, e gerar coisas tipo este vídeo:

Um projeto de tela utilizando realidade aumentada, feito em uma hackathon, usando Oculus Rift e Leap Motion.

Apps maneiros

Existem muitos projetos que usam realidade aumentada – mais do que a gente imagina. Inclusive, vários são aplicativos de celular.  Esta lista possui só alguns exemplos de apps que podem ser usados no dia a dia, apesar de certos deles precisarem de acessórios.

Google Translate (iOs e Android)

Todo mundo conhece o tradutor automático da Google, e muita gente já deve ter visto que ele tem um app. Mas o que ele faz de mais legal, na verdade, é uma função de realidade aumentada que foi incorporada de um outro aplicativo, o Word Lens, que a Google comprou. Com essa função, é só abrir a câmera pelo app e apontar para algum texto (de uma placa, embalagem, marca, qualquer coisa), e ele vai aparecer na língua em que estiver configurada a tradução! É um app muito legal para quem está viajando, ou mesmo na rua e quer entender o nome daquela loja nova.

Google Goggles (Android)

Esse app parte do mesmo princípio do Translate, mas para pequisas em geral. Apontando a câmera para um objeto, lugar, ou até QR Code, ele vai procurar na base do Google e tentar encontrar um match para a sua pesquisa. A versão pra iOS era parte do app de busca “Google Search”, mas há um tempo tiraram essa função.

Sky Map (iOS e Android)

Existem várias versões desse app, mas uma das primeiras foi também a da Google. Você aponta o celular pro céu, e ele te diz quais estrelas, planetas e constelações que você está vendo, com informações sobre eles. Há algumas variações tipo o Star Chart, que mostra os desenhos dos nomes das constelações também.

Wikitude (iOS e Android)

Esse app é quase que uma base de projetos de realidade aumentada. Eles têm uma ferramenta para criação de projetos de RA, e aí depois eles são publicados no Wikitude. São campanhas publicitárias, de divulgação, projetos artísticos… tem de tudo. Ah, existem várias ferramentas pra criação de projetos de realidade aumentada, mas elas exigem conhecimentos específicos de programação. Metaio (que foi comprada pela Apple) e Aurasma são outros dois exemplos.

Augmented (iOS e Android)

Um app que ajuda na visualização de modelos 3D, através da realidade aumentada.

Yelp! (iOS e Android)

Esse app de restaurantes está no mercado há um tempão, mas muita gente não sabe que ele possui uma ferramenta que faz uso da realidade aumentada: a opção Monocle, escondida em um dos menus, abre a câmera e mostra direto nela onde estão e qual a classificação dos restaurantes à sua volta.

Ingress (iOS e Android)

Um jogo em que o mundo real é a arena. São duas equipes duelando, uma contra e outra a favor uma misteriosa energia que foi liberada por cientistas. Seguindo as pistas e descrições do mapa na tela, você precisa ir até os locais para hackeá-los e ganhar pontos para o seu time.

EnneCoisa (iOS)

Esse app é de uma mina do Rio de Janeiro que desenvolveu ele todo sozinha. O projeto original era de uma tatuagem virtual, e evoluiu para algo que só precisa do desenho do boneco para brincar. Usando realidade aumentada, você posiciona a câmera na silhueta do boneco, onde quer que ela esteja, e a tela mostra o modelo que tiver sido selecionado. Ele está sempre sendo atualizado com mais opções de customização, e dá até pra comissionar um bonequinho do jeito que você quiser. Dá uma olhada na página do Facebook.

Cardboard (iOS ou Android)

Deixei este por último porque testei ele ontem e achei MUITO doido. Sério. São dois apps de realidade virtual, mas que precisam do óculos de papelão pra usar. Consegui um emprestado e fui testar, meio desacreditada, achando que ia ser superbobo. Mas não. É megadivertido e, apesar de bem simples, dá uma ideia do quanto essas tecnologias prometem. O app Cardboard é, assim como o Cardboard oficial e metade desta lista, da Google. Ele tem três opções: caleidoscópio, explorador e “urban hike” (algo como “trilha urbana”). Você pode passear por uma sala de museu, pela cidade de Paris, ou brincar com uma versão desconstruída da logo da Google. A visão é 360º, então dá pra caminhar pela cidade enquanto se anda pela sala de casa (só cuidado pra não bater nas paredes). Além desse, tem uma série de apps e joguinhos para usar com os óculos (recomendo o Dive City Rollercoaster).

 

Verônica Montezuma
  • Colaboradora de Tech & Games
  • Audiovisual

Verônica, 24 anos, estuda cinema no Rio de Janeiro. Gosta de fazer bolos, biscoitos e doces, e é um unicórnio nas horas vagas.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Achei complexo

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