9 de janeiro de 2015 | Edição #10 | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Os limites do nosso poder
Ilustração: Dora Leroy.

Estamos martelando na cabeça de vocês que é hora de sonhar alto, encontrar poder dentro de nós mesmas, criar metas incríveis, conquistar o que queremos. Afinal, é o #verãodopoder. Mas tem horas na vida em que nosso poder, por mais confiantes e maravilhosas que a gente seja, mostra seus limites. Horas em que a gente se sente impotente, sem saber o que fazer, dizer, como enfrentar o problema ou como lidar com o acontecido. Isso pode acontecer em várias instâncias – um ataque de ansiedade, por exemplo, em geral traz sentimentos de impotência; observar injustiças acontecendo no mundo enquanto nos sentimos insignificantes também; e o mesmo pode ser dito de quando perdemos alguém próximo, nos encontramos numa situação aparentemente sem saída, enfrentamos uma tragédia…

Independente de sua origem, a impotência é um sentimento desesperador. É provavelmente uma das coisas que eu mais detesto, junto com frustrações e segredos – e meu asco pelas três coisas tem tudo a ver. Afinal, o problema é exatamente a falta de poder sobre o que acontece. Não sei lidar com frustrações, porque me desespera o fato de que, por mais que eu deseje ou tente ou espere, as coisas não necessariamente são como eu gostaria; não sei lidar com segredos (nem mesmo surpresas) porque também me desespera a ideia de que pessoas próximas a mim sabem coisas que eu não sei e propositalmente escondem esse conhecimento de mim. Da mesma forma, a ideia de impotência me deixa aterrorizada: afinal, o que fazer numa situação em que nada pode ser feito?

Felizmente para mim, estou na terapia já faz mais anos do que eu quero admitir, e aprendi a encarar essas situações de descontrole e impotência que tanto me desesperam. E, felizmente para vocês, venho aqui compartilhar esse árduo aprendizado cheio de clichês-que-no-fim-da-conta-são-verdades. Melhor ainda, num formato simpático e prático de listinha: meus pequenos conselhos para lidar com três tipos/gradações de sensações de impotência.

1. A impotência que vem de dentro: okay, então você tem uma prova impossível de física/biologia/português/o que quer que seja para fazer. E você estudou, ou não estudou, e você dormiu bem na noite anterior, ou não, mas mesmo assim você chega lá na hora e te bate aquele desespero: você não sabe responder nada, você não sabe o que fazer, você nem consegue ler as perguntas mas só ver tudo aquilo no papel te desespera, o pânico toma conta. Esse é o tipo de sensação de impotência que você é mais capaz de solucionar, porque o segredo é: se acalmar. Não é sempre fácil – transtornos de ansiedade são reais e melhoram com muito trabalho e tratamento –, mas, quando for uma hora assim, tente alguma coisa simples para focar: respire fundo contando até dez, foque numa pergunta de cada vez, pare de olhar para o relógio. E, principalmente, entenda que você precisa enfrentar aquilo de qualquer forma – afinal, você precisa mesmo fazer aquela prova, quer você passe ou não, então vá em frente. Para tudo se tem um jeito.

2. A impotência perante injustiças: quando eu era criança, qualquer tipo de injustiça me tirava do sério. Fosse uma coisa boba que aconteceu comigo (do tipo eu ganhar o pedaço menor do bolo), fosse uma coisa maior com a qual me deparava (até porque, quando criança, eu tinha o hábito de frequentar manifestações com meus pais), “mas não é justo!” era uma de minhas frases preferidas. E minha avó, impassível, sempre respondia: “a vida não é justa”. E é, a vida não é justa. Nem com você, nem com os outros. E ver injustiças acontecendo é uma forma horrível de perceber os limites de seu próprio poder. Porque, muitas vezes, você não tem como impedir que aquilo aconteça, e, mesmo se conseguir ajudar naquela situação pontual, não tem como, sozinha, resolver o problema estrutural que gerou aquela injustiça. Nesse caso, no entanto, meu conselho é lutar: lutar por um mundo mais justo; exigir justiça se você sente que foi injustiçada, exigir justiça se você sente que outros foram injustiçados. Só é importante também não deixar o desespero com a injustiça do mundo te dominar até você ficar paralisada: porque, vejamos bem, nada mais improdutivo do que ficar paralisada. Então lute, ajude, faça o que puder, mas sempre respeitando todos os seus limites de saúde e bem-estar.

3. A impotência perante coisas inteiramente fora de nosso controle: e aí tem esses casos, que às vezes são os mais difíceis. Alguém amado morre, uma tragédia acontece, você vê algo absurdo e triste e horrível e inesperado, você não pode fazer nada a respeito. Porque, né, você não pode mesmo. Não dá para impedir que pessoas morram, não dá para prever tragédias. Nessas horas, o conselho é simples (mas sua execução nem tanto): aceite que está fora do seu controle. Aceite que você é impotente frente àquilo, que seu poder tem limites. Aceite que controlar tudo não é possível (nem saudável), que as coisas muitas vezes são mais complexas do que parecem e, outras vezes, são mais simples do que você poderia imaginar. Aceite que você não sabe, nem nunca saberá, de tudo, e que o mundo vai continuar girando e coisas boas e ruins, justas e injustas, trágicas e alegres continuarão acontecendo, independente do que você faça. Pode ser um pensamento assustador, mas, depois de um tempo, é um conforto. Até porque, no fim das contas, é a mais pura e simples verdade.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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