6 de novembro de 2015 | Edição #20 | Texto: | Ilustração: Nathalia Valladares
Os melhores musicais de todos os tempos

Quem inventou a ideia de musical deveria ganhar um beijo ou um grande tapa na cara, porque o conceito de uma história contada através da música só pode dar muito certo ou muito errado. Querendo ser positivas, nós da Capitolina decidimos fazer uma lista de alguns dos melhores musicais de todos os tempos. Os critérios da lista foram: 1. Ser maravilhoso; 2. Ter uma versão cinematográfica pra todo mundo poder ver em casa (afinal, não adianta nada a gente falar de The Book of Mormon ou Vale tudo se não temos a cultura de shows da Broadway, não é mesmo?).

1. Jesus Christ Superstar

Definitivamente o melhor musical que já foi produzido em todos os tempos, mas completamente ignorado pela crítica e pelo público depois de seu sucesso no início dos anos 1970. Minha missão nessa vida é fazer com que todas as pessoas se apaixonem por ele, que as músicas toquem nas baladas e que seja headcanon o ship Judas/Jesus (mas aqui já estou na digressão da digressão).

A história é simples: os últimos dias de vida de Jesus até sua crucificação.

A premissa é maravilhosa: Jesus foi o primeiro superstar a andar sob a Terra. Não tem como não amar, migas.

Se isso não foi o suficiente pra te convencer, o musical ainda contém: Judas mais revolucionário que Jesus; muitas referências à Bíblia de uma maneira daora; críticas ao que a religião se tornou; personagens principais não-brancos; Judas voltando dos mortos com um macacão branco cheio de franjas e decote em V perguntando pra Jesus porque ele não veio à Terra nos anos 1970; muitos dramas por causa da revolução; zoeira de melhor qualidade.

2. Rocky Horror Picture Show

Um clássico dos desajustados, Rocky Horror Picture Show é, via de regra, para todo mundo que não se sente representado pelas mídias, ou seja, é pra todo mundo. Rolou uma volta de Rocky Horror na cena alternativa aqui no Brasil por causa de As vantagens de ser invisível, mas nos EUA existe mesmo uma cultura de encenar o musical desde que o filme foi lançado, em 1975 (e apoio demais começarmos com esse hábito por aqui).

A história é simples: um casal virginal acaba parando num castelo onde Dr. Frank-N-Furter, alien que se identifica como travesti, está criando um homem artificial para fins sexuais. O casal acaba sendo seduzido por Frank-N-Furter e muitas coisas acontecem e é maravilhoso.

A premissa é maravilhosa: um ser não humano está construindo um homem artificial para sexo, migas.

Se isso não foi o suficiente pra te convencer, o musical ainda contém: Dr. Frank-N-Furter; Rocky com sua sunguinha dourada; muitas ligas; “Time Warp”; e se isso não te convence, não posso fazer nada, miga.

Uma questão importante, no entanto, Frank-N-Furter é interpretado por um homem cis, tem nome masculino e se apresenta de forma mais alinhada com a ideia de drag queens, e o uso do termo “travesti” no filme não se refere à identidade de gênero latino-americana de travesti; existem diversas críticas de mulheres trans ao filme, e uma nova versão do musical está em produção, com a atriz transexual Laverne Cox no papel, o que indica uma mudança de perspectiva em relação à personagem.

3. Hair

O clássico dos clássicos. O filme da galera de humanas. Você vai vender sua arte na praia depois desse filme. É todo o retrato de uma era, da Era de Aquário.

A história é simples: 1968, um cara sai da sua vida família brasileira (na verdade, estadunidense) e vai pra Nova York, onde encontra o coração do movimento hippie nova-iorquino. Daí ele tem que ir pra guerra do Vietnã.

A premissa é maravilhosa: mais um filme contando sobre os movimentos sociais dos anos 1960 nos Estados Unidos COM ROCK N’ ROLL E DANÇA.

Se isso não foi o suficiente pra te convencer, o musical ainda contém: anos 1960; roupas maravilhosas; sexo, drogas e rock n’ roll na medida que um musical hippie pode alcançar; as melhores músicas possíveis (sério, miga, AS MÚSICAS); protestos; críticas à sociedade da época (e, por tabela, à nossa sociedade); um dos primeiros elencos com mistura de pessoas brancas e não-brancas; psicodelia; muitos hippies, amor livre e alegria.

4. Hairspray

Se você ainda não viu esse musical, pare de ler essa lista neste momento e veja. Tem amor, tem luta, tem mulheres gordas arrasando no vocal, pessoas negras dando um banho em todo o resto dos branquelos, tem o melhor ensinamento sobre o amor depois da música dos Secos & Molhados. O musical em si vem lá do filme de 1988, depois virou musical da Broadway e, em 2007, rolou um remake com direito a John Travolta, Queen Latifah, Michelle Pfeiffer e Zac Efron que, olha, vale a pena.

A história é simples: uma garota gorda entra num programa de televisão famoso da cidade de Baltimore e, a partir daí, todos os preconceitos dessa sociedade vêm à tona, junto com as lutas pelos direitos civis de pessoas negras que rolaram nos anos 1960.

A premissa é maravilhosa: uma garota gorda que não aceita o que a sociedade impõe a ela e ainda briga com um otimismo admirável e altos passos dança.

Se isso não foi o suficiente pra te convencer, o musical ainda contém: novamente os anos 1960 arrasando; músicas maravilhosas incentivando as crianças a fazerem a lição de casa no ônibus indo pra escola e matar aulas; amor inter-racial; passos de dança maravilhosos que deviam voltar à moda; muito sobre movimento negro, a necessidade de sabermos nossas raízes e lutarmos por nosso povo; Queen Latifah diva eterna e John Travolta melhor mãe.

5. Tommy

Hair, Across The Universe, Rocky Horror, todos esses musicais têm sua psicodelia, mas por uma questão de coerência com o conteúdo. Tommy, por sua vez, não é assim. Tommy é a psicodelia mais psicodélica puramente por estética, por princípios que vão além da compreensão humana, por motivos de ser um musical de 1975 com todas as músicas tocadas pelo The Who.

A história é simples: um menino fica cego, surdo e mudo por causa das cenas horríveis que viveu na infância e, quando adolescente, se torna o maior campeão de pinball do mundo. Ele ganha fama e dinheiro e vira um símbolo de verdadeiro culto para as pessoas, que o viam como messias.

A premissa é maravilhosa: um menino cego e surdo que se torna campeão de pinball. Você não quer dar um beijo na pessoa que teve essa ideia? Eu quero.

Se isso não foi o suficiente pra te convencer, o musical ainda contém: muita, muita, muita psicodelia; The Who; efeitos dos anos 1970; muita loucura, num nível que nem sei explicar.

6. Amor, sublime amor (West Side Story)

Lembra o que falei sobre Hairspray? Pois bem, multiplica tudo por mil. O amor, as lutas, as injustiças sociais, a paixão de um casal destinado a sofrer. Agora, coloca tudo isso nos EUA dos anos 1950, onde ainda não havia movimentos sociais tão claros e o racismo corria solto. Sim, esse musical é um drama bem dramático, mas não por isso deixa de ser essencial. Você sente todas as dores e chora todas as mágoas que você nem sabia que tinha. Eu nem sou de drama, mas esse musical é maior do que uma questão de gosto humano.

A história é simples: um homem branco e uma mulher porto-riquenha se apaixonam nos Estados Unidos da década de 1950. Cada um pertence a uma gangue rival à outra e eles tentam superar essa rivalidade por causa de seu amor.

A premissa é maravilhosa: um Romeu e Julieta musical entre um branco e uma porto-riquenha participantes de gangues rivais nos EUA. Não tem como dar errado.

Se isso não foi o suficiente pra te convencer, o musical ainda contém: críticas maravilhosas ao processo de imigração nos EUA; muita crítica social; metade do elenco latino; 99% de chance de você morrer de tanto chorar.

7. A noviça rebelde (The Sound of Music)

Esse musical é tão famoso, que apenas gostaria de dizer que, uma vez, assisti ao filme com legenda em português de Portugal e eu juro por tudo que é mais sagrado na vida que a tradução de “Do Re Mi” era “dó espero que não tenham de mim/ ré como o carro anda pra trás/ mi é a metade da palavra milho” e, na parte do si, “si é como os espanhóis dizem sim”. Eu não sei vocês, mas adotei essa versão pra sempre.

A história é simples: uma moça que não serve pra ser freira vai parar numa casa de um homem viúvo e cheio de filhos para ensinar as crianças. Elas acabam mostrando que são todas excelentes cantoras, o pai se apaixona pela moça e todos fogem do nazismo cantando pelas colinas.

A premissa é maravilhosa: entre rigor militar e a música, ganha azarte.

Se isso não foi o suficiente pra te convencer, o musical ainda contém: uma quantidade bizarra de cenas de pessoas cantando pelas colinas; músicas excelentes; a música como forma de liberdade e educação (mas, calma, vamos falar sobre isso mais pro fim do mês aqui na Capitolina); Julie Andrews novinha cantando e sendo sempre impecável; você aprende a falar “adeus” em várias línguas.

8. Sweeney Todd: o barbeiro demoníaco da Rua Fleet

Fiquei muito na dúvida sobre colocar ou não esse musical, porque a música da Johanna é simplesmente insuportável e vai ficar na sua cabeça pro resto da sua vida e toda vez que busquei uma única música pra colocar aqui achei tudo igual. MAS fui rever o filme e é de um humor tão sombrio e um piegas tão tosco que achei que valia colocar na lista. Pelo menos pela piadinha sobre o elenco que farei mais pra frente.

A história é simples: um antigo barbeiro volta a Londres depois de quinze anos e descobre que sua esposa e sua filha foram violentadas. Jurando vingança, ele volta à profissão de barbeiro e usa disso para matar pessoas. Para esconder o crime, os corpos são triturados e a carne humana é usada nas tortas da loja da mulher que o acolhe.

A premissa é maravilhosa: vender tortas de carne humana e isso fazer sucesso. Tudo isso cantado.

Se isso não foi o suficiente pra te convencer, o musical ainda contém: Snape (Alan Rickman) e Rabicho (Timothy Spall) fazendo complô contra Johnny Depp a ponto que ele acaba com a Bellatrix Lestrange (Helena Bonham Carter); muitas gargantas cortadas; tortas que parecem deliciosas mesmo você sabendo que são feitas de carne humana; estética Tim Burton do humor e pieguice da zoeira.

9. Grease

Admito que minha empreitada nos musicais começou com High School Musical, nos idos 2006. Mas logo depois, minha mamãe maravilhosa me disse que na mesma onda amor ~impossível~ de escola, mas muito mais maneiro e descolado, existia Grease. Então, com meus doze anos, aluguei o DVD na locadora perto da minha escola e, bom, nem preciso dizer que me apaixonei, né?

A história é simples: garanhão da escola e menina virginal se apaixonam nas férias antes de descobrirem que estudam no mesmo colégio e, por causa das diferenças entre seus amigos, eles têm dificuldade de assumir o amor um pelo outro.

A premissa é maravilhosa: história mais batida da vida agora também em um musical com o John Travolta e Olivia Newton-John!

Se isso não foi o suficiente pra te convencer, o musical ainda contém: John Travolta com seus melhores passos de dança; rock n’ roll fim dos anos 1950; as primeiras gangues de escola que você realmente gostaria de fazer parte; lições batidas sobre ser quem você é; mais tretas do que você pode imaginar; músicas e coreografias perfeitas; racha de carro sem muito motivo.

10. A noiva cadáver

Caros defuntos, a sua atenção: dois Tim Burtons são demais da conta pra uma lista só, concordo, MAS ESSE FILME, GENTE. ESSE FILME. É diferente de tudo, é maravilhoso, mesmo que você não goste de Tim Burton, veja pelo menos esse filme. E pode ver em português, porque a tradução tá maravilhosa. Sério, confia em mim nessa.

A história é simples: um cara é prometido para casar com uma garota que ele não conhece, mas acaba casando por engano com uma cadáver que foi assassinada no dia do seu casamento e é levado para o submundo dos mortos, onde todos são muito animados. Ele faz um plano para escapar, mas a noiva cadáver é realmente um amorzinho.

A premissa é maravilhosa: um vivo em um mundo morto casando com uma morta em um mundo vivo e todos cantando sobre isso.

Se isso não foi o suficiente pra te convencer, o musical ainda contém: personagens muito queridos que dá vontade de colocar no colo; músicas MARAVILHOSAS; esqueletos zoeiros cantando blues.

11. Mogli

Vocês podem falar o que quiserem de Rei Leão, mas esse musical nunca entrará na minha lista. Elton John não dá, migas. Em compensação, para não deixar a Disney de fora, apresento a vocês um dos melhores musicais que não sei por que raios é tão esquecido se é tão maravilhoso.

A história é simples: na Índia, um menino é criado na selva por uma pantera e um urso e agora está sendo obrigado a ir em busca de civilização, mesmo não gostando muito da ideia. No caminho, porém, ele passa por diversas ameaças.

A premissa é maravilhosa: clássico menino lobo em desenho animado com músicas!

Se isso não foi o suficiente pra te convencer, o musical ainda contém: Balu ensinando comunismo pras crianças; macacos cantando blues; Phil Harris na voz do Balu; a tradução MARAVILHOSA que usa palavras como “pimpolho”, “profusão” e “angu” na mesma música.

12. A pequena sereia

O musical que mostra que homem é lerdo e que você que tem que se movimentar pra fazer as coisas acontecerem. Finalmente! Ele existe! E se chama A pequena sereia!

A história é simples: uma sereia se apaixona por um humano e, para conseguir conquistá-lo, faz um acordo com uma bruxa trocando sua voz por pernas. Ela tem poucos dias para fazer o humano se apaixonar ou então virará espuma do mar.

A premissa é maravilhosa: uma sereia decide conquistar um príncipe, um musical com a protagonista muda por metade do filme.

Se isso não foi o suficiente pra te convencer, o musical ainda contém: “SHA-LA-LA-LA VAI NÃO VAI OLHA O RAPAZ NÃO VAI E VAI PERDER A MOÇA” é tudo o que sempre quis cantar pros caras que fui afim e aposto que você também; Úrsula melhor bruxa explicando direitinho como funciona o patriarcado; novas ideias para se usar um garfo; nenhuma música ruim (nenhuma!!!!!).

13. Fame

Outro musical que ficou perdido entre o mundo dos musicais, mas que vale TANTO que nem sei lidar. Dica: veja o filme dos anos 1980, por motivos de Irene Cara deusa.

A história é simples: oito adolescentes querem ir pra faculdade de artes performáticas e nós acompanhamos seus dramas e dificuldades COM MÚSICA.

A premissa é maravilhosa: BABY, REMEMBER MY NAME! FAME! I´M GONNA LIVE FOREVER!

Se isso não foi o suficiente pra te convencer, o musical ainda contém: veja o clipe, se isso não te convence, nada pode te convencer.

14. Across The Universe

Se você não gosta de Beatles, pula esse. Mas se você gosta deles e dos anos 1960, abraça de corpo e alma – esse musical é pra você! Dá pra brincar de descobrir as referências dos nomes de todas as personagens nas músicas, dá pra comparar Sadie e Jo-Jo com Janis Joplin e Hendrix, dá pra obter resultados lisérgicos sem uso de psicotrópicos (não usem psicotrópicos, migas, não é bom, não).

A história é simples: anos 1960, inglês vai para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor e acaba caindo no meio da cena hippie norte-americana. Enquanto tenta construir sua vida em outro país, ele vê seus novos amigos sofrendo as diferentes opressões do governo e, com isso, todos se juntam aos movimentos sociais da época.

A premissa é maravilhosa: vamos pegar um punhado de músicas dos Beatles e criar uma história com isso? Vamos.

Se isso não foi o suficiente pra te convencer, o musical ainda contém: “I Want You”; “Strawberry Fields Forever”; uma estranha aparição do Bono cantando “I Am The Walrus”; Jim Sturges no papel principal; Sadie e Jo-Jo melhor casal; Beatles rainha, Rolling Stones nadinha (não, pera…); um bom resumão dos movimentos sociais dos anos 1960.

15. Mamma Mia!

Na mesma onda de musicais com músicas de uma banda, Mamma Mia! é a compilação das melhores músicas do ABBA. É claro que, se você odiar ABBA, você vai odiar o musical. MAS se você gosta da banda ou é indiferente a ela e gosta muito de ser feliz, faça um favor a você mesma e veja esse musical. É tanta felicidade que só de pensar nisso a sala da minha casa se iluminou.

A história é simples: uma noiva resolve descobrir quem é seu pai às vésperas de seu casamento e sua mãe pira com isso enquanto todos cantam ABBA sem motivo algum.

A premissa é maravilhosa: vamos pegar as melhores músicas do ABBA e criar uma história com isso? Vamos.

Se isso não foi o suficiente pra te convencer, o musical ainda contém: Meryl Streep linda cantando ABBA; Amanda Seyfried linda cantando ABBA; Colin Firth fofo cantando ABBA; Pierce Brosnan ganhou Framboesa de Ouro por sua atuação horrível e, portanto, maravilhosa; cenas lindas das ilhas da gregas; muitas pessoas cantando felizes.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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