19 de abril de 2018 | Ano 4, Edição #44 | Texto: | Ilustração: Natália Shiavon
OS MISTÉRIOS DO PLANETA: TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO DO SÉCULO 3 AO 21

Existem alguns acontecimentos que já nascem misteriosos: em 1996, três meninas viram, em uma cidade de Minas Gerais, uma criatura de olhos vermelhos que não era nem humana nem animal. Assim começava a história do ET de Varginha, a qual seria contada e interpretada de muitas maneiras por diferentes interessados. Para os militares que depuseram oficialmente, tratou-se apenas de uma confusão causada pela chuva. Para ufólogos de várias partes do mundo, foi um caso de contato extraterrestre que resultou na captura dos visitantes, levados para serem estudados em laboratórios nacionais. Para os mais conspiradores, as Forças brasileiras teriam sequestrado o ser de outro mundo e o enviado à NASA como forma de barganha (em retorno, o primeiro brasileiro seria mandado ao espaço).

Não é raro, contudo, que, questionando a lógica científica ou a opinião popular, grupos levantem dúvidas conspiratórias acerca de episódios históricos aparentemente nada ambíguos. É clássica a disputa quanto à veracidade da ida do homem à lua. Dentre os argumentos mais clássicos, estão a inviabilidade de a bandeira tremular, como registrado em fotos, em um ambiente sem atmosfera (ou seja, sem ar); a existência nas imagens de sombras em direções distintas, sendo que na lua há apenas uma fonte de luz (o sol) e a impossibilidade de vermos atualmente da Terra, mesmo com equipamentos potentes, as tralhas que teriam sido deixadas para trás pelos astronautas  (a bandeira, instrumentos, um módulo lunar). Para os teóricos da conspiração mais radicais, no desespero por ultrapassar a Rússia na corrida espacial, os Estados Unidos teriam providenciado que o ilustre diretor Stanley Kubrick (o mesmo de 2001: uma odisseia no espaço e Laranja mecânica) filmasse a missão lunar em um deserto.

Muitas desconfianças rondam também a vida e a morte de celebridades e personalidades históricas. Há quem ache que Michael Jackson não morreu, e outros conseguem apontar várias evidências de que Paul McCartney já não se encontra entre nós há muito tempo e foi substituído por um sósia. Mais um nome famoso, cuja única coincidência com os cantores citados é estar envolvido em uma teoria da conspiração, se envolve nessas especulações: foram registrados depoimentos de várias pessoas que teriam visto Hitler vivo na América Latina, para onde teria fugido depois do fim da Guerra. A versão oficial conta que o líder nazista se suicidou com uma capsula de cianureto e que seu corpo foi queimado por subordinados para não deixar vestígios. Apesar dos argumentos que contrariam o suicídio (como uma foto do suposto Adolf junto a uma esposa brasileira), nada nunca ficou comprovado. É fato, entretanto, que outros nazistas dados como mortos estavam muito vivos e, após assumirem novas identidades, continuaram impunemente perambulando pelo mundo. Foi o que aconteceu com Josef Mengele, integrante do exército antissemita, que foi tido como morto após 1945 e veio parar no Brasil, tendo sua identidade revelada apenas por ocasião de sua morte real. Há outros casos semelhantes já comprovados por várias cidades da América Latina.

Uma teoria da conspiração contemporaneíssima diz que o Facebook teria sido financiado pela CIA com a finalidade de repassar a ela dados dos usuários. Se por um lado é difícil de acreditar que o governo estadunidense estaria interessado em nossas vidinhas banais, por outro, atire a primeira pedra quem nunca se sentiu vigiado pelo computador ou pelo celular. E, afinal, nossas bandas favoritas e nosso histórico de conversas podem não ser muito significativos para ninguém além da(o)s crushes, mas em pleno ano de 2018 grandes líderes de Estado e criminosos perigosos também estão online. Vamos torcer para que as atenções estejam voltadas para essas pessoas, e não para a nossa intimidade.

As teorias da conspiração datam de muitas décadas. Já no século III havia defensores de que Jesus teria se casado com Maria Madalena. De lá para cá, tivemos tempo para criar e questionar muitos eventos. Essa prática mostra que somos curiosos, inventivos e que aspiramos por pensar de modo independente. Mas, mais que isso, nos ensina algo valioso: uma mesma história pode ser contada de diferentes maneiras. Quem interpreta, narra, repagina uma história o faz a partir de uma visão particular, que não é única, e de interesses específicos. Por isso, sejamos todas um pouquinho conspiradoras e desconfiemos das histórias que são propagadas por aí como verdades absolutas. Manter os olhos atentos ao mistério pode nos ajudar a descobrir novas versões do mundo.

Leandra Postay
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Sociedade

Leandra Postay é capixaba nascida e criada no mar. Mora em SP e estuda literatura brasileira, pesquisando sobretudo patriarcalismo e violência. A única coisa que sempre quis e continua querendo é escrever. Aprende muito com os livros, mas aprende mais com a yoga e a cozinha. Acredita que um mundo melhor começa dentro de nós.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos