11 de dezembro de 2014 | Artes | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
Os museus e as mulheres

Não é novidade pra ninguém que, desde sempre, os pintores, escultores e outros artistas plásticos sempre deram atenção especial para o corpo feminino. Seja nas esculturas da Grécia Antiga ou nas pinturas renascentistas, uma série de estereótipos de mulher-modelo, mulher-musa, foi propagado pelas artes visuais. Acontece que essa posição da mulher dentro da arte também dita as relações entre as mulheres e os museus.

Quando pensamos em quadros ou esculturas mais conhecidas, podemos citar a Mona Lisa de Leonardo da Vinci, a Vênus de Milo da Grécia Antiga, a Moça com o brinco de pérola de Vermeer, o Nascimento de Vênus do Botticelli, a Liberdade guiando o povo de Delacroix, ou outras várias obra de mulheres retratadas por homens. Não há, nas pinturas e esculturas mais conhecidas, o reconhecimento de mulheres que pintavam.

Existe um video que andou circulando pela internet que demonstra muito bem qual o papel da mulher dentro da arte. Nele, uma série de retratos femininos de diversas épocas acabam por definir e ilustrar como a mulher é vista nesse mundo artístico, que é opressor, ainda que de forma mais disfarçada. O Museu Nacional da Mulher na Arte (NMWA) de Nova Iorque divulgou que, na edição atual do livro “História da Arte”, de H.W. Janson, utilizado por muitos educadores, professores e doutores, apenas 27 mulheres artistas são representadas e, pasmem, na edição de 1980 não há nenhuma citação.

Na Arte Moderna já podemos achar casos onde mulheres conquistaram seu espaço dentro da arte – sempre com muita dificuldade, é importante pontuar. Lee Krasner, por exemplo, conhecida também como a viúva de Pollock, teve seu trabalho desmerecido por tratar-se de um expressionismo abstrato semelhante ao do marido. O livro “The Guerrilla Girls’ Bedside Companion to the History of Western Art” chama atenção para uma citação de Hans Hofmanns destinada a Krasner: “This is so good you wouldn’t know it was done by a woman” (tradução: Isso é tão bom que você não saberia que foi feito por uma mulher).

Imagem: Guerrilla Girls

Imagem: Guerrilla Girls

O grupo Guerrila Girls dos EUA publicou em 2012 um pôster mais recente divulgando que, dentro da sessão de arte moderna do Museu Metropolitano de Nova Iorque, menos de 4% dos artistas são mulheres. Ao mesmo tempo, 76% dos nus são femininos. Ou seja, existe um grande problema dentro dessas instituições de arte, que mantém o pensamento de que o corpo feminino só é aceito quando nu, quando objeto artístico.

O questionamento da posição e do papel da mulher – bem como de todas as outras minorias – dentro dos museus é inevitável. Mas ainda existe uma falta de preocupação da indústria artística acerca dessa problematização. Aqui na Capitolina já publicamos alguns textos legais sobre mulheres artistas: sobre artistas negras, sobre artistas contemporâneas, entre outras matérias imperdíveis.

Para além das mulheres como artistas, essas instituições não são desiguais só a nível de produção: na hora de administrar também podemos ver uma desigualdade massante. Segundo o relatório da Associação de Diretores de Museus de Arte, publicado esse ano, apenas 24% dos maiores museus  e instituições culturais dos EUA e Canadá são dirigidos por uma mulher.

Para as mulheres curadoras, acaba sobrando de alternativa, por exemplo, começar a trabalhar no meio da curadoria independente. Podemos citar a Beatriz Lemos, que tem uma entrevista muito interessante na plataforma Mulheres na Arte Contemporânea e ministrou uma oficina de curadoria chamada “O circuito de arte e as estratégias de atuação: mapeando o meio profissional da arte”.

Ao pensar nos museus e nas instituições culturais esquecemos de debater a desigualdade de gênero propagada por esses espaços. A escolha de deixar quadros de artistas mulheres guardados e não expostos, ou de contratar mais homens para cargos administrativos são só alguns dos exemplos que evidenciam esse problema. E isso precisa mudar, porque nós também queremos e podemos caber no mundo das artes.

Gabriela Sakata
  • Ilustradora
  • Colaboradora do Tecnomanícas
  • Colaboradora de Artes
  • Colaboradora de Poéticas
  • Audiovisual

Gabriela, 24, moro em São Paulo/SP. Gosto de assistir documentários e umas bobagens no Netflix, ficar no Tumblr e assistir videos no Youtube. Além disso adoro achar músicas novas pra escutar, conversar sobre política, jogar Age of Empires ou Sims e ler teorias da conspiração. Estou cursando Artes Visuais e tenho um instagram com minhas ~~artes~~ (@bbbibilandia).

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