4 de maio de 2015 | Edição #14 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Os universos que construímos

Com a ajuda do pensamento, os espaços perderam totalmente a sua materialidade. O homem é capaz de construir o seu próprio espaço apenas com o poder da mente. Independentemente de eu estar no meu quarto ou dentro de um ônibus a caminho da escola; o espaço externo está lá fora, o espaço de dentro, aqui, comigo. Basta fechar os olhos, por exemplo, e posso ver na minha frente um castelo enorme, um lago com cisnes, palmeiras, cigarras cantando. Nós, humanos, temos o privilégio de poder edificar nossos próprios mundos sem precisar enxergar, cheirar ou tocar qualquer objeto. Podemos construir universos inteiros apenas com o pensamento.

A literatura surgiu como uma ferramenta excelente para perpetuar esses pensamentos íntimos e criativos. E foi assim, lendo o mundo de outras pessoas, que nós conhecemos Nárnia e seus animais falantes e paisagens incríveis; a Terra Média e suas casinhas de Hobbits, os castelos dos elfos, com sua beleza espetacular; o País das Maravilhas de Alice e o seu universo virado de ponta cabeça. O que seriam dessas histórias se elas não se passassem em cada um desses lugares inventados?

Um dos primeiros registros de mundos imaginários encontrado na literatura foi escrito em 1516, um livro chamado Utopia, por Sir Thomas More. Em Utopia, nós acompanhamos a criação de uma sociedade perfeita localizada numa ilha no Oceano Atlântico, onde tudo dá certo e todo mundo vive contente e em harmonia. O livro deu origem ao significado da palavra como nós a conhecemos hoje: um lugar ideal. Porém, nem todos os lugares imaginários retratam lugares perfeitos. Há universos literários que podem ter uma similaridade muito grande com o nosso mundo aqui na Terra.

Esse é o caso de Hogwarts, por exemplo. O mundo mágico criado por J.K. Rowling é, com certeza, o favorito de muita gente. Diferente de muitos universos literários, Hogwarts está localizada no planeta Terra, porém, é impossível de ser encontrada por pessoas comuns devido à grande quantidade de feitiços utilizados para escondê-la. A escola foi criada para humanos que nasceram com poderes mágicos terem um lugar para aprender a utilizar a sua magia. Os habitantes da Inglaterra nascidos com poderes mágicos receberiam, eventualmente, uma carta da escola aos onze anos de idade. Hogwarts, porém, apesar de aparentar ser um universo incrível, está longe de fazer parte de uma sociedade utópica. Quem acompanhou a saga de Harry Potter sabe bem os perigos e cuidados necessários para viver no universo mágico.

Outro universo literário que me impressionou muito foi o universo de Coraline, presente no livro escrito por Neil Gaiman. Quando li essa fábula de terror pela primeira vez, fiquei com o mundo paralelo da Outra Mãe de Coraline na cabeça por dias. O Outro Mundo é um lugar teoricamente utópico: seus brinquedos são mais divertidos, seus pais mais interessantes e legais, os gatos até falam coma as pessoas! Coraline, porém, logo descobre que esse universo maravilhoso não é tão maravilhoso assim; na verdade, ele é bastante assustador e horrível. O universo criado no livro de Gaiman mostra que mundos imaginários nem sempre serão bons e agradáveis (apesar de eu, pessoalmente, gostar de imaginar os meus mundos sempre como cópias melhoradas da realidade).

Os universos paralelos da literatura podem ser imaginários e inexistentes mas, de uma maneira ou de outra, sempre refletirão um pouquinho da realidade e do universo externo do autor. Muito daquilo que imaginamos é um reflexo do mundo ao nosso redor. Por mais imaterial que sejam, os universos literários têm um pezinho na realidade material: é a partir da nossa impressão de espaços físicos, presenciados ou não, que construímos nossos pequenos universos artificiais.

Dora Leroy
  • Coordenadora de Quadrinhos
  • Ilustradora

Dora Leroy tem 21 anos e acredita que o universo é grande demais para não existir outras formas de vida inteligente por aí. E, enquanto espera uma invasão alienígena acontecer, gosta de ler livros que se passam em universos mágicos e zerar séries do Netflix.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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