29 de outubro de 2017 | Ano 4, Colunas, Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração:
Pais Solteiros
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Eu me lembro das vezes em que segui esperando. E esperando. E esperando. E esperando. Era uma espera eterna, por algo que não chegaria. Minha mãe segurava o próprio choro e a sensação de decepção, sentindo uma culpa (que ela sequer carregava) por pensar que havia escolhido o pai errado para sua filha. Eu, criança, não entendia porque após uma semana criando expectativas com a visita do meu pai, ele não chegava no momento em que prometia. Muitas vezes, ia para a cama chorando, engolindo o sentimento de amor, esperança e ansiedade que eu havia construído ao longo dos dias. Vivenciando a frustração de, mesmo tendo contado até as horas que faltavam, me comportado “bem” e esperado o momento certo chegar, não havia recebido a recompensa final. Minha mãe, até o último minuto, me falava que ele ia chegar, já sabendo que muito provavelmente ele nem viria. “De novo”, ela pensava, engolindo a decepção pelo voto de confiança que ela resolveu dar, mas que no fundo ela bem sabia qual seria o resultado. Meu pai marcava as horas e não vinha. Ligava uma vez a cada dois meses para me animar e preparar para a visita. E não vinha. Quando vinha, fazia, sim, eu me sentir em boa companhia, mas de que adiantava se eu esperava e desejava aquela companhia mais presente? E ela era tão de vez em quando, sem seguir nenhuma lógica.

E essa é a realidade de boa parte das famílias brasileiras. Uma mãe que poderia apenas ter ganhado a responsabilidade de cuidar do próprio filho, mas que junto veio também a necessidade de lidar com um pai ausente, que não cumpre seus prometidos, que não participa, que não faz sua parte.

Ter que lidar com um pai ausente cria uma série de sentimentos e crenças na cabeça de uma criança. A criança, que ainda está se formando enquanto indivíduo, pouco entende sobre o mundo que a rodeia, ao mesmo tempo em que procura entender e caracterizar tudo que acontece. Sendo assim, uma série de leis e concepções sobre o mundo vão sendo formadas a partir de suas experiências.

Para nós, adultos, é mais fácil pensar que existem coisas que são apenas sentimentos e outras que são paranoias da nossa cabeça, ou que algumas questões internas não são parte da realidade. Mas, para a criança, aquilo que ela sente e pensa é tão real que por vezes fica difícil suportar.

Como as crianças estão acostumadas a ouvir que não devem participar das conversas e ambientes de adulto, por vezes elas sentem que não são bem-vindas ou que atrapalham, e muitas vezes não encontram nas pessoas um ponto de apoio para poder confirmar suas crenças. Vão crescendo sem referência de que o que sentem faz parte delas, mas não define exatamente quem são. Cria-se então uma confusão e uma mistura grande com os conteúdos internos – o que não é necessariamente um problema; só que não havendo o apoio de nenhuma pessoa de fora, que tem maiores recursos para encarar e enfrentar a realidade, dá margem a várias distorções sobre o mundo e sobre si.

Então, imagina o que se forma na cabeça de uma criança de acordo com a concepção de “pai” que a gente tem na sociedade brasileira atual. Pelos comerciais, pai é o cara que tá sempre do lado, cuida, dá carinho. É o cara que dá regras, limites, que detém a razão. É o cara que a gente confia, ao qual a gente recorre. O cara forte, o cara sensato, o cara maduro. A mídia mostra o pai desse jeito. E nos remete à ideia de que “pai” é isso. São modelos que nos são apresentados desde pequenos, que vão formando a nossa ideia do que deveria ser um pai.

O que acontece depois é que os pais reais, aqui da nossa sociedade, não representam esse ideal. Nem mesmo os pais participantes dão conta de serem essas figuras. Pensando numa sociedade em que a maioria dos pais é ausente, ou formam outras famílias nucleares e abandonam as anteriores, ou não assumem seus filhos: como fica a cabeça de uma criança que constrói expectativas de um pai que ela vê no comercial, mas recebe o pai que tem? Que não vem quando combina e a deixa esperando? Que não serve como base de apoio? Que não passa confiança?

É só se lembrar de quando você era criança e como qualquer coisa servia para você pensar que sua família te abandonaria, que você não era importante, que você seria deixada sozinha e que você correria riscos. O medo na infância é constante. Não que o medo não seja constante o tempo inteiro, ele faz parte da vida humana, mas quando adultos sabemos lidar melhor e entendemos que ele pode aparecer tantas e tantas vezes.

Uma criança vivencia a maior parte de suas sensações pelas primeiras vezes e, sendo assim, acredita que nunca sairá daquele estado. Tem medo de morrer, tem medo de ser abandonada, tem medo de estar sozinha, tem medo da vida. Claro… é só pensar em perspectiva. As pessoas são gigantes para uma criança, as coisas são enormes para uma criança. A vida é gigantesca na perspectiva de uma criança. E o fato dela se sentir desprotegida é evolutivo, porque ela de fato não consegue se proteger do mundo e depende de outras pessoas para isso.

Um pai que diz que vem mas não chega consegue passar para a criança uma série de questionamentos sobre ela ser ou não amada e suficiente. Ao invés de centralizar o pai, considerar que foi uma atitude dele, ela costuma direcionar para si (porque, até antes dos 7 anos, ela se centraliza e se considera o centro do mundo, é depois disso que ela passa a incorporar a ideia de sociedade e convivência). Ela pensa “o que eu fiz pra ele?” “não sou amada” “irritei ele” e por aí vai. O que, para ela, vai sendo confirmado cada vez que sente ele se afastando mais. Sendo assim, o mundo vai sendo visto como oferecedor de uma base insegura. Ainda mais quando a sua mãe, que é a única responsabilizada pelos cuidados, sustento e por uma série de necessidades da criança e suas próprias, não dá conta de oferecer uma base constantemente segura aos seus filhos (porque ela, antes de tudo, também precisa desse apoio).

É aí que mora o caos. A gente, filha de pai ausente, vai crescendo desconfiando de si, desconfiando do amor, desconfiando da segurança e honestidade do mundo. Principalmente porque nossas pessoas de referência (aquelas com as quais convivemos no início da vida) nos passam uma série de conceitos sobre como a vida funciona. E esses conceitos são mais internalizados à medida que acompanham o exemplo (então não adianta nada falar X e fazer Y, o Y é mais validado porque é visto acontecendo).

E então? O mundo é esse lugar que te promete as coisas e não cumpre, esse lugar que fala que te ama, mas não parece produzir sentido nesse amor que é visto poucas vezes; um amor que não mantém contato, um amor que não convive muito, um amor que não tem coerência. O mundo é esse lugar em que você se sente constantemente abandonada e culpada. E isso, ao longo da nossa vida, só vai sendo reforçado pela sociedade machista.

E agora? Sou filha de pai ausente e, por isso, minha vida tá acabada? A boa notícia é que não. Sempre existe e sempre vai existir a forma com a qual a gente lida com esses sentimentos, que é o que realmente vai definir os próximos caminhos. Sempre há tempo para olhar pra si e perceber as origens das suas crenças e sentimentos ruins (as questões da infância que fizeram aquilo começar) e, a partir de então, acolher o fato de que um dia você se sentiu daquele jeito, reconhecendo que houve razões muito profundas para que isso se formasse. Assumindo que a culpa não é sua, tendo em vista que você era criança. E, a partir desse momento, se apropriando da própria vida.

Você não precisa ser o resumo das suas experiências passadas. Se o mundo não é um lugar seguro e você chegou até aqui é porque você é sua própria segurança. Se o mundo te deu sinais de que você não era amada, esse amor não precisa depender de fatores ou pessoas externas, mas pode ser recuperado dentro.

Dê-se a liberdade de entregar a si o amor que você mereceu desde pequena. Não falte com seus próprios compromissos. Não se deixe esperando por muito tempo, vá ao encontro de si mesma. Vá a lugares nos quais você se sinta bem. Faça coisas que te deixem confortável. Conheça a si mesma e vá de encontro a aspectos que te façam sentir cada vez mais amada. O amor não precisa vir de fora, ele está dentro. E o fato dele não ter vindo de uma maneira mais positiva na infância é apenas um aspecto importante da sua história, mas jamais uma definição do seu caminho daqui pra frente.

É claro que os pais precisam ser mais presentes e formarem bases sólidas aos seus filhos. Acredito que estamos vivendo mudanças nesse cenário a partir do reconhecimento do que acontece. E acho que é, sim, responsabilidade dos pais desse mundão assumir mais a missão e mudar esse machismo existente na sociedade; que faz com que eles não assumam as responsabilidades de seus filhos e, assim, afetem mães e crianças em suas formações e direitos.

Então, eu quero que você sempre se lembre de que seu pai é UM DOS homens que “participa” (nos termos dele) da sua vida, isso é fato, mas ele não é “O HOMEM DA SUA VIDA”. A única “PESSOA DA SUA VIDA” é você mesma. E você já aprendeu e vive aprendendo a sobreviver a tudo aquilo que o machismo te deu de marcas. As marcas te fazem mais forte, mais madura, mais sua. E a partir do momento em que você se enxerga como sua nascem possibilidades de criar a própria felicidade e depender menos do externo e mais daquilo que vem de dentro. Tá tudo bem agora, você cresceu, e você é sua própria fonte de amor. Nada mais tem o poder de te machucar igual quando você era criança.

 

Karoline Siqueira
  • Colaboradora de Saúde

Estudante do ultimo ano de Psicologia, no interior de SP. É mãe solo de um bebêzinho de 8 meses, trabalha, estuda, escreve e CORRE MUITO na vida. Gosta de falar sobre temas que envolvem a maternidade real, pra desmistificar um pouco essa coisa mágica em torno da maternidade, e de questões que envolvem a área da saúde psicológica. É feminista interseccional e tenta, dentro das possibilidades com o bebê, participar dos grupos e eventos que envolvem sua militância (também gosta de discutir o espaço materno dentro do feminismo). Foi mãe jovem, engravidou com 21 anos e ainda estudando, então tenta formar ao máximo uma figura de apoio à jovens mamães, provando que mesmo nas maiores adversidades, respeitando a própria vontade e intuição: é sim possível. Também gosta de dançar, de ler, de Beyoncé, gatos e chocolate.

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