9 de junho de 2015 | Ano 2, Edição #15 | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
As palavras dizem tanto: um texto sobre discurso, mídia e poder

Quando decidi estudar Letras, não sabia direito o que queria. Mal sabia que iria fugir um pouco do meu foco na literatura e me interessar tanto por uma área bem diferente, dentro da linguística: o discurso. Fui para esses cantos porque a linguagem é muito poderosa, e estuda-la me pareceu um bom mecanismo para que eu entendesse como é o uso deste poder e quais suas funções, seus alcances, suas dinâmicas. Ainda estou aprendendo, é claro – e ainda bem! -, mas penso que não era possível falarmos de linguagem nesta edição sem tocarmos no assunto do discurso, porque falar de discurso é, no fim, falar do mundo em que vivemos.

Explico. É através da linguagem que nos comunicamos e, mais do que isso, formulamos, reiteramos ou contrariamos ideias – cujas práticas costumam ser discursivas.

Temos na nossa cabeça a ideia de que discurso é apenas aquele falado por políticos e outras personalidades, durante momentos solenes – a posse da presidenta ou a entrega do Oscar, por exemplo. Esses também são discursos, evidentemente, mas discurso é ainda mais do que isso: está presente em textos (lembrando que texto não é apenas aquele escrito no papel, e sim o produto da comunicação como um todo) demarcando representações e significações do mundo. Segundo Fairclough, um importante teórico da Análise Crítica do Discurso, “o discurso é formado por relações de poder e investido de ideologias”. Ou seja, o discurso é responsável por manter ou negar a estruturação da sociedade em determinados aspectos – mas não é o único responsável, importante lembrar. A partir desses pensamentos todos, podemos concluir: as teorias sobre o discurso nos mostram que o mundo e a linguagem não estão dissociados, mas sim diretamente interligados, e que portanto a influência em um altera os resultados do outro e vice-versa.

Não é lindo tudo isso? Eu particularmente acho incrível. Porque é essa linha de pensamento a chave para entendermos diversas outras complexidades e para identificarmos quais as suas influências na nossa sociedade e nas nossas vidas. Para nós, meninas, então, é mega relevante, porque nos ajuda a expor o poder do patriarcado e algumas de suas formas de espalhar o machismo por aí – muitas vezes, entre nós mesmas. É importante então levantarmos algumas questões – sempre, para todas as coisas, é importante levantar questões, senão acabamos colocando pontos finais em assuntos que são inesgotáveis. Vamos lá.

 

Que mundo é esse em que vivemos?

Aqui no Brasil, nossa sociedade funciona a partir da junção do capitalismo, do patriarcado, do racismo e de outras opressões deles decorrentes, como a lesbo/bi/homofobia e a transfobia. O comportamento das mulheres é, portanto, moldado desde muito novas, com imposições e limitações muitas vezes moralistas sobre nossos corpos, sexualidades e possibilidades. A exposição midiática, que segue majoritariamente apenas um ponto de vista – o dominante – é uma das colaboradoras deste mundo como ele é.

Mulheres sexualizadas na televisão, na música, na cultura como um todo, para o prazer masculino; o reforço sobre o estereótipo das mulheres interesseiras, golpistas, histéricas e sem noção; a noia de que mulheres devem buscar seus príncipes encantados (ah, a heteronormatividade!) e, se algo der errado, a culpa é delas; a magreza branca, quase pálida, dos exemplos de princesas, modelos, protagonistas e mocinhas no geral, com corpos irreais que não correspondem à negritude do nosso país e à multiplicidade de formas dos corpos das mulheres.

A atribuição de todos esses estereótipos (e de um milhão de outros) é fruto da ideologia hegemônica, ou seja, dos pensamentos dominantes em nossa sociedade, que… adivinha? É machista, racista, lesbofóbica e transfóbica, e não em poucas proporções, não. Ao mesmo tempo em que as mídias reproduzem estes discursos porque o mundo é assim, também o mundo segue assim porque estes discursos ajudam muito a mantê-lo como está.

 

A mando de que forças e ideologias está a comunicação hoje?

A comunicação hoje em dia não é livre nem independente. Pelo menos não a grande comunicação. Este poder é mantido por empresas capitalistas que unem o útil ao agradável: lucrar, ao mesmo tempo em que promovem discursos estagnadores, que ajudam a manter todo mundo quietinho sem reclamar. Estas empresas, é claro, são majoritariamente dirigidas por homens brancos heterossexuais da elite. No Brasil inteiro, a grande mídia é praticamente toda controlada por apenas onze famílias. Sim, onze famílias ricaças que se utilizam de suas ferramentas, seus poderes (e, bom, de concessões públicas) para divulgar informações da maneira que bem entendem.

 

E o que fazemos?

Resolve apenas mudarmos a direção destas empresas para pessoas que não detenham todos estes privilégios? Acho que não. A representatividade é importante sim, mas a mudança do discurso é absurdamente urgente. E a democratização da comunicação também, para que nós, que não somos homens-brancos-hétero-ricos tenhamos voz a partir de um novo modelo de comunicação, que abranja as nossas vivências, nossas demandas, que nos ajude a construir o mundo que queremos.

Se botarmos a mão na massa, falarmos por nós mesmas, trocarmos nossos conhecimentos, informações e experiências de uma forma feminista, já estaremos colaborando. Se, ao invés de só ouvirmos a grande mídia, procurarmos as mídias alternativas e independentes, também estaremos mostrando quais discursos nós achamos que valem a pena ser espalhados. E o que é a Capitolina senão o exemplo disso? Poderíamos ser apenas 80 meninas insatisfeitas com a grande mídia voltada para adolescentes. Mas, além disso, também fomos atrás de construir o nosso próprio meio de comunicação, em um modelo muito mais democrático, horizontal e voltado para as pessoas, não para o lucro.

Com muita felicidade, acredito que estejamos fazendo diferença. Acredito que estamos caminhando rumo a uma comunicação mais feminista, ao desmantelamento dos discursos machistas que limitam nossas vidas, rumo a uma sociedade não apenas mais feminista, mas também muito mais plural, livre e divertida.

 

***

Aproveito e deixo aqui um vídeo do Coletivo Intervozes, que pauta o direito à comunicação:

E esse vídeo sobre as mulheres na mídia, produzida pela Articulação Mulher e Mídia com apoio da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres:

E essa vinheta engraçadinha da Executiva Nacional de Estudantes de Comunicação Social:

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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