3 de julho de 2015 | Edição #16 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Para quem você conta seus segredos?

Estamos aqui hoje pra tentar descobrir as causas do fenômeno mais intrigante de todos os tempos: por que às vezes é mais fácil compartilhar segredos com pessoas que mal conhecemos do que com pessoas próximas?

Quem nunca se abriu e contou algo íntimo pra prima da amiga da sua prima em uma tarde de sorvete? Quem nunca admitiu aquela coisa secreta pra algum companheiro de viagem de ônibus, que você nunca mais veria na vida? Quem nunca deu detalhes da própria intimidade em um grupo da internet, cheio de gente que você nem conhece, sem se importar?

Para destrinchar esse mistério, vamos por partes.

1) Segredos que também são tabus

Um dos motivos de a gente confiar mais em pessoas desconhecidas do que em pessoas próximas pra contar nossas intimidades é que determinados segredos também são tabus na sociedade em que vivemos. Eu, por exemplo, demorei muitos anos para conversar com minhas amigas mais próximas sobre masturbação feminina, algo que eu facilmente poderia discutir em um grupo de mulheres no facebook. É que o tema traz uma carga social que nos faz ter vergonha de admitir certas coisas, nos faz ter medo de sermos julgadas por nossas amigas ou mesmo nos faz acreditar que é errado falar abertamente sobre isso. O mesmo acontece com a maioria das coisas relacionadas à sexualidade da mulher: tudo que envolve o prazer feminino – e, no limite, a vagina – não é para ser debatido, compartilhado, conhecido. Até mesmo porque não era nem pra estar sendo explorado – mulheres que desconhecem sua própria sexualidade são mais suscetíveis à medicalização do corpo, à submissão ao prazer masculino, à heterossexualidade compulsória etc. Dessa maneira, tabu e segredo estão interligados por uma relação de causa e consequência. Torna-se mais fácil falar sobre esses segredos-tabu em um ambiente de desconstrução política, que não necessariamente implica em um círculo de amizades restrito e íntimo, mas geralmente consiste em um grupo de pessoas desconhecidas, unidas por uma condição em comum. E se falamos de um ambiente feminista, falamos também de um ambiente de acolhimento e partilha, que nos encoraja a dividir sem medo nossos segredos com o objetivo de romper com esses tabus.

2) O medo de ser julgada

Um dos maiores medos de se compartilhar um segredo com alguém é o medo de ser julgada. Não só se o segredo é do tipo tabu, mas se algo para nós é um segredo, muito provavelmente está relacionado com algum assunto delicado, em alguma medida mal resolvido ou vergonhoso. Isso torna o fato de contar o segredo para alguém um enorme desafio: confiar na pessoa, em primeiro lugar, e ainda ter a garantia de que ela não vai te julgar. A essa possibilidade, estamos sempre vulneráveis. Mas a questão é que nos importamos muito mais com o julgamento de alguém querido e próximo do que com o de alguém desconhecido e distante. Por isso é mil vezes mais fácil acabar contando pra alguém desconhecido que você já peidou na frente da peguete do que pra sua melhor amiga. E isso me leva ao próximo tópico.

3) Segredo como vingança

Com grandes segredos, vêm grandes responsabilidades e… poderes. Um segredo especialmente secreto (rs), quando compartilhado, pode também se tornar um recurso de vingança ou chantagem para quem passa a conhecê-lo. É verdade que quando contamos um segredo pra alguém próximo, nunca esperamos que a pessoa vá usar isso contra nós mesmas, mas quem nunca sofreu chantagem do irmão mais novo depois de ter contado algo pra ele? Pois é. Por isso temos mais facilidade em dividir um segredo com alguém desconhecido – porque a pessoa dificilmente terá motivos para se beneficiar com a quebra de confiança. Há também a possibilidade de o segredo ir se espalhando pela rede de pessoas próximas. Uma pessoa desconhecida não representa nenhuma ameaça nesse sentido, já que ela também não faz parte do grupo de seu convívio e nem teria para quem deixar vazar o seu segredo.

4) Segredos e internet

Falamos bastante das dificuldades que encontramos ao compartilhar segredos com pessoas próximas e do nosso convívio, mas não falamos quase nada das facilidades que encontramos ao confiar em pessoas desconhecidas. Nesse aspecto, a internet desempenha um papel muito importante: o de tornar as pessoas, apesar de desconhecidas, mais próximas. Estar atrás de uma tela também torna o peso de contar um segredo menor. É por isso que somos capazes de tocar em assuntos íntimos com muito mais facilidade nas redes sociais, em grupos com milhares de membros no facebook e fóruns de todos os tipos do que somos capazes com nossas amigas mais próximas.

E você, acha mais fácil contar segredos pra sua bff ou pra uma pessoa desconhecida ou… é segredo?

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

  • vanessa proença

    Achei muito interessante perceber que segredo é (mais um) tabu da sociedade. Mas, também encontrar nesse escrito algumas coisas que eu já havia pensado sobre ser mais fácil compartilhar algo seu com algum desconhecido. Afinal, dificilmente isso voltará contra você. 🙂

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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