24 de agosto de 2018 | Ano 4, Se Liga | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
Para todos os garotos que já amei

Em 2013, The Hollywood Reporter, uma das mais importantes publicações sobre a indústria do entretenimento, declarou a morte das comédias românticas, mostrando a clara preferência que os estúdios vinham dando para grandes produções que permitissem a criação de sequências, como as franquias de super-heróis. Nos últimos anos realmente não vimos muita atenção ser dada a filmes “fofinhos” e românticos, como ocorria nas décadas de 1980, 1990 e 2000, que produziram os clássicos de John Hughes e Nora Ephron por exemplo.

Recentemente, porém, novas produções parecem reaquecer o gênero. Diferentemente dos filmes anteriores, hoje em dia muito criticados pela falta de diversidade no elenco e pelos clichês problemáticos nos roteiros, as comédias românticas novas se destacam por incluir minorias e trazer personagens com mais nuances. É o caso de Para Todos Os Garotos Que Já Amei, adaptação do romance de Jenny Han produzida pela Netflix, que estreou no último dia 17.

 

A diretora Susan Johnson atribui o sucesso do filme a uma demanda do público por produções mais alegres. “Acho que nos últimos anos houve muito enfoque no lado negativo do crescimento: o bullying, as dificuldades, a aceitação, questões de gênero e orientação sexual. Às vezes é legal só se perder em algo que deixe a gente feliz”, disse à revista Glamour.

A atriz vietnamita Lana Condor dá um show na pele da adolescente Lara Jean, filha de pai americano e mãe coreana. Aliás, conseguir que o papel principal fosse interpretado por uma atriz de origem asiática não foi fácil. Diversas produtoras mostraram interesse em adaptar o best-seller de Jenny Han, mas todas pretendiam embranquecer a protagonista. A autora acabou vendendo os direitos de produção para a única companhia que concordou em mantê-la asiática.

Em um artigo recente publicado no jornal The New York Times, Han descreve como teria sido importante ver uma garota que se parecesse com ela estrelando um filme durante sua juventude. “Espero que as adolescentes vejam Lana Condor e sintam o que eu sentia pelos meus ídolos adolescentes.” E completou: “Quando você vê alguém que se parece com você, isso revela as possibilidades.”

Lara Jean é uma garota de 16 anos que vive com seu pai e suas duas irmãs, Margot e Kitty. Sua mãe faleceu quando ela ainda era pequena e deixou para ela uma linda caixa de chapéu, onde a adolescente guarda cinco cartas, cada uma escrita para um menino diferente por quem já foi apaixonada. Ela nunca pretendia que as cartas chegassem a seus destinatários, porém em um belo dia alguém as envia e Lara Jean vê sua vida virar de cabeça para baixo.

O filme utiliza clichês e arquétipos mais do que conhecidos dos fãs de comédias românticas, como o namoro de mentira e o mocinho atleta popular secretamente fofo. Mas não é subvertendo esses clichês que o filme conquista o público: é justamente trabalhando a velha fórmula clássica com muito cuidado e carinho. A produção erra apenas ao manter a personagem da ex-namorada como uma vilã unidimensional – algo que na trilogia de Han é melhor desenvolvido.

O relacionamento de Lara Jean com sua família, principalmente com as irmãs, é muito bem trabalhado e ganha quase tanto destaque na história quanto o que ela desenvolve com o mocinho. Se considerarmos que a grande maioria das produções do gênero negligencia as relações familiares e só retrata competitividade entre garotas, isso ganha ainda maior importância. O filme também toca em temas muito atuais como machismo, exposição online e slut-shaming, apesar de não se aprofundar em nenhum deles.

A estética da produção também precisa ser elogiada. Os figurinos, carregados de gargantilhas choker, meias até os joelhos e mini-saias quadriculadas, remetem a clássicos filmes teen dos anos 1990, como As Patricinhas de Beverly Hills. A trilha sonora cheia de canções pop ligeiramente desconhecidas captura perfeitamente a atmosfera da história, sem se sobrepor a ela.

Para Todos os Garotos Que Já Amei é um filme doce, divertido e romântico, que faz a gente lembrar como é gostoso ser jovem e se apaixonar. E em tempos tão difíceis quanto os atuais, às vezes é justamente disso que a gente precisa.  

Mariana Fonseca
  • Coordenadora de Saúde
  • Colaboradora de Literatura e do Leitura das Minas

Mariana tem 25 e se formou em medicina. Carioca, ama viver no Rio de Janeiro, mas sonha em voltar para a Escócia. É feminista deboísta e acredita que todo mundo merece chá.

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